O adeus a Eduardo Galeano

Elisa Marconi e Francisco Bicudo

No último dia 13 de abril, um câncer de pulmão venceu o prolífico escritor Eduardo Galeano. Uruguaio, 74 anos, mais de 50 livros publicados, o intelectual foi uma espécie de farol para gerações que procuraram conhecer o universo latino-americano, com todas as suas características, peculiaridades, idiossincrasias e possibilidades.

As redes de relacionamento e mídias sociais se encheram de frases e pensamentos de Galeano, homenagens póstumas e reflexões cortantes e diretas, bem ao estilo do escritor. Mas, para o professor de Literatura da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Daniel Abrão, tudo isso é pouco e passará rápido. “Eduardo Galeano era um escritor histórico da América Latina, da estatura de um Pablo Neruda, um García Márquez, um Julio Cortázar, ou um Carlos Fuentes”, começa assim a explicar o tamanho da perda. “O que a gente perdeu foi um pensador que rompeu com o modelo eurocêntrico e trouxe a América Latina para o centro das questões”, lamenta o mestre e doutor em Teoria Literária pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Em outras palavras, uma das poucas vozes que apresentava e discutia a alma latino-americana se calou. “São aspectos muito diferentes do padrão europeu e que, de alguma maneira, expõem a identidade latino-americana”.

“O que a gente perdeu foi um pensador que rompeu com o modelo eurocêntrico e trouxe a América Latina para o centro das questões”

De caráter inovador, o pensamento do autor do clássico As veias abertas da América Latina (1971), apontava, por exemplo, que o continente tem um jeito próprio de enfrentar as situações. “Muito antes dos pensadores dos chamados Estudos Culturais, como Jesús Martín-Barbero e Nestor Garcia Canclini, Galeano mostrou a miscigenação, os hibridismos e o potencial diferente da América Latina para trabalhar e superar aspectos da realidade frutos da produção global capitalista”, sugere. Dessa forma, a literatura, as artes, a estética, a história e a realidade deste continente são próprios e únicos e assim devem ser estudados. Junto com a proposta de entender a região a partir de características singulares, Galeano sempre se posicionou ideologicamente à esquerda e era a partir desse ponto de vista que analisava e traduzia a região. “Se deslocar o pensamento para a América Latina já foi uma ousadia, imagine observar por uma lente afinada à esquerda? Não é de se estranhar que Eduardo Galeano tenha inspirado de mexicanos a argentinos”, ensina o professor da UEMS.
A rebeldia do escritor, como se pode imaginar, rendeu perseguições. Em 1973, o Uruguai sofre um golpe militar e o nome de Galeano, já fortemente identificado com a esquerda, vai parar nas listas dos esquadrões da morte, que assassinavam covardemente os opositores do sistema. Temendo por sua vida, o escritor se exila na Espanha e fica lá até 1985. Em terras estrangeiras, publicou a trilogia Memória do fogo, outra obra fundamental para entender o pensamento do uruguaio e o sentimento latino-americano. Anos mais tarde, Galeano disse que desmaiaria se relesse As veias abertas da América Latina. Não que tivesse mudado de todo de ideia, mas que, na época, não teria a maturidade de forma e conteúdo para propor todas aquelas ideias. De volta à terra natal, continuou produzindo em larga escala. Artigos, reportagens, ensaios, poesias, e narrativas tão livres que são até difíceis de enquadrar num gênero único.
O professor de literatura da UEMS brinca dizendo que consegue listar pelo menos 10 tentativas de nomes para os gêneros dos textos de Galeano: micropoesia, poemas políticos, proemas, aforismos narrativos e por aí vai. No entanto, nenhuma dessas classificações consegue dar conta da produção do uruguaio. “É mais uma das riquezas que ele ofereceu aos leitores. Os professores de literatura ficam loucos, porque não conseguem fechar a questão”, se diverte Abrão. A graça da brincadeira é que, se formalmente a literatura dele era absolutamente livre, o conteúdo era sempre forte e contundente: a realidade política da América Latina, pelo viés da esquerda.

“Ele é livre na forma, faz micropoesias, narrativas políticas que flertam com a ficção e a reportagem, mas tudo isso se fazendo entender”

E Abrão destaca justamente essa franqueza da postura de Eduardo Galeano. Ser de esquerda jamais o impediu de pensar em profundidade e de apresentar uma forma não aprisionada de conhecimento. Aliás, a posição assumida permitiu que o uruguaio não se conformasse. “Desde os anos 1970 e 1980, Galeano se contrapõe aos intelectuais norte-americanos e europeus que, de alguma maneira, se conformam um pouco e vão migrando para o centro ao longo de suas trajetórias”, conta o professor, referindo-se a teorias dos contemporâneos do escritor morto em abril: o pragmatismo político, o fim da história, a dissolução do sujeito e etc. Embora tenha se reconstruído muitas vezes, Galeano não deixou de se mostrar como um pensador de esquerda, o que talvez soe estranho nos dias atuais. “Vivemos uma retomada do conservadorismo em várias esferas, política, econômica, social, de comportamento, daí porque voltar a ele em tempos atuais pode ser importante”, convida.
E, embora refinado em termos de discussões, os textos de Galeano são surpreendentemente simples, diretos, incisivos. “Ele é livre na forma, faz micropoesias, narrativas políticas que flertam com a ficção e a reportagem, mas tudo isso se fazendo entender”. Ou seja, professores que queiram trabalhar um texto intrigante na forma e provocador no conteúdo; direto sem ser óbvio e até curto, podem usar Eduardo Galeano. Abrão garante que não é difícil os alunos se interessarem, mesmo os mais jovens. A presença de frases muito concisas e, ao mesmo tempo, reflexivas ajuda bem. Por isso mesmo, professores de diferentes disciplinas podem recorrer a Galeano para trabalhar questões históricas e culturais da América Latina. “É sabido que se estuda muito pouco a realidade latino-americana. Nossos alunos pouco sabem sobre antecedentes, forças motrizes e contexto social e político latino-americanos. Temos agora talvez uma boa desculpa para começar”, oferece. Literatura, história, sociologia, artes, geografia e línguas, por exemplo, têm material de sobra para se arriscar.
“Mas, para fazer qualquer coisa com a obra de Eduardo Galeano, o professor precisa, antes de tudo, ler. Enfrentar o desafio e cruzar as páginas de gênero indecifrável, mas com ideias singulares.”, sugere Abrão. Para começar, o professor da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul indica As veias. Depois, do fim para o início, nessa ordem: Os filhos dos dias; Mulheres; e O livro dos abraços. “Mas não é para parar no que encontrar nas redes sociais não. Vale ler os livros mesmo, porque nenhuma análise ou sugestão crítica sobre a obra é mais importante que travar contato com a própria obra e degustá-la sem o peso dos julgamentos. Eduardo Galeano precisa mesmo é ser lido”, incentiva.

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

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