Frágeis e hiperconectados

Elisa Marconi e Francisco Bicudo

Eles nasceram perto do ano 2000. Alguns anos antes, ou alguns anos depois. Têm pressa, são impacientes, pouco se demoram onde não se sentem totalmente à vontade. O nome deles é Geração Z – e estão chegando agora ao mercado de trabalho. Também apelidados de centennials, os milennials mais jovens, esse grupo acredita que o smartphone e a internet rápida são seus melhores e inseparáveis amigos.

Tanto assim que a hiperconectividade tem sido responsável por derrubar estatísticas bem características dessa faixa etária. O número de acidentes automobilísticos com jovens, por exemplo, vem caindo. Quem defende essa ideia é a psicóloga norte-americana Jean M. Twenge, professora da Universidade Estadual de San Diego, que publicou um artigo na revista The Atlantic no início de abril. Segundo a pesquisadora, os centennials se movimentam pouco pela cidade e preferem a companhia dos celulares conectados à web em vez de beber e dirigir por aí.

Também como consequência, o excesso de conexão vem deixando essa geração “seriamente infeliz”, como coloca Jean. “A geração está à beira da pior crise mental em décadas nos Estados Unidos e grande parte dessa deterioração pode ser atribuída aos telefones e à mídia social”, provoca.

A tese da professora da Universidade Estadual de San Diego foi divulgada, em 11 de abril, pelo jornal Valor, junto com os resultados de outro levantamento realizado pela Consumoteca, um instituto privado de pesquisa. Ambos os estudos são bem afinados. Nos dados desse último, o que chama atenção é a ansiedade e a infelicidade que acompanham os centennials. “No Brasil, 35% da geração Z alega já ter sofrido depressão em alguma fase da vida – um número alarmante para crianças, adolescentes e jovens de vinte e poucos anos – e 57% diz conhecer alguém da sua idade que sofre da doença. Ao todo, 55% dos entrevistados se definem como ‘ansiosos’ ou ‘muito ansiosos’”, informa a reportagem.

O antropólogo Michel Alcoforado, coordenador da Consumoteca, em entrevista ao Valor, defende que “O motivo dessa ansiedade se deve, em parte, às postagens que se multiplicam em redes como Instagram e Facebook, nas quais as pessoas sempre se mostram em situações felizes, como viagens, festas e compras”. E prossegue: “Eles são bombardeados por vidas esplendorosas. É a pressão da vida perfeita e se sentem obrigados a ser felizes o tempo todo, mesmo sabendo que a web não reflete a vida real”.

Para completar, ao mesmo tempo que são frágeis, poucos experientes e incapazes de lidar com frustrações e adversidades, os centennials são ótimos em fazer mil tarefas ao mesmo tempo, não costumam ser intolerantes com as chamadas minorias sociais, mas caem facilmente na cantilena dos pensadores conservadores e da extrema direita. Esse terceiro olhar sobre a geração Z é desenhado pelo administrador Ademar Bueno, pesquisador e coordenador do Laboratório de Inovação Social e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP). O centro de estudos da FGV vem justamente se dedicando a conhecer melhor essa população, que está começando a entrar na economia agora e que tem características e valores muito próprios. “São distantes – fisicamente e simbolicamente – dos pais e também do que aprendem na escola e na faculdade. Eles são muito jovens, têm pouca experiência e não levam a sério as velhas instituições. Isso é inovador, mas pode ser perigoso para a democracia”.

A reportagem da revista Giz conversou com o professor da FGV para conhecer melhor a geração que está perto dos 18 anos agora. Esses jovens, ‘filhos’ da web 2.0, parecem não estar muito satisfeitos com o que o mundo vem lhes oferecendo.

 


Professor, em linhas gerais, como podemos definir os centennials?

