As Violências na Escola

Elisa Marconi e Francisco Bicudo*

“Se a temática da violência foi vencedora do Prêmio é porque, de fato, a sociedade está de olho nessa questão, é um assunto importante e atual”. É dessa maneira que Patrícia Constantino começa a destacar a relevância do livro que organizou junto com as colegas Simone Gonçalves de Assis e Joviana Quintes Avanci – as três são pesquisadoras do Centro Latino Americano de Violência e Saúde Jorge Careli, da Fundação Oswaldo Cruz (Claves/Fiocruz).

Estamos falando mais especificamente da obra Impactos da Violência na Escola – Um diálogo com professores, que conquistou recentemente o primeiro lugar na categoria Educação do Prêmio Jabuti, concedido anualmente pela Câmara Brasileira do Livro, um dos mais respeitados do Brasil na área editorial. O trabalho sistematiza artigos de especialistas e, principalmente, oferece os resultados das discussões nascidas e amadurecidas durante um curso oferecido a professores do Rio de Janeiro, em 2010.

De fato, se fizermos apenas um breve e leve esforço de memória, pelo menos dois casos recentes de violência em escolas vêm à tona: o episódio de Realengo, subúrbio carioca, quando o estudante atirou em vários colegas, matou 10 crianças e deu fim à própria vida, em abril deste ano; e o mais recente, em São Caetano do Sul, ABC paulista, quando um garoto de 10 anos atirou na professora e depois se matou, em setembro último.

Contudo, para os especialistas, embora importante, claro, essa é também uma visão restrita de violência na escola, porque lida com suas manifestações máximas e trágicas, lidas midiaticamente pela estética do espetáculo. O livro organizado por Patrícia, Simone e Joviana aponta outras tantas formas, que acontecem dentro e fora dos muros, mas que tocam de alguma maneira a vida escolar e a vida em sociedade. Elas se referem ao bullying físico e digital, às agressões entre alunos, às discussões entre estudantes e professores, e até a situações de violência doméstica e urbana. Todas essas nuances e aspectos estão presentes nas reflexões sugeridas pela obra vencedora do Jabuti e que tem, como intuito primeiro, de acordo com as autoras, tocar o professor e incentivá-lo a superar a fase das queixas, perceber a importância da sua função e agir localmente para ajudar a combater eventuais casos de violência.

A reportagem do SINPRO-SP conversou com Patrícia Constantino. Veja abaixo os melhores trechos dessa entrevista ►

SINPRO-SP – Para situar o professor no tempo e no espaço e apresentar para ele as linhas gerais da obra – quais as discussões mais relevantes que o livro sugere?
Patrícia Constantino – É um livro que tem como proposta estabelecer um diálogo com professores a respeito desse fenômeno que é a violência nas escolas. Foi escrito a muitas mãos, por especialistas na área da educação e da violência. A gente tentou fazer um livro que abordasse os muitos aspectos da violência nas escolas: cultura de educação em Direitos Humanos; as manifestações da violência na escola, da escola e contra a escola; bullying; preconceitos, gêneros, sexualidade, raças; a identificação da violência familiar e quando ela chega na escola; a promoção da saúde, prevenção da violência e rede de proteção das crianças e os adolescentes e, por fim, algumas sugestões para que o professor consiga implementar um projeto de intervenção local para enfrentamento da violência na escola, que é um fenômeno bem frequente – infelizmente – na realidade do país.

A sensação geral da sociedade é de que a violência – ou as violências – que passa pela escola aumentou. Na obra, vocês chegam a alguma conclusão em relação ao tema? Aumentou mesmo, ou foi o espaço na imprensa e na mídia para abordar o tema que cresceu?
É difícil responder a essa questão, por duas razões: primeiro porque não fizemos um levantamento bem atual a respeito dos casos, se houve aumento ou diminuição. Segundo, porque não estamos falando aqui de um único tipo de violência, são várias formas. Da escola, na escola, contra a escola. O que a gente foi percebendo é que a questão da violência foi ganhando mais espaço em função dos casos de violência que foram sendo noticiados. E foi a partir disso que o Ministério da Educação (MEC) nos procurou para que pensássemos juntos a produção desse material, que serviu de apoio didático para um curso que foi ministrado para professores e profissionais da educação no estado do Rio de Janeiro. O curso terminou no mês passado e no ano que vem deve ser ministrado no Brasil inteiro. A gente pode dizer sim que a percepção da violência pelo senso comum aumentou, mas não temos como provar isso pelo livro.

