Frankenstein, 200 anos

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo

Ele não tem nome, não sabe bem como chegou neste mundo, não percebe que o que comete é proibido, ou perigoso, não entende por que as pessoas o olham com medo e o tratam com violência, a ponto de persegui-lo. Com 200 anos completados em janeiro de 2018, a criatura desenvolvida pelo doutor Victor Frankenstein, da obra da escritora inglesa Mary Shelley, atravessou tempo e espaço, não se resignou a ficar nas estantes das bibliotecas e continua provocando inspirações e discussões entre leitores e especialistas.

É impossível não conhecer, mesmo que por alto, a história do clássico Frankenstein. Mary Shelley narra a trajetória do médico e cientista Victor Frankenstein, que decide produzir algo único: um ser humano formado não pela concepção natural, mas pela junção de partes de corpos de outros humanos já mortos. O cientista estuda por anos e, enfim, com uma fagulha elétrica, consegue produzir sua criatura. No entanto, as coisas não saem bem como Frankenstein imaginava e a criatura inominada tem enormes dificuldades de adaptação e aceitação. Sente-se abandonada e traída e se vinga de pessoas da comunidade. Comete crimes e persegue Victor e sua família. Mesmo quem não leu, já ouviu falar ou viu referências variadas em desenho animado, filme, gibi e até no Carnaval de 2018, no desfile da escola de samba campeã, a Beija Flor.

Entender esse vigor de Frankenstein para continuar em pauta foi o que levou a reportagem da Revista Giz a procurar a professora de literatura Jaqueline Bohn Donada, da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR). Atualmente fazendo pós-doutorado na Universidade de Lisboa, em Portugal, ela é especialista em romances britânicos e escreveu Spontaneous Overflow of Powerful Feelings: Romantic Imagery in Mary Shelley’s Frankenstein (2009, Editora VDM Verlag). Foi já no fim da conversa que a especialista citou o que será a chave para o segredo da longevidade daquela obra: citando o escritor italiano Ítalo Calvino, ela lembra que “um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem para dizer”.

“Apesar da simplicidade do texto, claro e fluente, Frankenstein trata de assuntos de grande complexidade. Questões fundamentais para a humanidade, como a vida e a morte, a ética, os limites e os valores que não são mais caros, estão lá nas páginas de Mary Shelley. E estamos ainda muito longe de resolvê-las”, avalia Jaqueline. Existem assuntos, segundo a professora, que por serem tão complexos e profundos não podem ser tratados diretamente. Para lidar com esses nós, os seres humanos inventaram, por exemplo, os mitos e as alegorias. Frankenstein seria, assim, uma obra que procura expor e trabalhar esses pontos nevrálgicos que assombram e encantam a humanidade desde sempre e que não deixarão de provocar essa reação. “Estamos falando, por exemplo, do que separa a vida da morte, do momento disparador da vida. Quando ele acontece e quem tem o poder de acioná-lo. Todas as mitologias da criação do mundo tratam disso – e Frankenstein também”, propõe.

A experiência do ser que se vê sozinho diante da sociedade e sem saber como enfrentá-la ou como fazer parte dela também está ali em Frankenstein. “É o desejo de pertencer, mas ao mesmo tempo se ver deslocado e rejeitado pelo grupo. Depois vem a consequente vingança por não poder entrar. São assuntos absolutamente contemporâneos e que perseguem adolescentes e adultos”, lembra Jaqueline, enquanto compara o despertar da criatura fictícia ao caso que acabara de acontecer na Flórida, Estados Unidos, em que mais um jovem entrou na sua antiga escola e abriu fogo contra alunos e professores e matou 12 pessoas e feriu outras 12. Diferentemente do personagem de Shelley, Nikolas Cruz tem um nome, 19 anos e está detido.  “A questão da identidade costura a narrativa do começo ao fim: quem sou eu? Como me vejo? Como a sociedade me vê? O desejo de fazer algo grande, que marque a humanidade também. Veja como não superamos isso e estamos longe de superar”.

Outro aspecto que a pesquisadora destaca como permanente na obra de Mary Shelley é a relação com a ciência. De carona numa máquina do tempo, é possível ver que a Inglaterra da escritora vivia, no início do século 19, um boom de produção científica e tecnológica. As pesquisas encontravam cura e tratamento para doenças, as cidades se modernizavam embasadas nos estudos e no conhecimento produzido, a expectativa de vida crescia em razão dos avanços da medicina. As indústrias se enchiam de máquinas e, principalmente, “a crença na ciência e na tecnologia como panaceia para todos os males era algo presente e pulsante”. Evidentemente, junto com esse ideário, o medo de que cientistas extrapolassem, brincassem de Deus, e não controlassem o poder e a força de suas invenções arrepiava as almas mais sensíveis que se afinavam com o Romantismo nas artes, na música e na literatura.

“A própria Mary Shelley vinha de um ambiente inspirador. Seu pai era filósofo e sua mãe, escritora e feminista. Ainda muito jovem, ela foi viver com o poeta Percy Shelley, com quem só casou depois de muito tempo juntos”, explica a professora da UTFPR. Ou seja, somando uma formação culturalmente rica com a percepção do espírito de seu tempo, a autora conseguiu alcançar e discutir pontos cruciais na discussão sobre a ciência, o cientista, os limites e os poderes. Imagine, por exemplo, a solução que o doutor Viktor Frankenstein dá para que sua criatura passe de inanimada para animada e, finalmente, ganhe vida. “Naquele momento, a eletricidade era revolucionária. Entendê-la e adestrá-la para servir aos propósitos humanos foi um passo gigantesco. É com a captação de um raio que o cientista oferece a vida a sua criatura”, conta. Para além da camada principal da narrativa, estão questões mais profundas como: afinal, o que dá origem à vida? É físico, biológico, ou espiritual? “São todos pontos não resolvidos ligados à ciência e à tecnologia”.

