São Paulo vista de frente e de perto

Elisa Marconi*

                Livro reúne artigos de várias áreas do conhecimento e ajuda a atualizar reflexões sobre a maior cidade do país

A São Paulo que era industrial alcançou condição de destaque no setor de serviços. Era objeto de desejo de migrantes – que agora começam a fazer o caminho de volta, e a megalópole passa a ser constituída majoritariamente por paulistanos nascidos aqui mesmo. Apresentava crescimento demográfico significativo, mas viu essa curva se inverter nos chamados setores médios da população, que em geral vivem nas regiões centrais da cidade. O fato é que a metrópole já não é mais a mesma. Ou, pelo menos, já não manifesta mais as mesmas características sociais, culturais, econômicas e políticas que apresentava 30 anos atrás.

Para atualizar as informações e as reflexões a respeito da vida paulistana e oferecer uma fotografia mais recente de São Paulo, os cientistas sociais Lúcio Kowarick e Eduardo Marques toparam o desafio de organizar um livro com artigos de pensadores ligados aos assuntos da cidade. São eles: Maria Encarnación Moya; Rosana Baeninger; Camila Saraiva; Maria Cristina da Silva Leme e Sarah Feldman; Alvaro Comin; Nadya Guimarães, Murillo de Brito e Paulo Henrique da Silva; Fernando Limongi e Lara Mesquita; Luciana Tatagiba; Adrian Gurza Lavalle, Graziela Castello e Renata Bichir; Esther Hamburger, Ananda Stücker, Laura Carvalho e Miguel Ramos; Teresa Pires do Rio Caldeira; Paula Miraglia; Gabriel Feltran; Vera da Silva Telles e Daniel Hirata. O olhar dos autores é transdisciplinar e passeia pela antropologia, sociologia, demografia, poder e política e chega até as manifestações culturais urbanas; ajuda, assim, a conhecer melhor a “estranha senhora que hoje sorri e amanhã te devora”, que é São Paulo.

Kowarick e Marques são professores do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) e o segundo é ainda pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. A história do volume recém-lançado pela Editora 34 e pelo CEM remete ao ano de 2009, quando a mesma dupla de organizadores atendeu ao pedido de uma editora da América Latina que desenvolvia uma coleção de textos avaliando antigas crenças a respeito do funcionamento das capitais latino-americanas, como Buenos Aires, Montevidéu e Santiago. O mesmo valeria para São Paulo. Hoje, que cidade é essa? O que mudou nas últimas três décadas? O livro saiu em espanhol, reunindo artigos de brasileiros (paulistanos em sua maioria) especialistas em violência, transportes, economia, demografia, cultura urbana, poder e política, entre outros. No início de 2012, a dupla se deu conta de que o material era valioso e partiram para uma nova publicação. Traduziram os capítulos para o português, acrescentaram outros textos e fizeram as atualizações necessárias. O resultado é São Paulo: novos percursos e atores (sociedade, cultura e política). .

São Paulo ainda desigual

Marques lembra que São Paulo rendeu uma literatura muito pujante e rica em análises nos anos 1970 e 1980, que foi capaz de produzir um diagnóstico sobre o funcionamento da cidade, o acesso às políticas públicas, a natureza das desigualdades sociais, a presença do Estado na cidade, dentre outras discussões. “Depois disso, ficamos sem uma literatura no mesmo patamar, que permitisse atualizar o debate”, explica. Essa lacuna de produção de conhecimento é até comum nas Humanidades, segundo o cientista político, porque outros temas vão pedindo passagem, entrando na agenda e ficando importantes; além disso, ele reforça, o fato é que mesmo as linhas de pesquisas acadêmicas que continuaram sendo desenvolvidas já não conseguiam mais cruzar a ponte – ou seja, os trabalhos não estavam sendo apresentados ao público de estudiosos e interessados em geral.

Havia um vácuo. “A consequência é que muito se falava de São Paulo a partir de um diagnóstico antigo, por vezes até ultrapassado. Principalmente o público latino, que não tem acesso àquelas pesquisas mais especializadas, acabava ficando com uma visão não atual da metrópole”, completa Marques.

O denominador comum aos capítulos do livro certamente é a percepção de que São Paulo continua sendo profundamente desigual, nas palavras do organizador. “Mas os eixos que norteiam essa desigualdade mudaram.