São ainda os millenials, mas são a parcela mais jovem. Eles nasceram depois de 1995 e têm entre 10 anos de idade e 22 ou 23 anos. O que caracteriza esses meninos e meninas e jovens adultos é que eles são a geração que já nasceu sob a internet de banda larga e a cabeça deles já pensa como um circuito de internet. No entanto, é muito importante ressaltar que essa denominação vale para jovens brasileiros, mas só para os de elite. A grande maioria dos jovens brasileiros é muito mais pobre, tem menos acesso a consumo e à internet, depende de wi-fi gratuito e de pacotes de celular pré-pago. Então a hiperconexão é bastante limitada por questões sociais e econômicas. E isso, claro, faz toda a diferença. As características levantadas nas pesquisas combinam muito mais com os jovens norte-americanos, onde desigualdade é muito menor, muito menos severa. A condição econômica e social de pobres e ricos é muito menos diversa que no Brasil.

 

Ou seja, só para precisar um pouco mais… O centennial do Brasil é o jovem de classe média, que estuda em escolas particulares, tem acesso à internet ilimitada e convive com outros adolescentes como ele?

Exatamente isso. Estamos falando da elite branca, que não precisa escapar da polícia e nem comprar crédito para alimentar o celular. Por isso, o corte não pode ser apenas pelo ano de nascimento, ou pela entrada iminente no mercado de trabalho. Nossa realidade é muito mais complexa e isso faz sim diferença. Estou falando de uma desigualdade cruel que gera situações de diferenças terríveis.

 

O que separa os grupos, portanto, são diferenças socioeconômicas e não as capacidades cognitivas ou preferências?

Isso. Se você der as mesmas opções, oportunidades e ferramentas para esse grupo, conseguirão desenvolver as mesmas coisas e, certamente, se comportarão da mesma forma. O ponto aqui é o acesso à rede, aos aparelhos e ao que eles possibilitam. Ainda assim, é possível traçar características importantes para essa faixa inteira da população. Por exemplo, a minha geração, que tem hoje entre 40 e 50 anos, para fazer pesquisa, precisava ir até a biblioteca, selecionar várias obras, encontrar os trechos e reescrever com as próprias palavras, dando sentido aos dados coletados. Hoje, fazer pesquisa é sacar o celular, digitar no Google, copiar os resultados e colar. Com sorte, os jovens citam a fonte. Se não, nem isso. Ou seja, as dimensões da busca, do trabalho, da significação do que o outro já escreveu mudou muito da última geração para essa. Os milennials têm pressa, querem respostas prontas, querem chegar logo à conclusão. O resultado é que o processo, o desenvolvimento, pouco importa para eles. Só precisa ser rápido. E se não for, eles descartam.

 

Acontece que pesquisar, buscar e fazer projetos têm a ver com uma maneira de ler o mundo e de se conectar com as organizações políticas e sociais…

Certo. E eles descartam quase todas. As instituições milenares e seculares que apoiaram o desenvolvimento da humanidade valem muito pouco, ou têm pouco significado para os meninos e meninas da geração Z. Eles já nasceram sob o signo da tecnologia – de um mundo mediado pela tecnologia; nasceram dentro de ambientes democráticos, então não compreendem realmente o que significa a restrição de direitos. Por isso caem no discurso dos grupos de extrema direita, como o Movimento Brasil Livre, MBL, porque não têm experiência de vida, não têm referência e só ouvem a parte que interessa.

 

E têm paciência para se aprofundar em outros discursos diferentes dos que colam mais facilmente?

Nenhuma. São voláteis. Curtem, compartilham e passam para a próxima. Por isso, discordo da ideia de que os jovens da geração são de extrema direita por escolha consciente. Se alinham a esse campo porque é o que chega neles e é também mais fácil de consumir e de espalhar. Os movimentos de extrema direita entenderam isso e se aproveitam dessa característica. É um discurso, uma resposta rápida. Lembre que essa geração não aprendeu a ir à biblioteca, selecionar as fontes, escolher os discursos, trabalhar tudo isso e dar novo significado. Tudo isso leva a escolher o que é mais fácil. É importante destacar também como as características geracionais são aproveitadas pelos movimentos da direita. Eu disse que os centennials nasceram em ambientes democráticos e se afinam com a bandeira das liberdades pessoais. Pois bem, quando, em seus discursos, a extrema direita critica as manifestações populares porque impedem o direito de ir e vir, os jovens ouvem: atrapalha a liberdade. E, por isso, eu, jovem, sou contra. Quando a direita fala que é preciso acabar com as instituições democráticas e republicanas porque estão corrompidas pela corrupção, eu, jovem, acho que tudo bem, porque não faço a menor ideia de como é viver num mundo sem essas instituições.

