Escola precisa ser lugar de esperança e reconhecimento

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo

Faz pouco mais de um mês que as imagens da professora Marcia Friggi, de Santa Catarina, circularam pela internet, ganharam as manchetes dos portais de notícias e as redes sociais. Ela aparecia com o rosto ensanguentado, depois de ter sido agredida por um estudante de 15 anos que, ao ser repreendido, lhe atirara um livro. De lá para cá, sempre que se procura dados sobre “violência contra professor” no Google, a emergência é de mais de 130 mil aparições na parte de notícias e 1,2 milhões de aparições na busca geral. Na sua edição de 17 de setembro, um domingo, o jornal Folha de São Paulo estampou na primeira página um levantamento baseado em registros policiais apontando que, a cada dois dias, três professores são agredidos em São Paulo – a violência vai de xingamento a cadeirada, passando por ameaças e pontapés.

Ainda como consequência das agressões sofridas por Marcia (dada a força das imagens e o simbolismo da violência), voltaram à tona duas pesquisas a respeito do assunto. Uma foi feita em 2015 pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), indicando que 44% dos docentes de escolas estaduais já haviam sofrido algum tipo de agressão (verbal, bullying, vandalismo e agressão física). A segunda, divulgada em 2013 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entrevistou mais de 100 mil professores e diretores de escola dos ensinos Fundamental 2 e Médio e revelou que o Brasil estaria em primeiro lugar no ranking mundial de violência em escolas (34 países considerados). O estudo apontou que 12,5% dos docentes brasileiros afirmavam ter sido vítimas de agressões verbais ou intimidação de alunos, pelo menos uma vez por semana.

Os números são preocupantes, mas não podem ser vistos de forma isolada. “É claro que a violência contra o professor existe e deve chamar nossa atenção, mas não pode ser encarada como algo segregado do contexto geral do Brasil, que é um país violento e que que tem escolas violentas”, sugere a socióloga Miriam Abramovay, coordenadora de Políticas Públicas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), especialista em violência contra o professor. O ponto de partida da reflexão da pesquisadora é a violência como constituinte da cultura brasileira. “O Brasil é um país violento, a relação entre as pessoas – apesar do mito do bom selvagem – é embrutecida, as mulheres são violentadas, as crianças são violentadas aqui. A escola não está apartada disso”.

O sociólogo francês Bernard Charlot, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFSE), concorda. “Historicamente, o Brasil é um país marcado por violências. Escravidão, coronelismos e mesmo a situação política e judiciária que vivemos hoje são violentas. A escola e o professor estão nesse contexto e não dá para isolar o que acontece fora da escola com o que acontece dentro”. Ele coordenou um grande projeto de pesquisa ainda nos anos 1990 na universidade Paris VIII, na França, que tratava justamente das agressões sofridas por docentes e pondera: “Serve para provar que a violência contra o professor não é problema só do Brasil e nem só desse tempo. O que vemos é um aprofundamento dos casos, mas não é algo novo”.

Já em 2007, há dez anos, o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP) publicara um guia sobre o tema assinado pelos pesquisadores Caren Ruotti, Renato Alves e Viviane de Oliveira Cubas. Violência na escola – Um guia para pais e professores trazia casos reais e oferecia caminhos para superação das situações de violência nas instituições de ensino. Alves conversou com a reportagem da Revista Giz na época do lançamento do trabalho – e voltou a falar conosco agora. Ele segue achando que as escolas continuam violentas. “O tempo é outro, hoje, e o lugar da escola mudou. No entanto, a violência se acentuou e isso atinge diretamente os professores”, propõe.

Para ele – e Charlot engrossa esse coro -, no passado próximo, a escola era vista pela sociedade como um lugar de respeito, as famílias e o Estado tinham de zelar por aquele espaço, porque ali moravam o conhecimento e o futuro; por isso, certas agressões de fora para dentro não eram admitidas. O professor tinha status de autoridade, não se mexia com ele. Nos últimos 50 anos, essa posição foi se deteriorando, em função sobretudo das políticas educacionais que não valorizam a profissão e da acentuação do capitalismo que entende educação como negócio. “Por isso, hoje, a criança vai para a escola cada vez mais cedo e cabe à escola ensinar habilidades e conhecimentos que eram papel da família: usar o banheiro, usar talher, não maltratar animais, se relacionar com os colegas”, explica Alves. “E onde falta família, as relações se embrutecem. O professor virou serviçal, trocador de fraldas, a escola virou passaporte para o futuro e, na falha de qualquer uma dessas variáveis, a violência se impõe”.

Charlot destaca que, antes, o fracasso escolar se encerrava na escola. “Meu filho bombou, não concluiu a escola, é triste, mas não é dramático. Hoje, se o filho não conclui a escola, é um desastre, ele perde o futuro e a vida, imagine a pressão sobre a criança, os pais, os professores e a escola”, arremata o francês. E Miriam completa: “A estruturação da escola no Brasil é muito violenta e todas as pesquisas apontam que a maior vítima não é o professor. É o estudante, que sofre agressões do sistema, das autoridades, dos professores e dos próprios colegas. A violência nas escolas não nasce no entorno, embora ele também seja violento. Nasce na própria escola, no modelo”.

