Pílulas da Flip

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo*

Matéria cinzenta (Conversas sobre o cérebro)

Henry Marsh – Neurocirurgião britânico, autor de ‘Não causarei nenhum dano: histórias de vida, morte e cirurgia cerebral’ (2016)

“Ser neurocirurgião é como fazer alpinismo, não é para covardes. Conto uma história que aconteceu comigo há vinte anos. Era um paciente que tinha um enorme tumor cerebral. Gastei dezoito horas num procedimento que era para ser heroico. Achava que eu era um Tarzan, um super-homem. Mas foi um desastre. Às duas horas da manhã, lesionei um vaso microscópico. O paciente teve um derrame. Entrou em coma permanente. Até aquele dia, eu sempre ouvia músicas durante as operações. Era como se fosse uma expressão gloriosa da minha competência, da minha habilidade. Parei. Nunca mais ouvi. Foi o primeiro desastre. Relato esse caso no livro não para exorcizar o erro, mas para reelaborá-lo. Quando escrevi, já tinha me perdoado. Hoje, quando vou bem numa cirurgia, não sinto que sou fenomenal. A sensação é de alívio. Com o erro, você se torna mais humilde, mais modesto, aprende a cobrar menos de você. O mais importante para a neurocirurgia moderna é que a era dos Michelangelo e dos Beethoven já passou. Perdi aquela soberba. Tornei-me um cirurgião melhor. Todas as semanas, atendo pessoas com danos no lobo frontal. Pode ser uma lesão aparentemente inocente. A pessoa anda, fala. Mas o comportamento social e a personalidade ficam destruídos. Há alterações graves de conduta ética. Porque é muito claro – nós somos os nossos cérebros. Essa é a mensagem da neurociência moderna. Alguns acham ofensivo, sem magia, dizem que não somos robôs nem computadores. Não é ofensivo. É o que a nossa ciência consegue alcançar e explicar. Se há como prever se vamos criar um cérebro em laboratório? Não. Primeiro porque a consciência é algo extremamente subjetivo, não dá para estudá-la do ponto de vista científico. Segundo porque a ciência é baseada em experimentações e há limites, inclusive éticos, para o que você pode estudar no cérebro. É difícil portanto você criar esse cérebro que consiga escrever poesias, por exemplo. Não me sinto filosoficamente ameaçado pela inteligência artificial”.

Suzana Herculano-Houzel – Neurocientista, ex-professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, atualmente na Universidade Vanderbilt (Tennessee), autora de ‘O cérebro nosso de cada dia ‘ (2002) e de ‘The human advantage’ (2016, ainda não publicado no Brasil).

“O nosso trabalho foi basicamente transformar o cérebro numa sopa. Foi a maneira que encontramos para contar as células, os neurônios. Até então, havia muito achismo, uma ordem de grandeza irreal. Tornamos o cenário mais preciso. Assim conseguimos chegar a um novo entendimento do cérebro humano, que não é especial, não é extraordinário, não é ponto fora da curva. É um cérebro de um primata grande. É uma constatação que a gente considera elementar e simples, mas que traz um novo entendimento de onde nos encaixamos na evolução. Nosso diferencial é a grande concentração de neurônios na região do córtex cerebral. É o que nos oferece a capacidade biológica de criar, de inventar, de pensar em problemas e soluções, de idealizar tecnologias, numa espiral que é crescente, graças à cultura. A pergunta que se coloca é – por que só nós temos essa concentração no córtex? A resposta está relacionada à alimentação. Se a gente comesse como outros primatas, passaríamos o dia ocupados só com comida. O nosso grande salto foi a transformação energética que o cozimento dos alimentos traz, de maneira bastante ampla – o uso do fogo, o cortar e amassar carnes, caules e raízes. Isso amplia extraordinariamente a quantidade de calorias que você consegue processar e armazenar. Parece banal, tão prosaico, mas tem um poder transformador extraordinário. Você ganha tempo para se dedicar a outras tarefas. Depois dessa percepção, nunca mais vi a minha cozinha da mesma maneira. É um lugar que merece reverência. Aliás, nossa espécie não deveria se chamar Homo sapiens, mas Homo culinarius”.


Breviário do Brasil

Benjamin Moser – Escritor estadunidense, biógrafo de Clarice Lispector e autor de ‘Autoimperialismo’ (2016)

