Da infraestrutura ao conhecimento

Elisa Marconi e Francisco Bicudo*

Os pais e mães dos mais de 42 milhões de estudantes de 4 a 17 anos que cursam o Ciclo Básico no Brasil têm, de fato, razões para se preocupar. Afinal, a boa formação é um direito de todos os cidadãos do país e é através da educação que se constrói um projeto de vida autônomo, produtivo e com viés crítico. No entanto, o que perturba mais intensamente a paz dos adultos parece não ser exatamente a qualidade do ensino, ou a proposta pedagógica da escola frequentada pela criança. São, antes, problemas bem “mundanos” e mais práticos que de fato emperram o desenvolvimento escolar do aluno.

Uma pesquisa realizada pela fundação Omidyar Network, bancada por Pierre Omidyar, criador da plataforma eBay, e divulgada há alguns dias pelo jornal Valor Econômico, revelou que o que tira mesmo o sono do pai e da mãe quando o assunto é a educação da prole são aspectos como o turno de 4 horas, o transporte público perigoso e a violência no entorno da escola. Ou seja, as respostas não apontavam para conteúdo programático, linha pedagógica, relação ensino e aprendizagem ou Base Nacional Curricular, por exemplo. O levantamento foi feito com pais e mães de alunos de escolas públicas e privadas de todo o território nacional. Os pesquisadores realizaram 20 visitas etnográficas, 120 entrevistas em profundidade e 580 entrevistas quantitativas, em cidades das cinco regiões geográficas brasileiras.

Diante dessas singularidades apuradas pelo levantamento, da demonstração das prioridades e escolhas dos responsáveis pelos estudantes, consultamos um especialista que pudesse refletir com profundidade sobre o que exatamente esses dados representam. Recorremos, assim, ao psicólogo e psicanalista Paulo Afonso Caruso Ronca, doutor em Psicologia Educacional pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que tem vasta experiência em traduzir posturas e comportamentos relacionados à vida escolar. Observando os resultados, Ronca afirma que, embora o número de entrevistados seja pequeno e, que não represente estatisticamente o universo de pais de estudantes do Ensino Fundamental e Médio, as inquietações que eles levantam não podem ser diminuídas ou desprezadas. A reportagem da Revista Giz conversou com Ronca poucos dias após a divulgação da pesquisa da fundação Omydar Network e as principais reflexões levantadas pelo psicólogo educacional você acompanha a seguir.


Entender a escola

É sempre importante começar lembrando que a escola é um todo, que não dá para separar os aspectos mais práticos, de estruturas, dos aspectos mais humanos – professores e funcionários –, dos aspectos pedagógicos. Tudo precisa estar em dia, com propósito e projeto, implantado para que a educação seja global e alcance os objetivos. Assim, não dá para dizer que um aspecto ou outro é mais ou menos importante. Tudo precisa funcionar e bem. A escola é um organismo dinâmico, por isso a questão é bem ampla.

 

A preocupação dos pais

A pesquisa revela algo que a gente já desconfiava: a inquietação dos pais está na esfera da vida prática. O turno curto dificulta a vida do pai e da mãe que trabalham fora e passam mais de 12 horas na rua. É preciso pedir ajuda para outros cuidadores para ficar com a criança no contraturno da escola. O transporte escolar inacessível, caro, perigoso e que passa longe das casas onera a chegada e a saída da escola. A violência das ruas e, com atenção, no entorno das escolas que ficam em comunidades não pacificadas assusta adultos e crianças. Mesmo que sejam questões muito distantes daquilo que é o projeto da educação escolar, como se pode dizer que são problemas secundários, menos importantes? Não são. São questões legítimas e que não podem ser ignoradas. Afinal, se a escola é uma dinâmica global, cada viés importa.

 

Pais com medo

Um dos principais aspectos que salta aos olhos nessa pesquisa é  que os pais se preocupam, têm medo, querem o bem estar e a segurança dos filhos. Natural. Mas imagine isso potencializado e compartilhado com os pais dos 42 milhões de estudantes da rede pública e privada. O clima geral será de medo, preocupação e insegurança. Para o adulto causa um sofrimento deixar o filho na escola com esses receios todos. E nem tente disfarçar, as crianças sabem quando os pais estão temerosos de se separar. Isso passa entre eles.

