Inteligências, dor e a saúde profissional

Por Cláudia Cezar*

Por solicitação da Oracle, fiz uma palestra para seu comitê Oracle Women’s Leadership, sobre a interferência da má saúde no desempenho dos líderes, no ambiente de trabalho. O conteúdo da minha fala partiu da seguinte constatação: sendo a saúde 1/4 das nossas maiores riquezas – saúde, tempo, conhecimento e dinheiro – por que somente valorizamos esta fortuna, que é intransferível, quando já foi perdida?

Como Educadora, especialista em educação para saúde, atuando exatamente no tratamento não medicamentoso da obesidade – TMO – e suas consequências, minha interação com profissionais sem tempo para cuidar de si é muito grande. Em geral, os minutos deles são escassos porque atuam como coordenadores, gerentes, diretores, gestores, profissionais liberais e professores que me procuram para entender sobre o processo de adoecimento a fim de tratar-se, de aprender melhor sobre esta temática para prevenir-se e até para ensinar sobre o assunto, seja no ambiente em que trabalham ou para seus próprios pacientes e clientes.

Na palestra da Oracle, procurei sintetizar minha visão na ótica do que considero as principais armadilhas de perda da saúde, separando-as em quatro grandes temas: (1) dor; (2) corpo; (3) longevidade e (4) autogestão da saúde. Neste artigo, o primeiro de quatro, vou abordar as armadilhas que consomem a boa saúde na perspectiva da dor.

Entendo que uma importante armadilha é o profissional não ter visão sistêmica de sua saúde, pois identifica a dor exclusivamente pela ótica superficial de suportá-la, acreditando que ela “vai passar”, ou de acabar imediatamente com ela, por meio de um analgésico. Estas duas ações, no entanto, não tratam a dor. Aliás, ela existe porque é um fenômeno para alertar sobre a ocorrência de um erro no sistema biopsicosocioemocional e espiritual do ser humano.

Como explica a World Health Organization, toda dor é proveniente do desarranjo de uma destas quatro dimensões humanas: física, mental, emocional ou espiritual (classicamente exemplificado nesta animação educativa link).

Ao contrário do que se difunde, a dor se inicia em intensidade fraca, quase imperceptível e, devido ao overstress diário, poucos profissionais a percebem em seu estágio inicial.

No entanto, quando a dor não é atendida, sua intensidade se eleva

A seriedade da dor para o diagnóstico de doenças, tratamentos e prescrição de medicamentos levou os pesquisadores a produzirem instrumentos de mensuração, como este da imagem 2, explicado em detalhes nesta apresentação do Hospital das Clínicas – HC (link).

Como reconhecer os estágios iniciais de dor?

Na minha experiência, mais de 87% das pessoas chegam ao consultório estão praticamente insensíveis a dor dos estágios iniciais. Quase 100% delas iniciam o tratamento com dificuldade de apoiar os pés para se locomover, como mostra este vídeo educativo que associa conceitos de Física, do ensino básico, com as Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner, para explicar esta imbricada temática (link). Assim que realizamos as primeiras atividades elas conseguem reconhecer que sua dificuldade de identificar os estágios iniciais da dor ocorreram porque, desde cedo, foram ensinadas a desconsiderar estes sinais. Seja porque aprenderam suportar este sofrimento, para ignorar a existência do desconforto, seja porque é costume da família usar medicamentos para inibir esta fundamental sinalização de alerta. Ambas demonstram uma cultura de desconsideração dos sinais iniciais de dor.

Mais do que uma armadilha, em alguns casos percebo as pessoas em uma zona de conforto perigosa e, alienadas sobre a complexidade humana, vivem em busca de medicamentos sem qualquer interesse por entender a origem de sua dor. As buscas desordenadas para erradicar a dor formam as condições básicas para desenvolver hipocondria, conforme explica, neste vídeo, o renomado psiquiatra Flávio Gikovate (link).

