Sofrimento e o trabalho docente

Por Claudia Priore*

“O que deixa a gente com estresse, depressão é você querer fazer e não conseguir, você se sentir derrotada, incapaz, e você é incapaz hoje, incapaz amanhã, incapaz depois de amanhã e isso dá a sensação de derrota. A minha angústia em sala de aula é a situação da derrota.” Esta é a declaração de uma professora do Ensino Básico de uma escola particular de São Paulo. Você se identifica?

“A gente desenvolve muitos problemas de saúde por conta dessa demanda no trabalho, e se você não tiver muita vontade naquilo que você está fazendo, muita clareza que você pode ser ajudado e ajudar o outro, você se perde.” E com a declaração deste professor?

“Eu apago, minha esposa fala, ela chama, eu não ouço. Mesmo quando consigo dormir um sono profundo, acordo cansado ainda.” Você já passou por isso?

Estas declarações fazem parte de uma pesquisa realizada pela FUNDACENTRO que resultou no livro “O Trabalho De Professores Na Educação Básica Em São Paulo” e que é apenas mais um dado que reforça o desgaste emocional que o professor enfrenta diariamente.  Embora faça parte da rotina dos professores isto não é normal, o professor não deveria se sentir assim.

Estudioso das relações entre o trabalho e a saúde, psiquiatra, professor doutor em medicina do trabalho, Christophe Dejours defende a tese de que o reconhecimento no trabalho é o que há de mais importante para a saúde mental dos indivíduos porque dá um sentido ao sofrimento. “Não há crise psicopatológica que não tenha em seu núcleo uma crise de identidade. Ao não contar com os benefícios do reconhecimento de seu trabalho nem poder aceder ao sentido da relação que vive com esse trabalho, o sujeito se confronta com seu sofrimento e só a ele. Sofrimento absurdo que só produz sofrimento, dentro de um círculo vicioso, e que será desestruturante, capaz de desestabilizar a identidade e a personalidade e causar doenças mentais. Por isso, não há neutralidade no trabalho em relação à saúde mental” acrescenta o medico. Então, como o professor está  tratando sua saúde mental?

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que a profissão do professor é uma das mais estressantes do mundo. A sobrecarga laboral é apontada como um dos principais fatores desta situação seguido diretamente pelo esgotamento emocional segundo Guy Ryder, Diretor Geral do OIT. Também é dominada pelos professores a Síndrome de Burnout (do inglês to burn out, queimar por completo) também conhecida como Síndrome do esgotamento profissional. Trata-se de um estado muito parecido com a depressão, porém estudos mostraram que, o professor, ao ser retirado de seu ambiente de trabalho volta rapidamente, e sem a necessidade de medicação, ao estado normal o que prova um problema relacionado puramente ao laboral e não ao psíquico do professor.  Outra síndrome tipicamente presente na vida dos professores é a do Sofrimento Psíquico Intenso apontado pela terapeuta Profª Doutora em psicologia social e do trabalho, Renata Paparelli como um passo muito próximo doe transtornos mentais mais sérios.

Os sintomas são bem conhecidos da maioria: insônia, taquicardia, tremores ou dormência nas mãos, tontura, sudorese excessiva, esgotamento físico e mental permanente, tensão mandibular, tristeza, perda de motivação, impaciência, desgaste psíquico, deterioração cognitiva e afetiva, sentimento de culpa e medo. Estes são os sintomas mais comuns, mas não aparecem todos de uma vez no mesmo indivíduo. Os casos mais clássicos são muito parecidos com a depressão e muitas vezes são confundidos por ela pelos profissionais de saúde.  O prof. Edésio Tavares de Santana, mestre em educação e autor de vários livros que tratam de Burnout e outros fatores ligados ao stress do professor, alerta que basta ter 4 ou 5 destes sintomas para se preocupar e buscar cuidados especiais.

