Quando a poesia chamou a política para dançar

Elisa Marconi e Francisco Bicudo

Os estudantes franceses já exalavam indignação e manifestavam pouca paciência com as estruturas políticas e o cenário cultural desde março daquele ano de 1968. No início de maio, depois de sucessivos desentendimentos com as autoridades educacionais, os alunos e as alunas de Nanterre ocupam a universidade, em Paris, e obrigam os diretores a fechar temporariamente a instituição. Em apoio e solidariedade aos colegas, estudantes da Sorbonne entram em choque com a polícia, e a universidade, por ora, também é fechada. É possível dizer que um dos movimentos históricos mais intensos e importantes do século 20, o Maio de 1968, estava oficialmente deflagrado. Uma semana depois, no dia 10, as famosas barricadas são erguidas pelos estudantes na capital francesa e uma série de confrontos entre jovens e policiais passam a acontecer nos dias seguintes. Mas, afinal, o que pediam os universitários e como esse movimento acabou se estendendo para outras frentes, levantando bandeiras inéditas, chacoalhando o governo francês e abalando as estruturas de diferentes sociedades em todo o mundo?

“Foi um movimento espontâneo, a princípio sem os partidos tradicionais e explodiu sem que ninguém pudesse prever o que viria”, explica o professor de filosofia da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), Renato Janine Ribeiro, em entrevista exclusiva à revista Giz. “Oficialmente, foi um movimento por reformas no mundo acadêmico e educacional, mas, a bem da verdade, os desejos e pedidos eram bem amplos. Os estudantes do maio de 1968 queriam mesmo era o fim do tédio, do tradicional, do marasmo, do normal”, provoca Janine, que foi ministro da Educação do governo da presidenta Dilma Rousseff. “Eles tinham um forte desejo de liberdade, de emancipação, de poesia e de revolução”, descreve também com exclusividade à Giz a professora de filosofia da USP, Olgária Matos, autora do livro As barricadas do desejo, que trata justamente do Maio de 68, em Paris.

Segundo os dois entrevistados, a França vinha atravessando um período de estabilidade. Saíra de uma sangrenta guerra com a Argélia – e, agora, segundo a leitura das autoridades francesas, podia investir em seu desenvolvimento. A economia também corria bem e, em tese, não havia grandes motivos objetivos para a insatisfação popular. “Ainda assim, a vontade de romper com o velho sistema político que dava pouca voz à população, a vontade de trazer a política e aproximá-las das pautas locais, de trazer a discussão dos grandes assuntos para a vida cotidiana acabou explodindo num movimento intenso, primeiro entre estudantes e, depois, entre trabalhadores”, conta Janine. Nada, entretanto, insinuava que essa efervescência estava a um passo de acontecer. Por isso mesmo, a sociedade é pega de surpresa e leva um tempo até que o governo reaja e ofereça respostas à mobilização dos estudantes.

Em 13 de maio de 1968, manifestações levam mais de 1 milhão de pessoas às ruas da França – e só em 27 daquele mês é que o governo consegue encaminhar medidas que começam a reverter o cenário e a abafar os protestos. É fundamental lembrar ainda que o Maio de 1968 não foi um movimento das esquerdas alinhadas com a União Soviética, em pleno tempo da Guerra Fria. O Partido Comunista francês pouco participou das revoltas. Na linha de frente, estavam mesmo os estudantes, com suas bandeiras pouco ortodoxas. “Eles reivindicavam a presença da política na vida real, com menos autoritarismo do governo sobre o cotidiano e pautas como menos autoritarismo dos maridos sobre as esposas”, reforça o ex-ministro da Educação. “Os estudantes pediam, por exemplo, que a poesia invadisse a revolução, que novos costumes pautassem a vida comum e que antigas tradições fossem banidas”, completa a autora de As barricadas do desejo.

 Ou seja, era sim um movimento de natureza política, porque havia o desejo de uma organização e uma atuação diferente, com novos direitos e deveres e com outra forma de construção do espaço público e da cidadania. Mas havia também uma explosão de forte inspiração cultural, contra os velhos tradicionalismos e costumes, que oprimiam os jovens e lhes impediam de sonhar. No artigo O espírito de 68, o diretor de jornalismo do jornal Folha de São Paulo, Otávio Frias Filho, escreve que “nesse sentido amplo, o espírito de 68 era moldado por pelo menos quatro vertentes: contra o capitalismo, contra a autoridade, pela paz mundial e pela libertação sexual. Como todo movimento de cunho romântico, comportava uma idealização da natureza e da vida em comunidades idílicas”. Se as conquistas em cada frente foram díspares, “mais inequívocas foram as vitórias do pacifismo e da liberdade sexual. É a recusa crescente de jovens do mundo todo a se deixar matar na carnificina quase sempre inútil das guerras que explica que elas sejam mais raras, mais cirúrgicas e mais dependentes de máquinas”.

É comum, portanto, o Maio de 1968 ser lembrado como um dos marcos da contracultura, que reivindicava uma vida mais livre, mais apoiada nas artes e menos na dita política tradicional. Janine reconhece que essa é uma leitura possível, mas capaz de enfraquecer o valor do movimento. “As pautas se iniciam políticas e, com o passar dos dias e dos posicionamentos das autoridades, vão migrando para outras áreas”, retoma. Olgária reforça o raciocínio: “A lógica dos estudantes era outra. A ideia de vencedores e vencidos foi superada. Eles não queriam ganhar de ninguém, nem derrubar nenhuma autoridade constituída. Eles queriam a política no dia a dia, de forma mais participativa, mais cuidadosa com o cidadão. Mas a lógica desejada era outra”.

