Zilda Arns ganha as prateleiras

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo*

O rosto forte, de feições sérias, transformava-se completamente quando os olhinhos miúdos de Zilda Arns sorriam. Da mesma maneira, observações feitas à distância sobre a obra dessa médica sanitarista brasileira que esteve à frente de programas de erradicação da fome e da mortalidade infantil conseguem captar facetas relevantes da personagem, como a rigidez, a combatividade e a perseverança. Já um mergulho mais convicto e profundo na trajetória dela é capaz de revelar uma personalidade múltipla, generosa e conservadora, corajosa e curiosa, religiosa e defensora da ciência.

É essa visão mais próxima, plural e complexa que o jornalista Ernesto Rodrigues deseja oferecer para os leitores em Zilda Arns – uma biografia, recém-lançado pela editora Anfiteatro. “Já biografei outros personagens, como o piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna, e o presidente da FIFA, João Havelange. A ideia é sempre tornar o leitor íntimo dos biografados, conhecendo as facetas positivas, negativas e muitas características daquelas pessoas”, conta o autor.

Zilda Arns Neumann é figura bastante conhecida no Brasil. Sua luta contra a desnutrição e a mortalidade infantil são referência por aqui – e também no exterior. Dra. Zilda, como era muitas vezes chamada, era fonte de reportagens nos jornais, na TV e no rádio, e a nobreza das causas a que se dedicava justificava a notoriedade da médica. “Ela foi, sem medo de exagerar, revolucionária na luta contra a desnutrição. Com medidas simples e uma capacidade invejável de penetração, tirou o Brasil de níveis africanos de mortalidade infantil e colocou o país em níveis europeus”, inicia Rodrigues.

Para conseguir essa façanha, os entrevistados que contribuíram com o livro destacam duas características nela: perseverança e poder de organização. “Ela não desistia de fazer o soro caseiro ser conhecido e usado, mesmo quando os pediatras desdenhavam. Formou milhares de agentes de saúde com a humildade de entender que tinham de ser mulheres da comunidade, se não a mensagem não chegaria lá na ponta, onde as crianças precisavam ser salvas da diarreia”, lembra o jornalista. A mobilização e a capilaridade chamam a atenção, porque não havia internet nos anos 1980, quando a ação se deu mais intensamente, e telefone quase não chegava aos rincões do Brasil, onde a atuação dela se fazia mais necessária.

“Mas Zilda montou uma rede de 200 mil pessoas que funcionava como um relógio, as crianças eram pesadas e medidas”, conta Rodrigues. A Pastoral da Criança, ONG ligada à Igreja católica e liderada pela médica, fazia chegar às famílias a colher-medida para o açúcar e o sal que, junto com água fervida, viram soro para barrar a desidratação, ajudando a reduzir as taxas de mortalidade de meninos e meninas. Tudo isso para além de partidos políticos e fundando o que depois veio a se chamar de Terceiro Setor, que não existia de forma profissional e implementada organicamente naquele tempo.

A rede de agentes de saúde foi criação direta da Dra. Zilda e quem trabalhou mais de perto com ela relata essa capacidade de entendimento da realidade brasileira e de agir nas brechas do que existia e, consequência disso, a quase idolatria com a qual ela era vista nas comunidades atendidas pelo programa. “Era abraçada, admirada, idolatrada mesmo”, explica o escritor, já apontando que essa faceta quase não combina com a personalidade da biografada.

Rodrigues reforça: ela era muito reservada. “Tinha uma formação católica muito rígida e conservadora. A família sempre esteve ligada à Igreja. Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo e cardeal, era irmão de Zilda. Era mesmo uma formação dogmática e doutrinária. Absolutamente afinada com o pensamento mais conservador da Igreja”, conta. No entanto – e eis aqui mais uma prova da multiplicidade dessa personagem – nada disso impediu que ela fosse bastante libertária em algumas brigas e batesse de frente até com algumas posturas da Igreja Católica. “Em dado momento, Zilda se afina com a Teologia da Libertação, com a qual Dom Paulo se afinava também, e passa a defender que o paraíso comece a vigorar ainda em vida. Ou seja, a vida tinha de ser boa e digna também aqui na Terra e não só na chegada ao céu. Isso tem a ver com o direito a comer e, consequentemente, a comprar – distribuição de renda – e a plantar – reforma agrária”, provoca o autor.