“Capistrano de Abreu dizia que a imagem símbolo do Brasil é o jaburu, ave de estatura avantajada, pernas grossas, com semblante sempre triste, melancólico, deprimido. É uma boa metáfora do país, que tem muito forte essas referências do samba, das praias, das mulatas, mas que, quando você chega de fora e conhece de verdade, é um lugar bem mais triste do que aparenta. O Brasil, quanto mais você entra nele, menos você entende. Cada vez que venho para cá, vejo muita coisa que não tinha visto na passagem anterior. É diferente de Lisboa, onde você sente e vê a tristeza de maneira explícita. Está no fado. No Rio de Janeiro, por exemplo, tem uma saudade que é mais escondida. Nos últimos anos, presenciei uma euforia extraordinária por aqui. Mas quando a estrutura é frágil, as instituições não são fortes, a empolgação vem seguida da depressão. É o que estamos vivendo. O jaburu voltou. Os brasileiros são muito nacionalistas. Tudo aqui é verde e amarelo. Ao mesmo tempo, olhando para as cidades, você nota um nacionalismo exagerado combinado com um desejo de assassinar o país. Essa contradição desemboca num desejo de negar o que é a história do Brasil. Penso que seja preciso desenvolver outro olhar sobre essa história, que não negue, mas também não só celebre, e que esteja disposto de verdade a compreender essa trajetória. Um pouco dessa bipolaridade aparece e reverbera também nos monumentos brasileiros, que expressam uma perspectiva de liberdade, de valorização da cultura, mas sempre flertam com artistas e ideais importados. No Ipiranga, monumento à independência, está enterrado o rei de Portugal. Brasília, nova capital, consagra a ideia de tomar posse do Brasil. É o que eu chamo de autoimperialismo. Essa dimensão surge também na retórica da invasão – a favela vai invadir as praias, a favela vai ser invadida pelas forças policiais. É um Brasil em guerra com ele mesmo, permanentemente. Ser brasileiro é ainda aprender a lidar com as decepções. A decepção faz parte do ser brasileiro, está presente em todas as gerações. O que está acontecendo agora no país é muito grave, ninguém sabe aonde vai dar. Mas se olharmos para a história mais ampla veremos que todas as gerações que mobilizaram muitas esperanças conviveram em seguida com muitas decepções. Nos anos 2000, tudo foi ótimo. Agora chegou a ressaca, o que é muito penoso. Não sei se serve de consolo para os jovens que estão saindo da faculdade e procurando emprego, mas essa é uma tendência muito forte da história de vocês. Por fim, a corrupção não é exclusividade do Brasil. Nos Estados Unidos, é até pior, até porque lá tem mais para roubar. É massiva, endêmica. A gente vota na Hillary não por amor a ela ou por convicção ideológica, mas porque alguém tem que ser presidente. E não dá para contemplar o outro candidato perto da Casa Branca. É… ”.


Encontro

Encontro com Svetlana Aleksiévitch, escritora bielorrussa, autora de ‘A guerra não tem rosto de mulher’ e de ‘Vozes de Tchernóbil’, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015

“Ouvir, para mim, não é apenas instrumento para recolher informações, mas o propósito principal da minha obra, da literatura. Fui criada numa aldeia da Bielorrússia onde praticamente só mulheres viviam, por conta da guerra. Meus pais eram professores. Em casa, tínhamos muitos livros. Mas eu sempre procurei ir para as ruas para conversar com aquelas mulheres, como se sentiam sem os maridos, perceber como falavam. Era tão mais forte que os livros. Esses encontros me tocaram. Eu me formei em jornalismo para ouvir essas vozes, para descobrir a viva vida dos seres humanos. Procuro sempre me comportar como se ouvisse um amigo, para ouvir de verdade alguém que se expressa livremente. Fui marcada por isso, sempre foi o que busquei. As mulheres oferecem testemunhos e depoimentos mais ricos. As mulheres contam coisas de suas vidas que dão outra dimensão ao relato. Estava conversando com uma mulher que havia lutado na guerra e que era muito bonita. Perguntei a ela se havia sido muito difícil passar por aqueles anos, naquela frente de combate. Ela me perguntou como eu sabia disso. Eu disse que outras pessoas já haviam dito algo parecido. Perguntei então se ela teve medo de morrer. Ela me disse que morrer teria sido ruim, mas não era o pior. O pior foi ter que passar quatro anos usando cuecas masculinas. Ela estava pronta para morrer, mas não queria morrer vestindo cuecas de homem. Uma coisa é a verdade da guerra, outra é a verdade do ser humano. Os jornais transformam informações em algo banal e supérfluo, sempre me senti muito limitada no jornalismo. Cheguei à conclusão que na literatura podemos buscar formas novas. Sempre há algum sentimento, segredo, expressão, história que você deve ouvir e buscar nas pessoas. Meus livros expressam essas vozes, são testemunhos das ideias, situações e decepções que vivemos. Ouvir é um aspecto tradicional da nossa cultura. Não faço entrevistas. Converso. Sobre tudo, até mesmo sobre aspectos aparentemente menores. Busco a verdade do ser humano. Tento achar um ser humano dentro de cada ser humano, sem perder as singularidades deles. É o amor quem torna o mundo mais viável. Sim, a vida tem muita tragédia. Mas tem também criança e pôr-do-sol. E há momentos em que você consegue se animar, ganhar forças e enfrentar as dificuldades. É essa beleza que aparece nas nossas vidas que tento passar no que escrevo. A única saída para nós é o amor. O mundo não vai ser salvo pelo homem racional, pelo homem do consumo, pelo homem que produz. Daqui a alguns séculos, espero que digam que esse era um homem primitivo”.

Nota afetiva do repórter – Paraty parou para ouvir a Svetlana. Tenda dos autores lotada e uma multidão na praça do telão. Nunca tinha visto isso. Bonito demais. Depois da mesa, fiquei uma hora e meia numa gigantesca fila. E saí dela com o autógrafo da Nobel de Literatura.

 

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