Caráter e Cultura

O texto abaixo faz parte da obra ‘Poema Pedagógico’, publicado pela Editora 34, que gentilmente nos autorizou a utilizá-lo nesta edição

A chegada dos novos colonistas causou um forte abalo no nosso frágil coletivo e recaímos novamente em algo próximo de um “valhacouto”.

Nossos primeiros educandos tinham sido organizados numa ordem precária, apenas para as necessidades elementares, e os novos adeptos do anarquismo pátrio estavam ainda menos dispostos a se submeterem a qualquer tipo de regulamento. Cumpre dizer, entretanto, que a resistência aberta e a grosseria agressiva para com o pessoal docente da colônia não mais renasceram. Pode-se supor que Zadórov, Burún e Taranêts e outros souberam comunicar aos novatos a breve história dos primeiros dias gorkianos. Tanto os velhos como os novos colonistas sempre mostraram a convicção de que o pessoal docente não representava uma força hostil para com eles. A razão principal deste estado de ânimo residia indiscutivelmente no trabalho dos nossos educadores, tão desprendido e obviamente penoso, que de fato infundia respeito. Por isso os colonistas, com raras exceções, sempre estavam em boas relações com eles, reconheciam a necessidade de trabalhar e de estudar na escola e compreendiam claramente que tudo isso representava nossos interesses mútuos. Preguiça e má vontade de suportar privações se manifestavam entre nós em forma puramente zoológicas e jamais assumiam a forma de protesto.

Nós nos dávamos conta de que todo esse bem-estar era mera forma exterior de disciplina e que detrás dele não se ocultava nenhuma, nem mesmo a mais elementar, cultura.

A questão do motivo pelo qual os colonistas continuavam a viver nas condições da nossa penúria e do trabalho bastante pesado, a razão por que eles não fugiam, tinha de ser resolvida, evidentemente, não só no nível pedagógico. O ano de 1921 não oferecia nada de invejável em termos de vida de rua. Embora a nossa província não constasse do rol das que passavam fome, o fato é que na própria cidade as condições eram muito penosas e talvez até houvesse fome. Ademais, nos primeiros anos, nós não recebíamos menores abandonados qualificados, acostumados à vagabundagem na ruas. A maior parte dos meninos era de filhos de família, que só recentemente haviam rompido os laços com ela.

Nossos jovens representavam em média uma combinação de traços de caráter muito pronunciados com urna condição cultural muito limitada. Eram justamente esses que as autoridades procuravam mandar para a nossa colônia, especialmente designada para os dificilmente reeducáveis. A imensa maioria deles era de semianalfabetos e analfabetos totais, quase todos estavam habituados à sujeira e aos piolhos e, para com os outros seres humanos, criara-se neles uma permanente postura defensivo-agressiva de ameaçador heroísmo primitivo.

De toda essa multidão, destacavam-se uns poucos indivíduos de nível intelectual mais alto, como Zadórov, Burún, Vietkóvski, Brátchenko e, entre os recém-chegados, Karabánov e Mitiáguin. Os outros só muito lenta e gradativamente se adaptavam às conquistas da cultura humana, tanto mais lentamente quanto mais pobres e famintos éramos nós.

No primeiro ano, o que nos deprimia especialmente era a sua constante tendência para as desavenças mútuas, os laços coletivos extremamente frágeis, destruídos a cada passo por meras ninharias. Em grande medida, isto nem se originava de alguma hostilidade, mas sempre daquela mesma postura pseudo-heroica, não mitigada por qualquer consciência política. Embora muitos deles já tivessem integrado campos de inimigos de classe, não possuíam qualquer noção de pertencerem a esta ou aquela classe social. Quase não tínhamos entre nós filhos de operários, o proletariado era para eles algo distante e desconhecido, e eles nutriam profundo desprezo pelo trabalho agrícola, aliás, não tanto pelo trabalho corno pelo estilo de vida e pela mentalidade retrógrada dos camponeses. Disso repulsara um vasto espaço para toda sorte de atitudes arbitrárias e manifestações de personalidade alienada e selvagemente impulsiva na sua solidão.

O quadro geral era deprimente, mas, não obstante, os embriões do coletivo, semeados no decorrer do primeiro inverno, brotavam silenciosamente na nossa sociedade, e era preciso salvar esses embriões a qualquer custo, não se podia permitir que os novos contingentes sufocassem esses brotos preciosos. Considero meu mérito principal o fato de que já naquela época eu percebi essa importante circunstância e a avaliei devidamente. A defesa daqueles brotos resultou depois num labor tão incrivelmente penoso, num processo tão interminavelmente prolongado e fatigante que, se eu o soubesse antes, decerto me assustaria e desistiria da luta. O melhor era que eu sempre me sentia às vésperas da vitória, e para isso era preciso ser um otimista incorrigível.

Cada dia da minha vida de então incluía necessariamente tanta fé, como alegria e desespero.