Admitindo, então, que a escola é um lugar estruturalmente de violências, os pesquisadores passam a olhar para a situação específica do professor submetido a essas condições. “A carreira de professor mudou do início do século para cá. A disputa por horas aulas – e não por projetos de ensino e aprendizagem – marcam a relação do docente com os colegas e com a instituição. Não dá para revolucionar a educação tendo que disputar salário”, provoca Alves, do NEV/USP. E, olhando para o momento mais presente, Charlot, da UFSE, lembra que “com gastos para a Educação congelados por 20 anos não vai dar para repensar o lugar do professor no futuro próximo. Vamos ter que encarar com o que temos aí”. Miriam faz o contraponto e pede cuidado para não escorregar no vitimismo. “Tem muito mais professor fazendo projetos incríveis com os alunos que sofrendo agressões, é preciso olhar para esses também, sob risco de reduzirmos ainda mais a importância do professor no processo de educação. O lugar do professor foi abalado, mas continua muito inspirador”.

É inegável, no entanto, que a violência contra o professor, principalmente se cometida por um estudante, choca. “Porque quebra um acordo tácito. As famílias entregam seus filhos. Quando o professor é agredido é sinal de que esse acordo não está sendo respeitado, faliu. E falhamos todos”, aponta a coordenadora da Flacso. Numa situação similar, um médico agredido por um paciente que se percebe maltratado ou mal atendido também estarrece a opinião pública. “Mas a expectativa prévia que se coloca nessa relação é diferente. O doente vai ao hospital pontualmente, se trata, se cura e vai embora. O aluno é entregue ao professor e a escola é fiadora de um projeto de vida, que não pode ser abalado”, reforça Alves. De dez anos para cá, a tolerância para essas eventuais falhas foi o que mudou, afirma o pesquisador. “O mundo está mais violento, as relações estão menos tolerantes, as redes sociais aprofundaram isso, e o professor passou a sofrer mais essas consequências”. Para Charlot, “o cenário que vemos nas escolas é que o agressor é cada vez mais jovem, em geral são os meninos, mas a violência entre as meninas cresce mais”. Para o professor, o cenário é mesmo angustiante e preocupante. “Trata-se de um cotidiano cada vez mais tenso, com pressões por desempenho, a lembrança de que ele é perfeitamente substituível, redução nas cargas horárias, ameaças dos pais e dos alunos. Mesmo que a violência não bata no rosto no educador, é simbólica e diária”, reforça o francês.

E o que é possível fazer para rever essa situação? Abramovay propõe que, primeiro, não seja construída uma narrativa escatológica. “Os casos de violência acontecem, mas são mais pontuais do que a imprensa prega. Não podemos colocar tudo num painel único”. Ela sugere que as escolas, os sindicatos e a imprensa comecem a levantar também projetos e iniciativas que impactaram positivamente a relação com os professores, com a escola, entre os próprios alunos e com a comunidade. “Precisa cava, achar e noticiar. Nós acompanhamos alguns e eles funcionam. Os adolescentes embarcam nessa aventura e reconstroem a realidade. Leva tempo, mas acontece”.

Charlot lembra dos mecanismos de mediação que podem ser muito úteis e eficazes. “Eles reforçam a noção e a prática do diálogo, da escuta, da conciliação e resolução possível dos conflitos. As escolas que utilizam a metodologia Frenet adotam e funciona bem”. Quando a comunidade escolar é ouvida e atendida, os índices de violência caem. Já Alves aponta a relevância do reconhecimento, que os alunos chamam carinhosamente de “considera”. “A violência precisa ser vista como uma busca pela solução de um conflito. Quando as vias pacíficas não funcionam, parte-se para a violência, mas o desejo é superar”, afirma. Em geral, quando há agressão, há uma falta de escuta crônica – muito reforçada pelas redes sociais, que fomentam um diálogo de surdos. Todos falam, ninguém ouve. “Quando a escola, ou um professor se prontificam a ouvir, a abrir espaço para o que o aluno tem a dizer, os estudantes reconhecem a consideração. O professor vira um grande ‘considera’, aquele que ouve e leva em consideração”, conta Alves. Esse educador aberto vira referência para o estudante, que se reconhece no processo todo. “Onde tem reconhecimento, não tem violência”, pontua o pesquisador do NEV.

É o mesmo que Miriam já havia pontuado: “Apesar de todos os pesares, repare, o aluno vai para a escola e fica. E por que fica? Porque se reconhece no projeto, porque considera alguns professores, porque se encanta com alguns conhecimentos. Esse aluno não é agressor e nem vítima e nem deixa os colegas agredirem”, conclui.

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