Uso o termo perigo para me referir tanto à falta de percepção do valor de entender as causas reais da dor, para fazer melhores escolhas comportamentais e prosperar na condição de saúde, como também para o risco potencial de limitações físicas e mentais que todo sofrimento, não tratado, pode causar para a vida útil de um profissional. O artigo “Sofrimento e o trabalho docente”  da conceituada jornalista Claudia Priore, exemplifica ricamente esta questão (link).

Instituições como a Oracle, bastante atenta com a preciosidade da saúde de seus profissionais para a lucratividade da empresa, investem em palestras, cursos e programas de treinamentos para ensinar sobre autogestão da saúde, em especial para as doenças crônicas não transmissíveis – as DCNTs, que são a 7ª Diretriz de saúde da FEBRABAN, por exemplo. Mas longe de ser um agrado corporativo, aprender a fazer a autogestão da gestão é uma necessidade humana porque o principal obstáculo para identificar a dor e usá-la como fator de prevenção de doenças e promoção da saúde é a própria pessoa (veja mais no estudo do HC).

Educar para a saúde é uma necessidade real da atualidade e, por isto, desde 1996 desenvolvo esta temática com professores, como mostrei no artigo “Alternativas acadêmicas” (link). É preciso orientar que as dores somente se intensificam quando começam a construir a doença ou desencadear um desfecho prejudicial porque, se os alertas iniciais forem ignorados ou inibidos, permite-se a ocorrência de dano(s) interno(s), em uma ou mais dimensões da pessoa. Este prejuízo faz aumentar a intensidade da dor. Um exemplo clássico é o infarte agudo do miocárdio (IAM), um grave estrago no tecido cardíaco que é precedido por forte dor no peito, que ocorre após outros sinais mais leves e sutis, sinalizados pelos indicadores de colesterol e triglicérides altos no sangue. A progressão desta dor inicial até a ocorrência de um IAM é descrita de forma didática, e muito divertida, no filme “Alguém tem que ceder” (link), como só o cinema pode fazer. O que me leva a uma reflexão final é, embora aprender sobre autogestão da saúde seja um tema estratégico para qualquer pessoa ou empresa, dentro do que cabe a cada um de nós, o que é possível começar a mudar, ou fazer melhor, hoje?


Referências

  1. Animação postura e dor – sem legendas – 2 minutos https://www.youtube.com/watch?v=zOqjKU4qcJY
  1. Avaliação e mensuração da dor – Grupo de DOR do Hospital das Clínicas – slides

http://www.anestesiologiausp.com.br/wp-content/uploads/avaliac%CC%A7a%CC%83o-e-mensurac%CC%A7a%CC%83o-da-dor-2016.pdf

  1. Pés e obesidade – autorespeito é parte do tratamento – 3 minutos

https://www.youtube.com/watch?v=fHtsyufosHI&t=1s

  1. Hipocondria e o medo de doenças – Dr. Gikovate – 8 minutos https://www.youtube.com/watch?v=fCrTcelx60Q&t=109s
  1. Artigo “Sofrimento e o trabalho docente” – Claudia Priore, Revista Giz

http://revistagiz.sinprosp.org.br/?p=6808

  1. Artigo “Alternativas acadêmicas” – Claudia Cezar, Revista Giz

http://revistagiz.sinprosp.org.br/?p=7031

  1. Trailer do filme “Alguém tem que ceder” – verifique a faixa etária indicativa

https://www.youtube.com/watch?v=CSjI-xiH7j0



  • Claudia Cezar é Educadora com doutorado em Nutrição Humana pela USP onde foi professora e pesquisadora no CEPEUSP. É autora convidada nos livros: Obesidade, Editora Grupo Gen; Corpo alteridade e Sintoma, Editora Vetor; e Adolescência e Saúde, publicado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Seu último livro é Comer tratar curtir: a história da criança que, para emagrecer, decidiu parar de comer, lançado no 18º Congresso Brasileiro de Medicina Psicossomática. Atualmente é docente e pesquisadora no Instituto Perfil Esportivo de Pesquisa, Ensino e Consultoria em Obesidade Humana – IPEPCOH.

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