Educar para o bem comum

Por: Claudia Priore, Francisco Bicudo, Gabriela Ziebert, JS Faro e Silvia Barbara

Na mesa do almoço, movimentos ágeis e animados, Antônio Nóvoa fazia talheres dançarem no ar e brincava com os garfos e as facas, separando-os à esquerda e à direita, para explicar como se posicionam ideologicamente os principais partidos políticos portugueses, dos socialistas à democracia-cristã. Falava também com orgulho sobre a “geringonça” – apelido pejorativo dado pelos conservadores à coligação de esquerda que governa atualmente o país ibérico e que acabou sendo assumido e adotado carinhosamente pelos próprios progressistas e representantes da aliança. “De fato, é isso o que somos. Mas é uma geringonça de esperanças, que está dando certo e recuperando a dignidade dos portugueses e a economia do país”.

Ex-reitor da Universidade de Lisboa e um dos mais importantes pensadores contemporâneos da Educação, ele foi candidato independente à presidência de Portugal em 2016, conquistando expressiva votação (cerca de um milhão e cem mil votos, 22,8% do eleitorado) e não alcançando o segundo turno por irrisórios dois pontos percentuais. “Minha candidatura foi lançada contra as políticas de austeridade”, afirma. A defesa da Educação cidadã e das escolas como espaços de construção do bem comum foram eixos norteadores da campanha dele.

Com a mesma empolgação, Nóvoa havia participado pouco antes da sessão de abertura do Sexto Congresso de Pesquisa do Ensino organizado pelo Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro/SP), no final de agosto. Em sua fala, destacou diferentes dimensões que angustiam e pressionam o trabalho dos professores no século XXI: tarefas burocráticas e rotina estafante; políticas públicas de desvalorização do professorado; processos de privatização da educação; e a ilusão de que o professor pode ser substituído por dispositivos tecnológicos. “Tudo isso dá forma a um ambiente político e social muito difícil para os professores. É preciso voltar a viver a profissão com a alegria do futuro”.

Nesse resgate, que chama de tempo das mudanças – ou metamorfose -, Nóvoa sugere que o debate sobre o conjunto de atributos que se deve ter seja substituído pela perspectiva das diversas posições que o professor deve combinar, distribuídas, segundo o pensador português, em quatro eixos principais: disposição pessoal (a busca por sólida formação científica e cultural), composição pedagógica (respeito às diversidades), interposição profissional (capacidade de desenvolver trabalho coletivo) e exposição pública (ser protagonista social e participar dos grandes debates contemporâneos).

Nóvoa criticou duramente a reforma do ensino médio e a possibilidade de contratação de docentes por notório saber. “É um dos ataques mais fortes à profissão docente essa ideia de que alguém pode ser professor sem ter uma formação para exercer essa profissão, reduzida à ideia do dar algumas aulas para uma matéria”. Ele fez ainda um alerta: é preciso ter cuidado para não nos tornarmos prisioneiros das empresas de tecnologias. ”O grande debate democrático hoje é sobre o acesso aberto a essas ferramentas, para que o conhecimento possa ser do bem comum. Não podemos permitir que isso tudo fique nas mãos de uns tantos e que esses tantos nos controlem, à disposição de seus interesses econômicos, privados ou ideológicos. O acesso ao digital é decisivo para a Educação e para a democracia”.

Ao final da conferência, que durou duas horas, sem reclamar da maratona, Nóvoa teve disposição para conversar com a revista GIZ, numa entrevista exclusiva que você confere a seguir.

O senhor falou na sua palestra em transformar a escola em um espaço mais apaixonante. Como fazer isso?

É preciso que as escolas sejam o lugar de uma grande cooperação, que os professores trabalhem uns com os outros, que se comuniquem uns com os outros e consigam interagir com a sociedade. É preciso trazer para dentro das escolas os grandes debates científicos, os grandes debates da cultura. É preciso que as escolas tenham esse coração e sejam grandes espaços de construção do futuro, de outra dimensão da nossa vida coletiva. As escolas são o melhor lugar para partilhar o comum, para trabalharmos em conjunto na produção de sociedades mais livres, iguais e democráticas. Para isso, é preciso ciência, cultura e conhecimento.

O senhor obteve uma expressiva votação nas eleições em Portugal. Dois pontos percentuais apenas o tiraram do segundo turno. Essa sua densidade eleitoral guardou relação com a defesa que o senhor faz do professor? A categoria dos professores tem por lá uma expressão em nível nacional, a ponto de colocar nesse patamar político e eleitoral um nome como o seu?