O padrão de segregação é similar àquele dos anos 1970, mas as periferias estão mais heterogêneas. Elas estão mais servidas por aparatos públicos, então a dificuldade de acesso aos serviços do Estado reduziu”, afirma. No entanto, a qualidade do que é oferecido continua muito aquém do que é considerado adequado para garantir cidadania plena.

Afinal, se o Brasil viveu transformação significativa nos padrões de renda e mudanças na estrutura de classes sociais nos últimos 10 anos, em São Paulo essa alteração também se manifestaria. “Aqui também o padrão de pobreza mudou, principalmente porque a renda cresceu. Quando a pobreza absoluta diminui, a questão não desaparece, mas muda de patamar e passa a ser estudada como uma pobreza relativa, que mede não só a renda, mas também o acesso aos aparatos públicos, precariedade da moradia, do trabalho, qualidade da saúde e da educação…”. E, se é assim, o desafio de pensar políticas públicas deixa de ser apenas a implantação do aparato e passa a estar relacionado à eficiência desse serviço.

A demografia, ou seja, a constituição da população paulistana também mudou intensamente nos últimos 30 anos. “São Paulo é uma cidade que cresce menos hoje. Tem muito menos migração do meio rural para o urbano. É mais envelhecida, com idade média mais elevada, e que tem arranjos familiares mais diversificados em comparação com os que estavam presentes antes”, ensina o professor da USP. Chama a atenção a redução do crescimento populacional. Tem menos gente vindo morar aqui, a taxa de fecundidade caiu, as famílias têm menos filhos e, no centro expandido da capital, houve perda real de população. “Existe uma desigualdade espacial. As periferias, principalmente as mais externas, continuam crescendo a taxas elevadas, e as áreas centrais – principalmente nos anos 1980 e 1990 – reduziram sua participação na população em termos reais, absolutos”, confirma Marques.

O autor de São Paulo: novos percursos e atores (sociedade, cultura e política). segue levantando dados novos. “O padrão que São Paulo vem desenvolvendo é semelhante ao verificado em outras metrópoles mundiais, mas também apresenta características muito próprias”. A redução do crescimento populacional e o acesso aos serviços públicos fazem parte de um cenário global. Mas a estabilidade dos parâmetros de desigualdade social que São Paulo tem alcançado é uma característica muito específica. “E esses padrões de segregação tão resistentes e estáveis é que sugerem a exigência de mecanismos fortes de atuação do Estado, com políticas públicas específicas redistributivas da riqueza, para reduzir essa desigualdade paulistana”, propõe Marques.

A cidade na escola

Se não há dúvidas de que São Paulo mudou bastante, a questão que emerge é :

qual São Paulo vem sendo ensinada nas escolas. Os parâmetros se alteraram de forma contundente, como revelou o pesquisador. Será que os professores de Geografia, História e disciplinas correlatas estão apresentando a seus alunos uma cidade atual?

Marques propõe um desafio: que a partir da leitura do livro, os próprios professores comparem a São Paulo de hoje com aquela que se ensina na sala de aula. Feita a sugestão, o que o entrevistado afirma sem receio de errar é que a escola mudou, “porque a população que está lá na escola mudou”. Ele prossegue: “a questão da violência nas escolas das periferias, por exemplo, impacta fortemente o mundo escolar. Essa é uma discussão que certamente faz mudar o funcionamento da escola, a relação de alunos, professores, famílias e sociedade com a escola”, provoca. Também o público é outro. O estudante paulistano médio de 30 anos atrás era filho de migrantes, que tinham vindo em busca de vida melhor, que em geral construíam a própria moradia, distante do centro da cidade. Hoje, os filhos dessa geração são nascidos em São Paulo, são bem mais escolarizados, mas continuam morando longe e estão sujeitos a uma dimensão de violência pública muito forte, de acordo com os artigos presentes em São Paulo: novos percursos e atores (sociedade, cultura e política). “E, portanto, o olhar de professores, alunos e sociedade para a escola com certeza mudou”, garante o autor.

O livro não foi pensado para ser uma obra de divulgação científica, mas quem se interessou pode encarar tranquilamente os artigos, porque a linguagem é acessível aos professores e aos interessados em geral.

Radialista e professora das Faculdades Cásper Líbero e Belas Artes

5 Respostas para “São Paulo vista de frente e de perto” Subscribe

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