Saltam aos olhos dos professores de filosofia os slogans, as pichações e os cartazes. A criatividade, a poesia e o bom humor eram armas dos estudantes parisienses; da mesma forma que pediam mais arte, respondiam com criações. “Apesar dos confrontos com a polícia, das barricadas, dos feridos e dos três mortos – não em combate, mas por outros motivos – a alegria estava no ar. Paris virou uma festa de criação e de desejos tão poéticos quanto revolucionários”, conta Olgária. “Os Estados Unidos e a União Soviética não desejavam uma revolução completa na França, seria um problema bem sério, as condições mundiais e a ausência dos partidos tradicionais franceses no movimento também complicava uma revolução tradicional. Por isso refluiu para mudanças mais no âmbito dos costumes”, defende Janine. “Não foi à toa que, em vez de ocupar e paralisar a Assembleia Nacional, os estudantes ocuparam um teatro. Se a casa legislativa tinha virado um grande teatro, sem a participação da população, a casa da cultura virava o centro das decisões”, lembra a professora da USP, a respeito da simbologia do Maio de 1968.

Chama a atenção, ainda, que um movimento que durou 45 dias, com barricadas e ocupações, envolvendo cerca de 10 milhões de franceses, não tenha se transformado num banho de sangue. Na noite das barricadas, 10 de maio, foram registrados 367 feridos, sendo 251 policiais e 116 manifestantes; 60 veículos foram incendiados e outros 128 foram danificados; mais de 400 pessoas foram detidas. Ninguém morreu. Segundo Olgária, em todas as memórias a respeito do Maio de 68, aparece a figura de Maurice Grimaud, o chefe da polícia parisiense. O próprio policial, no livro em que narra a revolta, conta que, naqueles dias, “viram-se coisas nunca vistas”. Ainda segundo a professora da USP, Grimaud segurou na unha os excessos da polícia e evitou a carnificina. É lembrado, por isso, com respeito pelos estudantes até hoje.

Do lado dos estudantes, crescidos na abundância do pós-guerra (o oposto de seus pais, que tinham vivido as das Guerras Mundiais), o líder em evidência era o jovem Daniel Cohn-Bendit, apelidado de Dany Le Rouge, ou Dani, o vermelho, em referência a seus cabelos e seu ideário socialista. Ele participou ativamente do ataque à American Express, em Paris, num protesto contra a Guerra do Vietnã. E também esteve à frente da ocupação da Universidade de Nanterre, em solidariedade à prisão dos colegas que participaram do ataque.

Le Rouge tinha 23 anos no Maio de 68 e representava bem a sua geração. Queria mudar o mundo, mas sem se apoiar na velha política, nos velhos líderes, e com alegria, humor e poesia no dia a dia. Não é incomum, por isso, associar o movimento que ele liderou com outras manifestações espontâneas de jovens que buscam, acima de tudo, ocupar a vida, a cidade, a política e romper com o marasmo.

Para Olgária, um movimento como o Maio de 68, nasce e morre. Não se arrasta, porque termina em si mesmo. “Mas a cada comemoração, aí sim, ele retorna ao cenário e faz pensar, faz a gente procurar ecos”. Justamente por isso, Janine compara a insurreição francesa com o junho de 2013 acontecido aqui no Brasil. “Foi um movimento – a princípio – de estudantes, espontâneo e longe dos partidos tradicionais. Veio depois de um bom período de liberdade e estabilidade e as pautas eram de ocupação da cidade e da vida”, lembra.

Por aqui, também os cartazes começavam pedindo direitos – de ir e vir, de transitar livremente pela cidade, de passe livre e passagem mais barata –, mas já traziam a semente da insatisfação, de que a política tradicional não estava mais servindo e nem representando uma parcela importante da sociedade. “Daí os cartazes tão interessantes e criativos nas jornadas de junho de 2013, as pautas tão diversas e múltiplas, mas todas voltadas para a verdadeira ocupação da vida, com tudo que os cidadãos têm direito”, retoma a professora da USP.

Mas parece que algo saiu do contexto. Enquanto em Paris, a impossibilidade de a política tradicional responder aos anseios dos jovens por mais liberdade e participação desaguou num movimento que transformou costumes e formas de viver a vida (multiplicando-se pela contracultura, pelo movimento hippie, pelo pacifismo), no Brasil de 2013 a insatisfação foi captada e ressignificada por grupos políticos conservadores e reacionários e conduzida para um ódio contra a própria política “e para a repulsa à corrupção, que nesse entendimento só é praticada pelo governo do PT”, continua Janine.

Ele reconhece que não é tão simples e automático comparar as duas realidades, porque a formação das populações francesa e brasileira é muito díspar; os tempos históricos, também. Por aqui, a herança moralista e conservadora, segundo ele, acaba se pronunciando em momentos de confronto político. A saída brasileira tende sempre à concentração do poder nas mãos dos grupos tradicionais e nunca na ampliação dos direitos exigidos pelos grupos que se insurgem. “Os franceses se irritam, pressionam as autoridades, e alcançam algum avanço em seus direitos e liberdades. Aqui, à menor manifestação de insatisfação, o movimento é cooptado e desbaratado, de forma que os grupos representados pelos insurgentes perdem direitos, ou não levam nada”, propõe o professor de filosofia.

Para ele, o que aproxima mesmo os dois momentos é a chegada sem aviso e a consequente demora das autoridades para dar respostas efetivas. E, além disso, o caráter alegre, espontâneo e clamando por menos cotidiano maçante e mais política poética para as pessoas comuns. O que fica mesmo e nunca morre, para o professor Janine, é o ideal de chamar a política para dançar com a vida e fazer disso um movimento cheio de sentidos.

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