Zilda Arns também era mãe e teve uma vida familiar difícil e com acontecimentos trágicos. Era vista como enérgica e combativa, “meio chefona, autoridade mesmo”, brinca Rodrigues. Perdeu o marido, o professor Aloísio Bruno Neumann, numa fatalidade. Ela estava trabalhando e Neumann e os filhos estavam na praia. Uma filha de criação dele quase se afogou e, no intuito de salvá-la, o companheiro acaba morrendo. Nelson, filho do casal, com então 12 anos, ainda tenta resgatar o pai e não consegue. “A história toda gerou um trauma muito fundo na Zilda e na família toda”. Anos depois, uma das filhas da médica morre num acidente numa estrada. Era a única filha com quem a biografada tinha mais dificuldade de relacionamento, porque a moça se envolvera com um homem casado no passado e Zilda, de formação católica muito severa, não podia aceitar. Quando estavam próximas de um entendimento, a filha morre assim, tragicamente, deixando mais uma ferida.

Diante de todas as facetas de sua biografada, Nascimento elege a disposição para as lutas como a maior surpresa revelada nas pesquisas. “Ela comprou brigas indigestas, inclusive com o Vaticano. Também se posicionou contra a camisinha num momento de crescimento da epidemia de Aids. Brigou e ganhou, brigou e perdeu bastante também”, narra o biógrafo. Ao mesmo tempo, enfrentou governos, passou pelos presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva. “Circulou física e politicamente pelos corredores de Brasília sem se corromper. Seu nome nunca esteve ligados a escândalos, mesmo recebendo verbas de todos esses governos de linhagens diversas. Ela tinha fome de transparência”.

Talvez, justamente por essa característica, a pesquisa para construir a biografada tenha tido menos percalços que os personagens retratados antes por Nascimento. Zilda dava muito valor aos registros, à imprensa, à prestação de contas. Comunicação era um dos pilares da sua vida pública. “Por isso, não foi difícil refazer a trajetória da sanitarista. Os passos e as brigas eram acompanhados de perto pela imprensa, onde também saíam artigos assinados por ela. Usei arquivos digitais e com o olhar apurado de repórter, cheguei aos fatos e apurei. Mas, de fato, não havia nada muito escondido, era de fato uma história pública. Faltava montar e contar”. O biógrafo também recorreu a entrevistas. Foram 40 entrevistados. Entre eles, e foi a última conversa, Dom Paulo. “Ele já estava muito fraquinho, mas fui até lá a casa dele junto com o Nelson, sobrinho dele e filho de Zilda, e conseguimos gravar algumas respostas. Foi muito emocionante, porque, como a irmã, ele era parte da história recente do Brasil”, recorda.

É a partir do gancho estabelecido com a História que Zilda Arns pode chegar aos professores e às salas de aula. As lutas escolhidas e enfrentadas por ela, defende o jornalista, tiveram forte impacto social. Foram sempre escolhas pelo coletivo, pela população mais carente. Tanto assim que a médica foi forte candidata ao Prêmio Nobel da Paz. Mas calhou de, em 2001, as Torres Gêmeas serem atacadas, em Nova York, Estados Unidos, e a ONU e seu representante, Kofi Annan, levarem o louro pela atuação contra o terrorismo e em favor do entendimento mundial. “Tem um aspecto de luta pela cidadania e pela dignidade da vida humana no trabalho de Zilda Arns e isso já vale como exemplo e inspiração”, propõe o autor.

Falando para professores, Nascimento destaca ainda um último aspecto que merece um pouco de luz. Apesar de extremamente religiosa e alinhada com a Igreja católica, Zilda era médica sanitarista e tinha uma relação forte com a ciência. Tomava suas decisões e até mudava de ideia sem teimosia, a partir de evidências e estudos científicos. Foi assim com a multimistura, uma espécie de farinha fortificada, feita com ingredientes regionais, que ela defendeu por muito tempo. “Zilda entendia que a multimistura poderia enterrar a desnutrição a partir de elementos simples e acessíveis, exatamente como o soro caseiro”, explica Nascimento. Mas, depois de uma série de estudos, inclusive feitos fora do Brasil, mostrarem que a farinha podia não ser tão nutritiva assim, “ela acatou, entendeu que podia estar equivocada e passou a defender que para ser chamada de multimistura, a formulação tinha de ser bem específica e tinha de cumprir com o objetivo: nutrir de verdade crianças e adultos”, explica. Pesquisa e conhecimento científico eram coisas sérias para ela, não havia conflito nesse aspecto.

Zilda Arns morreu aos 76 anos, vítima do terremoto que devastou o Haiti em 2010. “Ela estava lá em missão humanitária, cuidando da desnutrição e da mortalidade infantil no país da América Central, que estava sob intervenção da ONU. O terremoto surpreendeu o mundo e acabou matando a brasileira”, lembra o biógrafo. “Mas eu não esperaria mesmo que uma guerreira como ela morresse em casa, descansando. Enquanto estivesse viva, por tudo que vimos até aqui, ela estaria em campo, batalhando, olhando por quem precisasse”, conclui Nascimento.

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