Desvendando Eça de Queiroz

Elisa Marconi e Francisco Bicudo

É comum, no Brasil, os estudantes tomarem contato com a obra do escritor português Eça de Queiroz apenas nas proximidades do vestibular. Quando as grandes universidades divulgam as listas dos livros que serão cobrados nos exames, costumam figurar Primo Basílio, Os Maias ou ainda A cidade e as serras. E não é raro que esse encontro termine aí, não se aprofunde e nem se prolongue. Uma pena, certamente, porque Eça segue atual e inspirador, com sua prosa simples e direta, buscando traços universais, mas delicados da personalidade humana.

Desde o final do ano passado, no entanto, essa distância entre brasileiros e Eça pode ser encurtada. No final de outubro, chegou ao país a edição brasileira de Eça, uma biografia, do também português Alfredo Campos Matos. Originalmente publicado na França e em Portugal, o livro foi lançado aqui em versão ampliada e revisada pela Ateliê Editorial, em parceria com a Editora Unicamp. Entre as características que só a edição nacional tem, Matos destaca traços pouco conhecidos de Eça, pormenores da relação com a esposa e, principalmente, as ligações com o Brasil. “Não foram poucas, ele tinha parentes brasileiros e, no fim da vida, conviveu muito de perto com intelectuais dalém mar”, incita o biógrafo.

A Revista Giz conversou por e-mail com Campos Matos e os melhores trechos da entrevista, escrita original mantida, você encontra ao lado. ►

O senhor é arquiteto de formação, mas é conhecido como especialista em Eça de Queiroz. Como foi sua trajetória até chegar aos estudos sobre Eça? O que despertou a atenção do senhor para este escritor?

A minha atenção para este escritor foi despertada na juventude pela descoberta casual d‘A Relíquia, o livro mais herético e mais erótico da literatura portuguesa, que li com incontido espanto e deslumbramento, sem que tivesse alcançado no entanto a profunda mensagem do final da obra. Foi sobretudo uma saudável varridela em preconceitos, tradições obsoletas e fanatismos católicos perniciosos que ela me ofereceu. A sua mensagem final é a da relativização do conhecimento. Depois aquele irresistível humor e ironia queirozianos fazem dessa novela qualquer coisa de inesquecível. A partir daí, Eça foi o meu autor de cabeceira. Isto coincidiu com a publicação em 1945 da grande biografia de Eça por João Gaspar Simões, que me introduziu no mundo literário do século XIX. Nesse ano foi publicada a monumental Obra Completa chamada Edição do Centenário, que ia saindo mensalmente e através dela li todo o Eça. Quando vim viver para Lisboa, o mundo do queirozianismo era-me familiar e não tardei, em 1976, a publicar uma obra de sucesso, As Imagens do Portugal Queiroziano, onde estudei a importância dos locais reais de que se serviu o romancista para localizar episódios, personagens, etc. Tendo editado as fotografias desses locais relativas a todo o país, particularmente Lisboa, que é o palco principal da sua novelística.

Como foi o processo de confecção da biografia? Que fontes e que personagens o senhor consultou?

A biografia teve dois estágios, dois níveis por assim dizer: O primeiro, com a publicação em Paris de uma primeira versão simplificada intitulada Vie et Oeuvre d’Eça de Queiroz, em 2010, com uma antologia dedicada ao leitor francês. Depois, com a publicação no Porto de uma versão muito mais desenvolvida intitulada Eça de Queiroz, uma biografia. A edição brasileira é uma terceira versão corrigida e aumentada da anterior. Foi, portanto, um gradual e enorme apuramento, que não pôde ser obtido de uma só vez, em texto tão elaborado, tão complexo e tão vasto. As fontes de que me servi são a biblioteca imensa que possuo (penso que não há outra no mundo) acerca de tudo o que se tem escrito sobre Eça, além de suas edições nacionais e estrangeiras. O tempo de convívio com esta massa formidável de informação crítica; a frequência de colóquios nacionais e internacionais (em Espanha, em França, na Inglaterra, no Brasil, na Argentina, no Perú, nos Estados-Unidos) e o convívio com grandes queirozianistas, completaram a minha informação acerca de Eça.

Uma das maiores características de Eça, que o torna intemporal e atualíssimo, é a procura da simplicidade de escrita, num esforço árduo e constante de toda a vida.

Na biografia escrita pelo senhor aparecem algumas facetas menos conhecidas de Eça, como o perfil psicológico dele e a relação com a esposa. Quem foi esse Eça que o senhor encontrou e desvendou?

Esse é o Eça da intimidade , que importa conhecer pois obra e homem são entidades indissociáveis. Há muitos textos de Eça que só se compreendem à luz da sua particularidade biográfica, muito especialmente, crônicas, ensaios e cartas. A personalidade de Eça é complexa e muitas vezes desconcertante. Ele é, como Machado de Assis, um dissimulado, que só faculta uma parte da sua personalidade aos mais íntimos e isso mesmo limitadamente. Traumatizado pela ausência de mãe na sua educação (e isso é muito evidente na sua ficção), refugiou-se num casulo, impenetrável muitas vezes . Nos próprios textos cronísticos, ensaístico e epistolares é frequente essa permanente autodefesa e dissimulação, que tem induzido em erro muitos comentadores.