Segundo o mestre e professor Carlos Roberto Ramos da Silva, outro estudioso do assunto, a causa é a própria atividade docente. “O aluno vai para a escola apenas atrás de um diploma e a instituição quer vendê-lo. O professor é apenas o obstáculo entre a negociação das duas partes.” Com a mercantilização do ensino o professor perdeu seu papel e acaba sendo o culpado de tudo. “Não existe mais o aluno que não aprende, mas sim o professor que não ensina”, acrescenta Carlos. Além disso, existe a questão da meritocracia do professor que passa a ser substituída por uma relação de amizade ou subserviência entre o professor e a coordenação ou direção. Acrescente a este cenário o aumento da demanda burocrática que trouxe muitas horas a mais de trabalho e o professor não precisa só ensinar, mas precisa preencher planilhas, planejamentos intermináveis, diários eletrônicos, participar de reuniões e cada dia aparece algo novo, algo a mais a fazer.  O professor acaba se sentindo como em um regime de servidão para a instituição e sem nenhum reconhecimento vai se sentindo cada vez mais frustrado e isolado. O professor Carlos também foi uma vítima do sistema. Professor há mais de 30 anos conta que acabou doente e precisou se afastar por causa do que sofria no trabalho.

Esse relacionamento deteriorado e mercantilizado também foi apontado no trabalho das professoras Mary Sandra Carlotto e Lílian dos Santos Palazzo. Segunda elas “A estrutura social vigente, que privilegia as leis do mercado, também se vê refletida na escola, que passa a ser avaliada a partir de parâmetros de produtividade e eficiência empresarial”. Nesse contexto, “os professores, como trabalhadores, passaram a preocupar-se não só com suas funções docentes, mas também com questões baseadas no paradigma da civilização industrial, isto é, sua estabilidade e salário”. No atual modelo, ao professor são atribuídas funções muito além de sua carga horária. Além das classes, deve fazer trabalhos administrativos, planejar, reciclar-se, investigar, orientar alunos e atender aos pais. Também deve organizar atividades extraescolares, participar de reuniões de coordenação, seminários, conselhos de classe, efetuar processos de recuperação, preenchimento de relatórios periódicos e individuais e, muitas vezes, cuidar do patrimônio material, recreios e locais de refeições.

A psicóloga Dra. Renata Paparelli coordenadora da Clínica do Trabalho da PUC-SP, que observa vários grupos de professores, atenta para as jornadas intermináveis, a perda de autonomia na criação e elaboração de seu trabalho e a relação comercial entre escola e pais ou alunos, que coloca o professor em situação de “empecilho”, são os principais fatores causadores deste sofrimento profissional.  Os professores hoje enfrentam salas lotadas, têm pouco espaço para reflexão, precisam se deslocar entre várias escolas para compor uma renda mínima, e ainda precisam utilizar as horas de folga para dar conta do trabalho burocrático. Junte a isso o pouco, ou quase nenhum reconhecimento de seu trabalho e você terá um professor isolado, triste, que não consegue dormir, que se sente totalmente esgotado e frustrado. Muitas vezes este ambiente desenvolve no professor um Transtorno de Stress Pós-traumático muito confundido com síndrome do pânico. Um dos grandes desafios, segundo Renata, é o profissional da saúde saber diferenciar os dois. Poucos são os profissionais com especialidade em transtornos laborais. O problema é que, tratar um professor com transtorno laboral como se fosse síndrome do pânico, simplesmente não irá resolver o problema.

E o que é possível fazer num quadro destes? A sugestão do Profº Edésio é uma mudança de vida. “É preciso eleger prioridades, reduzir a carga horária, saber dizer não, buscar hobbies, cuidar da saúde fazendo atividade física, compartilhar os sentimentos, sorrir mais, dormir melhor e descansar”. A psicóloga Dra. Renata Paparelli recomenda terapia, mas também sugere ao professor que saia do isolamento procurando compartilhar, compor alianças, resgatar o coletivo no trabalho. Criar formas de enfrentamento no como lidar com as situações ou no como agir perante elas, pode ser uma saída segundo ela. Seja qual for a estratégia escolhida o mais importante é saber que você não está sozinho e procurar ajuda o mais rápido possível.

Onde procurar ajuda:

Clínica do Trabalho – PUC-SP

Rua Almirante Pereira Guimarães, 150

Tel: (11)3862-6070

(basta telefonar para passar por uma triagem e ser encaminhado)

* Claudia Priore é professora, diretora do Sinpro-SP e jornalista


Para ampliar o debate sobre este assunto:

“Agressões ocultas & enfrentamento stalking feminicídio burnout workaholism & resiliência pessoal/familiar : o que devemos saber e fazer em prol do nosso bem-estar”

Edésio T. Santana 96 páginas   ISBN 978-85-290-1035-9

 “O Trabalho dos Professores na Educação Básica em São Paulo”  disponível para download no link:

“Condições de trabalho e suas repercussões na saúde dos professores da Educação Básica no Brasil – Estado da Arte” disponível para download no link:

 

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