Eis que tudo vai aparentemente bem. Ao anoitecer, os educadores terminaram seu trabalho, leram um livro, conversaram um pouco, jogaram um jogo, desejaram boa-noite à rapaziada e se dispersaram. Os rapazes lá fica­ram em boa paz, preparavam-se para ir dormir. No meu quarto, ouço as últimas batidas do diurno pulsar do trabalho, Kaliná Ivánovitch ainda per­manece comigo e, como de costume, emite as suas generalizações, demoram­-se ainda um ou outro colunista curioso, junto à porta Brátchenko e Gud se preparam para o ataque de rotina sobre Kaliná Ivánovitch a respeito de ques­tões de forragem, quando um garoto irrompe aos berros:

— Os rapazes estão se esfaqueando no dormitório!

Saí do quarto em disparada. No dormitório, balbúrdia e gritaria. Num canto, dois grupos freneticamente eriçados e engalfinhados. Gestos ameaça­dores e investidas se misturam com impropérios estonteantes; alguém dá um “pé no ouvido” em outro alguém; Burún arrebata o punhal finlandês de um dos heróis, enquanto de longe gritam para ele:

— E você, para que se intromete? Quer que eu te assine a cara? Sentado na cama, cercado por um grupo de simpatizantes, um ferido

enrola em silêncio a mão lanhada com um pedaço do lençol.

Eu nunca separava os briguentos nem tentava gritar mais alto que eles. Atrás de mim, Kaliná Ivánovitch sussurrava assustado:

—Ai, depressa, depressa, querido, que esses parasitas vão se degolar uns aos outros…

Mas eu permaneço na porta, em silêncio, observando. Pouco a pouco os rapazes notam minha presença e vão se calando. O silêncio que se instala rapidamente obriga mesmo os mais furiosos a voltarem a si. Escondem-se as navalhas finlandesas e baixam-se os punhos cerrados, os monólogos obsce­nos e furibundos interrompem-se no meio da palavra. Mas eu continuo ca­lado: dentro de mim fervem a ira e o ódio contra todo esse mundo selvagem. É o ódio da impotência, porque eu sei muito bem: hoje não é o último dia.

Finalmente, instala-se no dormitório um silêncio opressivo e pesado, silenciam até os sons surdos de respiração ofegante.

Então, súbito, explodo eu mesmo, assolado por uma erupção de raiva verdadeira e com plena e consciente convicção de que assim tem de ser:

— As facas na mesa! E rápido, com os diabos!…

As facas são colocadas sobre a mesa: navalhas finlandesas, facas de cozinha especialmente apanhadas para represália, canivetes e lâminas fabricadas na nossa própria oficina. O silêncio continua a pesar sobre o dormitório. Junto à mesa, sorridente, está Zadórov, o encantador, o simpático Zadórov, que agora me aprece o ser humano mais querido. Dou ainda mais uma ordem breve:

—   Porretes?

— Um porrete está comigo, eu o tomei — diz Zadórov.

Todos parados, de cabeça baixa.

— Dormir!…

Não saio do dormitório até que todos estejam deitados.

No dia seguinte, os rapazes procuram não mencionar a baderna da vés­pera. Eu também não me refiro a ela.

Passa um mês ou dois. No decorrer desse tempo, focos de hostilidade bruxuleiam fracamente em alguns cantos recônditos e, se ensaiam recrudes­cer, são rapidamente abafados pelo próprio coletivo. Mas súbito a bomba explode de novo, e novamente os colonistas enfurecidos, perdida a feição humana, perseguem-se mutuamente de facas em punho.

Certa noite eu percebi que se tornava imperioso apertar os parafusos, como se diz entre nós. Após uma das brigas, ordeno que Tchóbot, um dos mais irrequietos cavaleiros da navalha finlandesa, compareça no meu quar­to. Ele se arrasta até lá, obediente, e eu lhe digo:

— Você terá de deixar a colônia.

— E para onde eu irei?

— Aconselho que vá para um lugar onde é permitido esfaquear os ou­tros. Hoje só porque um companheiro não lhe cedeu o lugar à mesa, você o espetou com uma faca. Então, procure um lugar assim, onde as discussões se resolvem a facadas.

— Quando eu devo ir?

— Amanhã cedo.

Ele sai, taciturno. De manhã, ao desjejum, todos os rapazes se dirigem a mim com um pedido: deixar que o Tchóbot fique conosco, eles se respon­sabilizam por ele.

— Se responsabilizam, de que maneira?

Eles não entendem.

— Vocês se responsabilizam, como? E se ele pegar numa faca, assim mesmo, que é que vocês vão fazer nesse caso?

—  Nesse caso, o senhor o expulsa.

— Quer dizer que vocês não se responsabilizam com coisa alguma? Não, ele vai embora da colônia.

Após o desjejum, Tchóbot me abordou e disse:

—Adeus, Anton Semiónovitch, obrigado pela lição…

—      Até logo, não me lembre mal. Se as coisas ficarem difíceis, volte. Mas não antes de duas semanas.

Dentro de um mês ele voltou, pálido e emagrecido.

— Então eu vim, como o senhor falou.
—      Não encontrou aquele lugar?

Ele sorriu.

—      Por quê, “não encontrou”? Existem lugares assim… Eu vou ficar na colônia, não pego mais numa faca.

No dormitório, os colonistas nos saudaram carinhosamente:

—      Então o senhor sempre o perdoou! Nós não dissemos?


 

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