Houve, nesse processo, algo que surpreendesse o senhor?

Talvez a maior surpresa tem sido a crítica anglo-saxônica, nomeadamente a de Harold Bloom (traduzido no Brasil), que é um entusiasta apreciador de Eça. A crítica inglesa tem valorizado por seu turno peças que no mundo da língua portuguesa remetemos para importâncias secundárias.

Há algumas particularidades na edição brasileira. O senhor pode falar um pouquinho dessas diferenças da edição brasileira para as demais?

Como atrás disse, a edição brasileira da biografia representa um texto muito apurado comparativamente às versões anteriores. Só se consegue esse aperfeiçoamento com sucessivas edições, que felizmente tive e, é claro, graças a uma total disponibilidade de tempo que tenho dedicado ao autor d’Os Maias. Costumo dizer que vivo há muitos anos «dentro» de Eça de Queiroz, sabendo o que sei e sabendo também (isso é importante) aquilo que de melhor têm escrito os seus maiores críticos e comentadores . Saliento ainda que a estrutura da minha biografia (que se vê consultando o Índice) vem detrás das outras edições e devo dizer objetivamente que é inovadora.

O senhor defende que há uma relação importante entre Eça de Queiroz e o Brasil. Poderia explicar essa ideia?

Eu não poderia deixar de prestar particular atenção às relações de Eça com o Brasil, que são importantes. Saliento que na última fase da sua vida em Paris, Eça conviveu com um grupo notável de intelectuais brasileiros, de que destaco o paulista Eduardo Prado, que foi seu dedicadíssimo amigo e seu íntimo. Depois, tem a colaboração jornalística que deu à Gazeta de Notícias do Rio, e a sua colaboração na Revista Moderna, do brasileiro Botelho, são fatores de grande relevo nessas relações. Mas, quem se interessar mais particularmente por essa matéria tem, contudo, o livro do brasileiro Heitor Lyra, O Brasil na Vida de Eça de Queiroz, uma obra enorme e pormenorizada, que é o texto mais informado acerca de tais relações. Os primeiros contatos de Eça com o Brasil se deram por meio do periódico As Farpas, publicado por ele e pelo amigo Ramalho Ortigão. Eça escrevia eventualmente sobre o Brasil, sobre o imperador e sobre os brasileiros. Aliás, de início, Eça via o Brasil com o preconceito dos europeus, de um modo depreciativo. Mais tarde, corrigiu essa visão, em parte graças ao convívio com o seu íntimo amigo de Paris, o brasileiro Eduardo Prado.

A personalidade de Eça é complexa e muitas vezes desconcertante. Ele é, como Machado de Assis, um dissimulado, que só faculta uma parte da sua personalidade aos mais íntimos e isso mesmo limitadamente.

Outra característica marcante da biografia é a linguagem acessível e delicada, que aproxima a narrativa do chamado público leigo…

Uma das maiores características de Eça, que o torna intemporal e atualíssimo, é a procura da simplicidade de escrita, num esforço árduo e constante de toda a vida. Nos Contos, talvez, é onde atinge o seu estilo a maior perfeição , como nas «Singularidades» e no «José Matias» (conto só comparável ao conto de Tolstoi «A morte de Ivan Ilitch»). A este estilo meridianamente simples, junta ele o humor, a ironia e a inteligência crítica. Este conjunto faz dele um grande escritor de dimensão europeia, que espera fora da sua língua a consagração que ainda não teve. «A escrita é um dom dos deuses», como ele escreveu um dia, sabendo muito bem que tinha, como nenhum outro, esse dom supremo. Considero Eça um «entretainer» superior, um perfeito fascinador. Veja-se por exemplo essa pequena novela primorosa, de requintado humor, Alves & C.ª que se lê de um trago. Os brasileiros filmaram-na em São João d’El Rei, com a grande atriz Patricia Pilar como protagonista…Tem ele um outro dom raro, o de agarrar desde as primeiras linhas o leitor. A sua atualidade é indiscutível, e a prova é que não há autor mais citado em Portugal do que ele, especialmente em matéria social e política. Conto-lhe a este respeito uma história muito expressiva. Há muitos anos atrás resolvi enriquecer o meu arquivo queiroziano com recortes de jornais portugueses onde apareciam comentários e referências acerca dele. Poucos meses depois tive de desistir do contrato que tinha feito, com uma empresa jornalística especializada, pois fui literalmente sumergido por recortes de jornais, sem qualquer interesse a maior parte das vezes, que o referiam a propósito do cultivos das batatas,da meteorologia, dos naufrágios, dos cemitérios, dos restaurantes, dos vinhos, enfim um nunca acabar de referências!

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