O mundo digital e escola

Por J.S. Faro

Maria Sofia Aragão, diretora do Sinpro-SP, professora de Biologia formada pela USP é a coordenadora geral do Congresso do Sinpro-SP, que neste ano está em sua 6ª edição. Responsável pelo sucesso dos eventos anteriores Sofia, uma portuguesa que mora no Brasil desde os anos 60, vem pesquisando as perspectivas do ensino particular desde 2007 e foi esta experiência que despertou o desejo em contribuir para experiências que resultaram no Congresso de Pesquisa no Ensino. A primeira edição, realizada em 2011 teve como tema central Matemática. De lá para cá, suas edições abordaram sucessivamente os temas Ciências e Biologia (2013), Ensino na Educação Infantil e Fundamental (2014), Ciências Humanas (2015), Física e Química na Escola e no mundo acadêmico, desafio interdisciplinar (2016).

Desta vez, voltado para o tema Educação e Tecnologia: revisitando a sala de aula, o evento quer dar continuidade à proposta que está na origem dos congressos anteriores, um desdobramento de um desafio enfrentado por ela própria – a necessidade de aprofundar o conhecimento que os professores precisam sobre as tendências da Educação em todos os níveis mas com a ênfase posta nas consequências do processo de privatização que ganhou corpo desde a era FHC.

Essa experiência, que já acumula uma contribuição considerável deixada por especialistas e autoridades que prestigiaram todos os congressos, parece ter cumprido plenamente os objetivos delineados desde o início: a construção de um conjunto de reflexões que passam a integrar os processos de qualificação dos professores sobre os núcleos fundamentais da sua prática profissional.

Educação e Tecnologia: revistando a sala de aula

O tema do Congresso de Pesquisa do Ensino de 2017 é, de longe, o mais inquietante para todos os que vivenciam a Educação, mas no seu coração está o professor – cuja prática tem sido fortemente atingida pelas imposições generalizadas que as Tecnologias da Informação (TI) e as da Educação (TE) criam no seu dia-a-dia, obrigando-o a reformular conceitos de natureza didática com implicações na própria dimensão pedagógica das várias áreas do conhecimento.

Essa natureza complexa da tecnologia digital, no entanto, não tem sido compreendida em toda a sua amplitude pela escola privada dada a forma mercantil com que trata todos os seus processos, fato que leva uma instituição de ensino desavisada a encarar as Tis e as TEs mais como simbologia de marcas do que como instrumento emancipador do trabalho docente. O principal exemplo disso são os mecanismos de adoção dos cursos semi presenciais e dos cursos em EAD, invariavelmente concebidos como instrumentos de enxugamento financeiro mais do que como caminhos de excelência educacional.

Essas são algumas das razões que levaram à escolha do tema do 6º Congresso, mas não são as únicas. Sofia Aragão diz que a entrada das tecnologias digitais nas escolas não é apenas o surgimento de uma outra ferramenta; ela pressupõe – se adotada responsavelmente – uma mudança da própria estrutura pedagógica da escola. Nesse sentido,  o congresso vai oferecer à sociedade em geral, e aos professores em particular, a possibilidade de debater essa questão com uma programação focada em três eixos: o reflexivo, o das oficinas e o da apresentação de comunicações e proposição de interlúdios, isto é, um conjunto de propostas de iniciativa dos próprios participantes.

Tudo indica que o eixo reflexivo será o núcleo forte do congresso. Sua abertura será feita pelos professores e pesquisadores António Nóvoa, da Universidade de Lisboa, que vai abordar “o professor no futuro presente”, e Cesar Nunes, da UNICAMP, que discute “escola e sociedade: submissão ou apropriação consciente da tecnologia?). Ambos os nomes foram pensados pela comissão organizadora do congresso porque aliam reflexões de natureza conceitual e filosófica a projetos de implantação da tecnologia digital em diversas experiências educacionais.

Fazem parte ainda do eixo reflexivo as mesas redondas cujo temário abarca desde o contexto de transformação das escolas em decorrência do uso das Tis às ferramentas disponibilizadas para a comunidade escolar, passando pelas expectativas resultantes dessa nova realidade. Da mesma forma, o congresso abre espaço, ainda neste eixo, para a análise das competências sócio emocionais, da ética e das responsabilidades em relação à implantação do novo projeto pedagógico.

Ao final, pretende-se discutir a perspectiva inovadora e os caminhos que se abrem para o professor na educação com o uso das tecnologias com uma visão emancipadora, que é, para Sofia Aragão, o fim último da própria escola.

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