Os artigos mostram realidades de violência que acontecem dentro da escola – alunos contra alunos; alunos contra professores – e também fora da escola, mas que acabam chegando ali – criança que apanha em casa, criança que sofre preconceito por qualquer razão. Como se dá essa relação e como a escola vem se colocando no interior de uma sociedade violenta como a nossa? Em outras palavras, a escola foi deixando de ser vista como um espaço do respeito ao conhecimento, intocável, e hoje já aceita a discussão a respeito da colocação de detectores de metal na porta do colégio para evitar que o aluno entre armado…
É uma relação dialética mesmo. As violências dentro e fora dos muros da escola se permeiam mutuamente e são vários fatores a serem debatidos. Aliás, sempre que se estuda violência – seja na escola ou não – não se pode perder de vista que ela é fruto de diversos fatores. E talvez por isso a proposta de essa pesquisa estar alocada na Saúde Pública e não apenas na Educação seja vantajosa, já que na área da Saúde é fundamental olhar para o todo e integrar todas as partes. Bem, quando a gente fala que a escola mudou e que a representação da escola mudou ao longo das décadas, a gente não pode esquecer que a sociedade mudou. A escola é um equipamento dessa sociedade, que reflete essa mudança e não está apartada dela. Os alunos não são os mesmos, os docentes não são os mesmos, mudou tudo e a escola não está isolada. Por isso, não basta ficar sob essa postura poli queixosa que os professores lançam tanto. Se a sociedade mudou e os alunos mudaram, esse professor vai ser muito exigido para mudar também, ter mais flexibilidade, ser um tutor de resiliência. Por outro lado, não dá para esquecer as próprias mazelas que o professor atravessa, o esquema de trabalho, a quantidade de alunos em sala de aula, o contexto de risco que algumas unidades escolares estão inseridas. Há uma palavra que define bem tudo isso: complexidade.

Enquanto isso, as outras instituições…
Várias delas não estão cumprindo seu papel, então a escola é colocada como um bastião, uma heroína, que precisa resgatar os valores da humanidade perdidos. Ao longo do curso que demos aos professores, discutimos muito sobre como o professor pode ter resgatados seu papel e seu lugar nesse processo. Isso é importante. O pensamento é assim: já que está tudo falido, o professor – essa figura, esse personagem social – passa a ter uma importância ainda maior, mesmo que ele se sinta alijado de todo esse processo, mesmo que ele sinta que todo o esforço não está sendo recompensado. Quando a gente identifica toda essa fragilidade social, a gente coloca uma responsabilidade bastante grande sobre o professor. Um bom exemplo é quando a gente discutia o capítulo da notificação da violência. Ou seja, qual é o papel do educador quando percebe um processo de violência, como ele deve notificar o caso? Nesse momento do curso a gente reforçou muito esse papel importante do professor, como um tutor de resiliência, como um adulto qualificado, que não pode se igualar a uma criança e a um adolescente numa discussão, porque é sim um exemplo para os alunos, para os pais e para os profissionais que trabalham com a educação. Ao mesmo tempo, fazemos uma análise sobre o quanto o próprio professor é vítima de todo esse sistema, de quanto ele sofre, até sobre a Síndrome de Burnout [esgotamento físico e mental relacionado ao diretamente à vida profissional, fenômeno psíquico descrito a partir da década de 1970] que recai às vezes sobre a categoria.

E, afinal, qual é o papel que vocês propõem para o professor no meio dessa situação complexa?
A gente não chega a circunscrever esse papel, até porque cada realidade é uma, cada professor sabe o que vive dentro da sala de aula. A gente traz a discussão para o primeiro plano e propõe que o professor repense esse lugar, saia um pouco dessa lógica poli-queixosa – que é legítima, mas não pode paralisar – que não deixa avançar. O livro trabalha com estudos de casos e a partir desses exemplos, o professor discute e nesse meio acontece um fenômeno muito importante: o grupo de educadores, ao tomar para si a responsabilidade de agir em relação às violências, se empodera e passa a pensar soluções e estratégias para cada realidade. O grupo de pesquisa aqui da Fiocruz é um grupo que atua na Saúde Pública, por isso a gente sabe que quem conhece a realidade da educação é o professor, é o profissional que atua nas escolas. Seria leviano a gente ficar ditando regras para os educadores. A gente criou um material e um curso que servem de base para o professor se fortalecer e atuar como for preciso, de acordo com sua realidade. O livro sugere, por exemplo, que antes do processo de intervenção mesmo, os professores façam um diagnóstico de quais são os casos de violência mais presentes naquela escola, quais são as prioridades, etc… O livro traz, inclusive, uma ajuda na área metodológica para a coleta e o trabalho com os dados que vão apontar a realidade naquela unidade.