Em paralelo, corre a criação do arquétipo do cientista e do cientista louco: descabelado, de jaleco, experimentando coisas terríveis e produzindo explosões, solitário em seu laboratório cheio de vidros, tubos de ensaio, máquinas inexplicáveis. “Essa figura, criada por Shelley, nos acompanha até hoje”, refresca. Frankenstein, aliás, é tido como a obra seminal da chamada ficção científica, um gênero que depois de ter sido o queridinho de muitas editoras, atualmente sofre com certo ostracismo, se comparado às distopias adolescentes. Como se explica, então, que o livro bicentenário continue sendo referência para outras obras que tratam de ciência e tecnologia? A professora de literatura defende que “o que acabou não foi a ficção científica foi, antes, a nossa crença de que a ciência resolveria tudo para nós. Essa ideia até aparece pincelada em Frankenstein. A pesquisa consome tempo e investimento, o cientista dá sua vida por ela, a descoberta vem, o avanço também, mas a sociedade não melhora, o ser humano continua mal resolvido. É uma percepção dolorosa. O que nos salvará depois que a ciência não conseguiu?”.

Jaqueline entende, a partir das leituras, que o desencanto com a ciência surge não por conta do trabalho do cientista com resultados ruins, mas do fazer científico afastado da reflexão filosófica, ética. Quando a ciência e a tecnologia não seguem princípios bem claros, esses desvios acontecem mesmo e o mundo vira lugar inóspito aos humanos. “Não deixa de ter uma pincelada de distopia também, repare como parece o século 20, quando a ciência e a tecnologia avançaram exponencialmente e alguns problemas só se aprofundaram. Repare como parece as séries e os filmes como Black Mirror e Jogos Vorazes, por exemplo”, afirma. Não é, portanto, uma temática esgotada, segundo a especialista, por isso continua encantando jovens e velhos leitores.

Falando em adolescentes, há críticos que apontam a obra de Mary Shelley como um livro fundamental para esse público. Jaqueline concorda e discorda. A leitura fácil, argumento usado como encanto para os jovens, é apenas uma camada do livro. “A primeira. Atravessada, revela um universo cheio de angústias filosóficas profundas. Essas sim, boas razões para meninos e meninas de 12 a 18 anos encararem”, sugere. É verdade também que essa fase é marcada pela oposição eu X mundo, que, como já dito, aparece fortemente na história. A própria autora tinha 16 e 17 anos quando escreveu e lançou o livro. Se colocava e colocava na obra a pergunta que tira o sono dos adolescentes: acordei, e agora? O que faço nesse mundo que não conheço? “Ser jovem e ter o privilégio de ler um dos clássicos da literatura ocidental pode ser muito frutífero para pensar e se colocar na vida”, acredita.

Algumas escolas adotam a obra romântica e trabalham de diferentes formas com os estudantes. Jaqueline conhece dois bons exemplos que não esgotam as possibilidades, mas inspiram professores e alunos. Numa escola, a professora de inglês mediou a leitura de Frankenstein com alunos do Fundamental 2. Eles leram, trabalharam vocabulário, pronúncia e os próprios alunos destacaram algo que chamou atenção: bullying. O conceito e o termo nem existiam quando o livro foi escrito, mas, de alguma forma estão lá, e os jovens é que notaram. “A criatura é ostensivamente rejeitada pela sociedade, não se encaixa, se angustia e isso dói”. Aqueles estudantes fizeram então uma peça de teatro, em inglês, abordando esse aspecto. Escreveram, ensaiaram e apresentaram.

Outro exemplo se deu com uma turma para quem a própria professora lecionou. Eram meninas e meninos de 13 anos que leram o livro e foram divididos em dois grupos, como se fosse um júri. Metade deveria defender a criatura. A outra metade faria a defesa do criador. Com essa motivação, tinham de encontrar argumentos na própria obra que justificassem os atos de cada um. O que fizeram era certo ou errado? Era crime? Tinha motivação? Tinha atenuantes? “O resultado é que a leitura de Frankenstein possibilitou o entendimento que não é tão fácil assim atribuir culpa, ou alegar a inocência de alguém. As grandes realizações podem ser frutos de heróis cheios de máculas, indefensáveis. Ou seja, há camadas e camadas de interpretação. Perceber isso aos 13 anos é uma grande oportunidade”, se entusiasma.

E, daqui, pulamos para a última chave de entendimento e fruição para Frankenstein. É uma dica da própria pesquisadora: o clássico vale para leitores de todas as idades e possibilita um mergulho na velha indagação humana “quem sou eu, afinal?”. A ideia, propõe a especialista, é ler e se colocar, às vezes, no lugar do Dr. Viktor Frankenstein, e, às vezes, se colocar no lugar da criatura. A empatia com um e com outro tira a obviedade da oposição mocinho X bandido e oferece novas perspectivas para entender ações e sentimentos tão humanos quanto monstruosos, que habitam os personagens e, claro, cada um de nós, propõe.

O desafio tem validade de, pelo menos, mais 200 anos.

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