Durante o debate e a campanha que acompanharam a disputa política, o senhor conseguiu levar as pautas da Educação para o centro dessa disputa?

A Educação teve um papel na minha campanha, mas as disputas para presidente em Portugal são diferentes do Brasil, porque nós temos um regime parlamentar. O presidente tem mais um papel, digamos, de magistratura de influência, de equilíbrio dos poderes. Então é evidente que a Educação esteve presente, sobretudo numa dimensão: a minha candidatura foi lançada contra as políticas da austeridade. Tínhamos vivido políticas de austeridade muito fortes, que estavam a fazer o pior que poderia acontecer ao nosso país. Gerações estavam a qualificar-se na universidade e a ser bem formados na universidade e estavam a emigrar para fora do país, a procurar empregos na Alemanha e em outros países. Estávamos a desperdiçar, através de políticas erradas, o grande capital que tínhamos, que era o conhecimento dessa juventude. A minha candidatura fez-se em nome do dar condições para que essas pessoas e essas gerações mais qualificadas, com melhor preparação científica, pudessem ter o seu lugar em Portugal. Essa foi uma das centralidades do meu manifesto, da minha carta de compromisso com os portugueses, no momento do lançamento da minha candidatura presidencial.

Aproveitando a questão política, como o senhor analisa o momento que estamos vivendo aqui no Brasil?

Nós, e eu utilizaria o nós mesmo, estamos vendo essa situação com muita preocupação, com receio que possa haver alguma interrupção, alguma descontinuidade do processo democrático que no Brasil já vem há alguns anos. Havia uma certa normalidade democrática, com perspectivas ideológicas distintas, no tempo do Fernando Henrique Cardoso, no tempo do Lula, da Dilma, e tememos que essa descontinuidade possa ser qualquer coisa que afete as bases democráticas no Brasil. E nessas bases democráticas, na verdade, a Educação tem um papel central. O Brasil está numa fase em que ainda precisa expandir a sua escola, precisa ter uma escola de melhor qualidade para todos os seus alunos. E isso não está acontecendo. Os indicadores internacionais, como o Pisa, com todas as críticas que possamos fazer, revelam ainda muitas dificuldades e muitos milhões de estudantes que não estão a ter uma escolaridade mínima, básica. E sem isso, não há democracia, não há desenvolvimento. A Educação, por si só, não traz o desenvolvimento, mas ela é uma condição necessária para tal. E essa deveria ser, exatamente por isso, a primeira prioridade de qualquer governo, em qualquer país. Infelizmente, não está a ser o caso.

Ainda nessa perspectiva política, o que o senhor pensa de projetos como o Escola sem Partido?

Movimentos com princípios parecidos com o Escola sem Partido têm uma origem nos primeiros governos do Bush nos EUA e com a ideia de que era preciso retirar da escola e da Educação certos temas, certos debates, como sexualidade e drogas. Isso é uma impossibilidade. A escola precisa debater absolutamente tudo. A escola é um lugar, nós cremos, em que as crianças discutem todos os assuntos. E por que cremos? Porque na escola, a conversa pode ser informada, sustentada, mediada, pode se fazer um debate científico, a partir da razão. Porque se pode discutir esses assuntos sem as paixões de certas posições, certos comportamentos ideológicos mais radicais. Portanto, imaginar uma escola onde certos temas são proibidos, onde as pessoas não podem tomar suas posições é totalmente absurdo. A única esperança que eu tenho em projetos como esse é que eles estão condenados ao fracasso. Foi assim nos Estados Unidos. Eles até podem fazer mal momentâneo, provocar algumas dificuldades conjunturais, mas eles não têm nenhuma viabilidade. Nós queremos uma escola aberta, uma escola onde se discutam todos os pontos de vista. Felizmente, esses movimentos hoje não são fortes em parte nenhuma do mundo, não têm nenhum significado na Europa, na Ásia, em nenhum lugar. E eu espero que também não vinguem no Brasil.

Nos anos 1990, o senhor foi o organizador de uma belíssima coleção de livros que tratava da Educação, principalmente sobre o olhar do professor. Serviu de referência para toda uma geração que se recusava a ler e ver na imprensa desqualificações e aceitar aquele discurso passivamente. Queria que o senhor fizesse uma breve reflexão sobre o que mudou de lá para cá e saber se o senhor acha que pioraram ou melhoraram as condições de trabalho e a importância social dos professores.