E para que tudo isso aconteça, certamente a instituição escola precisa apoiar e se reorganizar. Vocês também tratam desse ponto em Impactos da Violência na Escola – Um diálogo com professores.
Ah sim. No curso que fizemos no Rio de Janeiro e que foi o piloto para outros cursos que devem acontecer no Brasil todo, tivemos a presença de diretores e de gestores. Essa participação foi muito importante, porque são eles que dão a cara da unidade. Além disso, alguns professores se queixam que têm iniciativas, vontade de interceder, mas não encontram apoio na direção e então o projeto não vai adiante. Um diretor participativo, capacitado, é sempre um incentivo.

Admitindo que o professor manifeste o desejo de trabalhar contra a violência e que a escola banque a proposta, o que se pode esperar? A escola não está apartada da sociedade, como a senhora colocou.
A escola é um lugar privilegiado. Muitas vezes o professor tem mais contato com a criança, com o adolescente, que a própria família. O professor chega a ficar mais tempo com a criança que os pais. Então, se a gente pressupõe que o professor é alguém apto a identificar e a lidar com os casos de violência – seja para notificar, seja para prevenir e promover saúde – a gente entende que esse papel é legítimo da função de educador (valendo também para todos os profissionais que atuam na escola). Então, se esses profissionais, esses educadores se empoderarem e tomarem consciência de que esse papel é nobre, que a nobreza do papel do professor não se perdeu e hoje é ainda mais necessário (já que hoje as outras instituições como a família, o estado, etc… estão fragilizadas), a escola acaba virando uma referência positiva, uma das poucas, que a criança ou o adolescente pode ter. A gente estuda aqui também a delinqüência juvenil e as pesquisas mostram que a criança e o adolescente que vão à escola e ficam na escola – mesmo que tenham um comportamento inadequado lá – estão mais longe da criminalidade. A escola é, portanto, um fator de proteção para a criança e o adolescente. Por mais que nós façamos essa leitura de que a instituição escolar perdeu o seu papel, eu diria que hoje o professor e a escola têm um papel mais importante do que nunca.

Será que os professores ainda não se deram conta desse lugar de importância porque os cursos de formação não abordam essa questão?
Não abordamos exatamente essa questão, porque não era o objetivo. A ideia era capacitar, instrumentalizar e sensibilizar os professores nessa temática, que não faz parte ainda do currículo de formação dos professores, ou dos profissionais de saúde, como nós aqui. Não é tarefa do professor diagnosticar casos de violência, mas estamos tentando sensibilizá-lo para a percepção e o encaminhamento a quem de direito. A violência, que até pouco tempo atrás era vista como questão apenas de segurança pública, hoje passou a fazer parte das preocupações gerais da sociedade, por isso é assunto da escola também. Aliás, termos conquistado o Jabuti indica não só a qualidade do material, mas também a importância da temática da violência na área a educação. A gente concorreu com autores reconhecidos na área da educação, que trabalham debruçados sobre as questões mais relacionadas à educação propriamente dita, ao ensino, à aprendizagem, mas foi a temática da violência que chamou mais a atenção dos organizadores do Prêmio, porque é importante para esse grupo e para a sociedade como um todo.

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Elisa Marconi é Radialista e professora na Faculdade Rio Branco. Francisco Bicudo é Jornalista diplomado e professor da Universidade Anhembi Morumbi. Autor dos livros “Caros Amigos e o resgate da imprensa alternativa no Brasil” (Annablume, 2004) e “Saúde – Exercício da Vida” (Salesiana, 2009), "Memórias de uma Copa no Brasil" (Chiado, 2014) e "Crônicas boleiras" (Chiado, 2016).

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