 

Pequeno público, grandes questões

O universo pesquisado – 20 visitas, 120 entrevistas profundas, 580 entrevistas quantitativas – não é significativo. É pequeno e, por isso, longe das estatísticas mais representativas do Brasil todo. Não estou dizendo que os números estão errados. Não estão. Mas o universo é pequeno. No entanto, esse grupo entrevistado levanta pontos importantes. Entre eles, o medo de deixar a criança sob a responsabilidade da escola. Não um medo relativo à educação, mas à segurança. Meu filho vai ficar bem? Alguém vai cuidar dele? Vão alimentá-lo? São questões que passam pelo afeto, mas que revelam antes de tudo que pai e mãe não abandonam os filhos à própria sorte na escola. Preocupam-se, atentam, estão juntos.

 

Conte-me suas preocupações e conto quem você é

Não há dúvida também que se preocupar mais com estrutura do que com a pedagogia revela o perfil o pai de aluno que conhecemos. Certamente, os pais não têm escolha. Optam pela melhor escola – pública ou privada – dentro das características da família e atentam aos pontos nevrálgicos. E é claro que essa característica reflete na proposição e implantação de políticas públicas. As autoridades certamente olharão mais para aquilo que tira o sono dos adultos.

 

Pouco

A lei determina que as escolas devem oferecer 800h de formação por ano. Daí vêm os 200 dias letivos e as 4 horas diárias de aula. Impossível pai e mãe acompanharem esse intervalo. Outros países têm de 6 a 9 horas de aula por dia. Enquanto aqui, das 4 previstas, menos de 3 horas são de aula efetiva.  Parece que, aqui, descontando a chamada, a indisciplina, os pedidos de silêncio, etc, o professor ministra no total 2 horas e trinta minutos. Por fim, na mesma linha, o tempo das aulas poderia ser mais curto para que se aproveite mais.

 

Re-turno

É comum no Brasil, por conta das poucas horas nas escolas, os alunos participarem de projetos de ONGs que suprem o contra-turno da escola. Quem estuda de manhã vai para a instituição à tarde e o contrário. Lá, além de aula de reforço, as crianças jogam, brincam, têm orientações, fazem esportes. Na situação emergencial que vivemos, é bem-vindo. No entanto, o trabalho das organizações é sempre paliativo, não resolve a origem do problema. Há quem critique. Eu penso que é uma parcela pequena dos alunos que encontra essas oportunidades. E, mais, para facilitar a organização das famílias, pode ser uma saída emergencial sim, apesar de ser um remendo.

 

Políticas públicas

Para que servem levantamentos como esse? Para incentivar questões e aprofundar as soluções. As escolas precisam receber bem os alunos menores de três anos. Precisam estimular a curiosidade daqueles entre 7 e 12 anos. As políticas públicas precisam se embasar nesses números e propor ideias e soluções. No entanto, não é que vem sendo feito sistematicamente. Vai-se consertando o que é possível, ou o que é mais urgente, e as demais lâmpadas e lustres chegarão depois.

 

Ideal

Não dá para pensar em resolver problemas em frentes diferentes, em tempos diferentes. O ideal seria que a gente ajustasse as questões da educação – estrutura, formação de pessoal, questões pedagógicas, etc – ao mesmo tempo, porque a escola é viva e dinâmica e as dimensões são interligadas. O risco é que, pelas características que a pesquisa expressa, as políticas públicas pesem mais para um lado ou para o outro. Por isso temos de ficar de olho, não piscar.

 

Base nacional

Se os pais estão mais atentos às questões estruturais, de fato não devem estar muito ligados em questões profundas do mundo pedagógico, como a Base Nacional Curricular que será implantada agora. Seria, sim, ideal que os pais participassem da discussão, da criação e da implementação, até para que não ficasse só entre os educadores. As famílias deveriam ser as maiores interessadas nessa educação múltipla e de qualidade. Mas não dá. É preciso zelar pela sobrevivência de crianças e adultos. O que nos leva a perguntar: será que a Base foi discutida o suficiente com quem de direito? Eu não sei responder, mas precisamos perguntar. Será que quantitativamente e qualitativamente a Base foi bem debatida? Não tenho essa impressão. E, por isso mesmo, na hora que vier, vai ser bem implantada?

 

Mensagem final

Afinal, o que dizem os pais? O discurso é de insatisfação. E grande. Com a educação e, principalmente, com a estrutura para fazer a educação acontecer. O esforço das famílias é grande e elas não veem o resultado. Como é que a gente vira esse jogo? A partir de um governo legítimo, eleito pelo povo – e que portanto seja legítimo representante da população – que tome para si a questão da qualidade da educação para todos, que implemente políticas públicas, que resolva a falta de estrutura, a formação insuficiente dos professores e a aplicação dos conteúdos e temas transversais. Tudo isto está muito difícil de acontecer. Devemos nos perguntar por que não há um nome sequer que desponte para ser um presidente da república e que fosse de algum consenso? Este país não educa os seus cidadãos!?

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