 

Isso é grave, por princípio. Não é mais grave ainda num país que está colocando em cheque sua estrutura democrática, que ainda vinha sendo construída e aperfeiçoada?

A situação do Brasil é infinitamente mais complexa que a de outros países, que ainda que atravessem períodos pouco progressistas, não veem suas instituições democráticas em risco. É o caso dos Estados Unidos, com o presidente Donald Trump. Mesmo que o mandatário seja pouco progressista e democrático, as instituições não estão em risco. Aliás, isso nem se coloca. Os poderes funcionam e se regulam ali, não têm risco de acabar. Aqui é mais delicado. Tem risco sim de acabar.

 

A escola é uma dessas instituições que sofre com o descaso e o desentendimento da geração z?

Sim, mas a responsabilidade aqui é do sistema educacional e não dos jovens ou de suas famílias. A escola de nível fundamental e médio trabalha não para formar estudantes pensantes e investigadores, mas sim para talhar futuros prestadores de vestibulares. A ideia é passar no vestibular e entrar na faculdade. E a faculdade funciona para formar profissionais para o mercado de trabalho do século 20. O jovem mal quer ir para a faculdade e, muito menos, ser empregado do mercado formal. O professor como único conhecedor e detentor do conhecimento não cola mais. Para os centennials, buscar informação e se formar via tutorial pelo Youtube tem o mesmo valor de aula e pesquisa. O mercado de trabalho, para eles, é um lugar terrível, que exaure os pais e os rouba do convívio com a família. Então por que ir para esse ambiente?

 

E os pais percebem que esse é o filho deles?

A verdade é que a geração mal convive com os pais. Ficam pouco tempo fisicamente mesmo, porque os pais trabalham muito e porque a agenda dos filhos é de executivo. E mesmo quando estão juntos, os filhos estão de cabeça baixa, olhando suas telinhas, ou trancados nos quartos jogando videogame. Significa dizer que nem os pais são referência para essa turma. Não servem de referência nem para o mundo do trabalho – que também não aparece nos conteúdos e discussões da escola. E esses jovens nunca são contrariados, não precisam trabalhar, fazem muito pouco esforço e têm muito mais do que precisam e são, dessa forma, imaturos, impacientes e despreocupados. E têm pouca resistência – casca mesmo – para enfrentar as adversidades.

 

Mas devem ter qualidades também os centennials…

Têm! Ser hiperconectados dá a eles a habilidade de fazer mil coisas ao mesmo tempo e entregar as tarefas, mesmo se dividindo em múltiplas frentes. Os diretores e gerentes do mundo do trabalho penam para entender como isso é possível, mas começam a entender que dá para fazer. O fato de terem sempre vivido no tempo da tecnologia mudou os caminhos do pensamento deles e fazer conexões e associações é mais fácil e quase automático para os centennials. Ao mesmo tempo, a liberdade é um bem valioso. Eles se complicam um pouco na hora de usar esse valor na vida social e política, mas não cogitam abrir mão dela, nem por um momento… A capacidade de comunicação e cooperação, de formar redes e espalhar informação dos milennials é invejável. Eles nem imaginam que reter informação possa ser vantajoso. Quanto mais gente souber, melhor. Eles se ligam a causas da diversidade muito naturalmente e militam – pela internet – em prol dos desfavorecidos nesse ponto. Se a educação se organizar para dar conta desses rapazes e moças, poderemos ter um mundo mais tolerante, livre, colaborativo e conectado.

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