Eu penso que a situação dos professores em muitos níveis melhorou. E houve avanços importantes do ponto de vista dessa percepção da existência de um professor mais autônomo, de um professor com uma capacidade profissional mais elevada. No entanto, houve um problema. Nós não conseguimos mudar a estrutura da escola, que continua numa estrutura muito tradicional, que torna difícil o exercício da autonomia e da cooperação e do trabalho entre os professores, que torna difícil a diferenciação pedagógica, isto é, que cada aluno tenha o seu próprio caminho e o seu próprio enquadramento pedagógico. Essa estrutura permaneceu bastante estática. Nós temos hoje que colocar o problema de como se organizam os ambientes escolares, para que o professor possa exercer essa sua autonomia, garantindo que o professor possa atuar de uma forma mais reflexiva e mais transformadora. Por outro lado, nos últimos dez anos, tem havido algumas tendências que vão no sentido contrário desse processo e que pregam alguma privatização da Educação, no sentido de regresso de práticas da Educação ao ambiente doméstico, o que de algum modo atinge a valorização e o reconhecimento do professor, por meio do recrutamento, para o exercício do ofício de professor, de pessoas que não têm nenhuma formação e que possuem apenas o notório saber em determinadas matérias, além de práticas também de entendimento errado do que são as tecnologias e do que é o digital, achando que poderiam vir a substituir o trabalho do professor. Eu penso que se não tivermos professores fortes, com independência, a trabalhar coletivamente no espaço da escola, a construírem práticas pedagógicas do futuro, nós arriscamos a que a escola e a Educação percam muito desse sentido transformador, do progresso, da perspectiva de igualdade, da democracia, que é o melhor que a escola pode oferecer e que os professores têm a dar para as sociedades.

O senhor falou que a tendência das escolas é o trabalho a partir de projetos. A questão é: os projetos matam as disciplinas?

Não. As disciplinas contêm uma história que é muito importante. No caso da Matemática, por exemplo, é o mais típico, ela cria um rigor, uma estrutura de pensamento que é absolutamente central. Mas o que é importante nos projetos é perceber que o que está em cima em cima da mesa, em jogo na Educação, não é a pessoa aprender Matemática. Já fiz mais de uma vez essa provocação. O objetivo de um professor de Matemática não é ensinar Matemática. É formar uma pessoa por meio da Matemática. Ora, para que a Matemática tenha esse papel de formação, ela precisa estar ligada aos grandes temas e aos grandes projetos atuais. O aluno não se mobiliza para aprender Matemática, mas ele mobiliza-se para resolver problemas, para estudar um problema que existe na sua cidade. A Matemática é um instrumento, não um fim. O grande problema das nossas grades curriculares acontece quando pensamos que o ensinar uma disciplina é o objetivo final de nossa atuação. Nesse sentido, as disciplinas têm o seus papeis, mas elas devem contribuir para trabalhar grandes projetos e temáticas.

O tempo nosso é profundamente marcado por perseguições, discursos de ódios, intolerâncias. Como é que o professor, sujeito político, pode manter a esperança, resistir e ajudar a combater essa avalanche conservadora?

Eu julgo que nós temos que partir da premissa que diz que ser professor significa ser necessariamente movido por uma perspectiva de esperança, de transformação. Não significa sermos cegos, mudos ou surdos. É uma esperança crítica, de lutas. É uma esperança de otimismo, no sentido do que dizia o Mia Couto, escritor moçambicano… ‘nós, em Moçambique, somos tão pobres, que não podemos nos dar ao luxo de sermos pessimistas’. Temos que acreditar, nos mobilizar nessa dimensão da resistência contra todas as formas de intolerância. É inaceitável o que estar a passar hoje nos Estados Unidos da América, um país que está a recusar as mais elementares regras da cultura científica. Se nós quiséssemos dizer o que é mais importante ensinar nas escolas, talvez pudéssemos usar essa expressão: paz com os outros. Nisso vai o diálogo, vão as linguagens, a capacidade de falar, de ouvir, de escrever, de compreender o outro nas suas diferenças. A paz com o outro é o que nos permite produzir o comum, no sentido em que falava a Hannah Arendt, o comum é o lugar onde nós expressamos as nossas diferenças. Não é o comum do igual. É o lugar onde, em comum, expressamos as nossas diferenças. Ao mesmo tempo, metaforicamente, devemos ensinar a paz com a Terra. É a ciência. Sermos capazes de perceber o que são os grandes conhecimentos científicos, que nos permitem viver em harmonia com o planeta. Um currículo de inteligência deve ser capaz de interligar os saberes, como sugere Edgar Morin. Isso implica professores comprometidos publicamente com o bem comum, com a cultura, com o conhecimento, com o desenvolvimento dos nossos países.  Educar uma criança, para mim é um ponto central, é educá-la para a humanidade toda.

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