A Revolução Russa e a Educação

Dos editores*

A Revolução Russa de outubro de 1917 é um acontecimento histórico de múltiplas dimensões, tal é o significado radical de sua ocorrência e o impacto que teve no mundo inteiro. No limite, ainda que continue a provocar o ranger de dentes do pensamento conservador reacionário que insiste em querer ignorar sua profundidade, é possível que o movimento liderado por Lênin esteja entre as duas ou três grandes transformações mais importantes da História.

O fato de que a construção do comunismo tenha entrado em colapso nos anos 90 não significa que a utopia de uma sociedade marcada pela igualdade social tenha desaparecido. Ao contrário, esse continua sendo o desafio permanente e o questionamento que envolve todas as correntes do pensamento contemporâneo no campo da Filosofia, da Economia, da Sociologia e das próprias tendências do pensamento religioso.  Essa parece-nos ser a herança da Revolução Russa e a transcendência de sua sinalização: não é possível ser indiferente a um mundo que tem na desigualdade social o pilar principal de sua sustentação, como parece ser este em que nós vivemos em pleno século XXI, daí porque uma inspiração política de matriz socialista continua sendo o divisor de águas do nosso tempo. A construção do comunismo soviético pode ter fracassado tal como o sistema de estruturou, mas o pressuposto da utopia que alimentou os líderes de outubro de 1917 continua inspirando projetos de construções sociais baseadas na justiça social e na emancipação plena do Homem.

Naturalmente, não é preciso ter intimidade de alguma erudição histórica para que se perceba que a Educação ocupou no projeto de 1917 um papel nuclear, na medida em que a Revolução, com os desafios que se impunha, passava pela necessidade de permitir a potencialização de um saber posto a serviço de um novo Homem, uma nova sociedade. Um indivíduo cuja percepção do mundo em que vive não tenha como referência exclusiva o sentido privado e autorreferente de sua existência, mas o seu significado humano-genérico, comum, solidariamente partilhado. Os professores, pela razão de serem integrantes de uma profissão que lida pedagógica e sistematicamente com esses enunciados, sabem o valor humanista da construção da Escola enquanto instituição que tem no conhecimento socialmente amplo sua razão de ser. Não é, portanto, descabido pensar que também a Educação foi atingida pela lógica do igualitarismo: de que outra forma seria possível pensar no saber senão na sua dimensão coletiva e socialista? Seria preciso desenvolver um inimaginável exercício de pesquisa para que fosse possível descobrir um único grande pedagogo que não tenha colocado como núcleo de suas preocupações esse pressuposto…

É nesse sentido que este número da revista Giz pretende fazer uma breve reflexão sobre  a figura de Anton Makarenko, autor de Poema Pedagógico, provavelmente o precursor de uma filosofia da Educação baseada nos ideais socialistas de outubro de 1917 e que, pela universalidade de sua concepção, manteve-se como uma referência para a pedagogia que foi além de sua pertinência à conjuntura revolucionária e se estendeu como paradigma pedagógico marcado por sua generosidade social, como se poderá observar os textos que oferecemos aos leitores da revista.

Neste número da Giz, dois trabalhos falam de Makarenko; um terceiro é de autoria dele próprio.

O primeiro desses textos, de autoria da Professora Roberta Bencini, publicado originalmente na revista Nova Escola, apresenta o cenário da formação, das ideias e da atuação revolucionária de Anton Makarenko.  É seu momento seminal pois é nele que o autor de Poema Pedagógico formula, na prática e com grande percepção teórica sobre os fundamentos da liberdade do aluno, os princípios que veem a escola como espaço da coletividade e não do individualismo empobrecedor do conhecimento.

O segundo texto é o da Professora Zóia Prestes (foto à esquerda), autora do ensaio que fecha como posfácio a obra mais conhecida de Makarenko, Poema Pedagógico. A reflexão de Zóia mostra o que foi a experiência pedagógica na Colônia Gorki entre 1920 e 1928, onde o educador atuou: o resgate de jovens que viviam na marginalidade para a cidadania da construção do novo país. Trata-se de um precioso registro sobre o sentido que inspira a docência, isto é, a intensa dedicação ao ser humano – referência que sustenta toda a obra de Makarenko.

Zoia Prestes é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, formada em Pedagogia e Psicologia pela Universidade Lênin de Pedagogia de Moscou. Residiu exilada 15 anos na União Soviética. Traduziu para o português obras de autoria escritores como Pasternak, Bulgakov, Maiakovski, Bukharin, Gumiliov. Atualmente, dedica-se à tradução para o português da obra de Lev Vigotski, um dos maiores expoentes da teoria histórico-cultural que nasceu com o advento da Revolução de Outubro.

O último é de autoria do próprio Anton Makarenko. Optamos pela transcrição de um dos capítulos do livro Poema Pedagógico (São Paulo, Editora 34, 2012, 653p, tradução de Tatiana Belinky).  Trata-se do capítulo 8, que recebe o título de Caráter e Cultura, uma reflexão que conta, numa narrativa situada entre a literatura e o relato objetivo do cotidiano tenso da Colônia, ambiente inicialmente hostil à delicadeza conceitual com que Makarenko lida com aqueles que sua disposição e firmeza filosófica iria recuperar para a cidadania.


* Corpo editorial formado por Silvia Barbara, J.S. Faro, Francisco Bicudo e Gabriela Ziebert 

Tags:

Não há comentários ainda

Deixe uma resposta