O fio da civilização

Era para ser uma manhã comum. O professor acordaria, prepararia um discurso e iria receber uma homenagem por sua longa carreira. No entanto, do momento em que se levanta – depois de um sono difícil – até o momento em que sai de casa para a cerimônia, Heliseu da Motta e Silva, 71 anos, é tomado por uma enxurrada de lembranças e se vê obrigado a passar a vida em revista. Assim, em poucas palavras, o premiadíssimo escritor Cristovão Tezza explica seu romance mais recente, O professor (Ed. Record), que lhe consumiu um ano de trabalho, depois de outros três de espera. “A primeira cena, a que está na primeira página, surgiu inteirinha. Escrevi, coloquei um título provisório, mas só no final de 2012 tive condições de enfrentar a história”, conta.

Com o esqueleto pronto, o autor tratou de encontrar os recheios para a narrativa, o romance propriamente dito. Para isso, recorreu a alguns recursos já vistos anteriormente na sua obra. “Passei por fatos recentes da história do Brasil. Não é um livro de História, mas fiz muita pesquisa, para contextualizar e relacionar com a vida do professor”, revela. Além disso, o próprio autor foi professor no passado. Assim, embora garanta que não se trata de uma obra autobiográfica, admite a admiração pela figura do educador, do mestre catedrático, como é seu Heliseu. Na literatura de Tezza, vários outros professores – diversos entre si – já apareceram, porque o autor considera que há sempre muito a explorar nesses personagens.

Perguntamos de que forma o ser professor toca a personalidade do protagonista. E o autor devolve explicando que Motta e Silva jamais poderia ser engenheiro, ou agricultor. “Havia ali uma série de aspectos que me interessavam em Heliseu. A história da linguagem, a história da Língua Portuguesa, de ser uma pessoa antiga, a tese que a mulher que ele ama apresenta sobre a linguagem brasileira, tudo foi convergindo para essa figura do catedrático, do especialista em língua”, conta. E também nesse ponto, o autor precisou pesquisar muito para falar um pouco de filologia. Brinca dizendo que ele mesmo precisou aprender bastante, mas que Heliseu sabia tudo de cor e salteado. “O que eu suava para conseguir explicar, citar, ele sabia tudo de cabeça. Era divertido”. E explica que é muito enriquecedor descobrir as habilidades de um personagem, conhecer o que ele sabe, aprender o que ele tem a ensinar. Por isso tinha de ser um professor, e não um advogado, ou um médico. Ele segue: “O professor é uma figura fantástica na história do mundo. Desde Platão ou Aristóteles, o fio de civilização que nos resta é o professor que mantém. É um personagem fundamental na nossa cultura humana. A questão laica do professor é muito interessante. Ele não é a família, não é o padre. É um homem de ciências, da razão. Consubstancia uma série de aspectos na vida civilizada”.

Apesar de ter lecionado por mais de 20 anos, Tezza já não se considera mais um docente e, por isso mesmo – como já foi dito –, recusa o rótulo de romance biográfico. Refuta também – e nem gosta do termo – a classificação autoficção, que vem sendo usada para delimitar um estilo narrativo que fica a meio caminho entre realidade e ficção. Sem entrar muito nas razões que o levam a não concordar muito com o gênero, Tezza propõe que um termo mais apropriado seria romance de autoinvestigação. E, de qualquer forma, O professor não se encaixaria aí. É taxativo: “É um livro de imaginação. Só usei meu conhecimento na área, porque dei aula. Mas não tem nada meu ali”.

“O professor é uma figura fantástica na história do mundo. Desde Platão ou Aristóteles, o fio de civilização que nos resta é o professor que mantém. É um personagem fundamental na nossa cultura humana. A questão laica do professor é muito interessante. Ele não é a família, não é o padre. É um homem de ciências, da razão. Consubstancia uma série de aspectos na vida civilizada”.

Na contramão dessa suposta tendência, Tezza avalia sua carreira e consegue ver ali um projeto próprio, uma carreira própria para sua literatura. Evidentemente se compreende como parte de uma geração de escritores, mas acredita que não ficou muito preso a isso. Em verdade, diz que buscou mais seguir alguns traços mais ou menos constantes, como delinear a realidade sócio-política do país, ainda que essa realidade não esteja no centro. Todos os livros têm um pano de fundo concreto, uma vida real lá fora, como o autor gosta de dizer. Essa opção foi mesmo uma escolha pessoal – quase uma teimosia – porque no início da carreira, lá no início dos anos 1980, era considerada uma literatura de segunda linha. “Foi um período de vacas magras, quando a universidade encampou a literatura. O escritor era também o crítico literário e isso trazia delírios formais e encastelamento”, ensina o ex-professor.

Mas ele foi em frente, insistiu. E no início dos anos 2000 apareceu com força uma nova geração, com a qual Tezza combina. No entanto, ele prega que continua independente, até porque não tem muito controle sobre as trilhas que a história vai tomar. “Eu sempre parto de algumas linhas, mas a história vai se mostrando à medida que vou escrevendo, então não tenho muito de antemão objetivos de conteúdos a tratar, tenho alguns fantasmas que boto no palco e começo a mover. Em O professor, eu tinha a cena da manhã. O resto foi a inspiração”.

Em termos de estilo, essa nova obra trouxe alguns desafios. É uma obra concisa, curta, de leitura relativamente rápida. No entanto, por ser fragmentada, Tezza se sentia montando um quebra-cabeças. “Algumas coisas foram na intuição mesmo. Mas tenho 40 anos de vida literária, alguma coisa já aprendi. A técnica é boa quando você não pensa mais nela, quando vira um ferramental. E nesse livro precisei usar esse recurso para a história aparecer. Quando terminei sabia que tinha um livro forte na mão”, completa. Crítica e público concordam com essa análise.

Crédito da imagem: André Tezza Consentino

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