Antonio Candido, professor

Por Elizabeth Lorenzotti*

 

“Se me perguntassem o que sou essencialmente, eu diria, grifando, que sou professor. Ensinei sociologia, ensinei literatura, mas antes de ser professor disso ou daquilo, não sei se me faço entender, sou visceralmente professor. Tenho gosto e vocação para transmitir aos outros o que sei, e como costumava dizer Antônio de Almeida Júnior, o professor não é obrigado a criar saber, mas sim a transmiti-lo. Esta foi a tarefa que sempre me atribuí. (.) Repito: o que gosto mesmo é de dar aula. Se possível, sem ser interrompido”.

Antonio Cândido de Mello e Souza

(Rio de Janeiro, 24 de julho de 1918 – São Paulo, 12 de maio de 2017)

 

 

No dia em que o professor faleceu, um jornalista comentou, nas redes sociais, que não havia lido em nenhuma noticia a qualificação de Antonio Cândido como intelectual. Apenas sociólogo, critico literário, professor.

Apenas?

E o que seria um intelectual, no caso, nosso maior intelectual vivo até então? Para mim, é alguém que nos ajuda a pensar e joga luz nos nossos caminhos. Um bom professor tem esse papel.

Lembrei, então, de outro grande, o professor Milton Santos, a quem tive a felicidade de entrevistar em 1997 para a revista Sem Terra, do MST. Ele me disse entender que o compromisso do intelectual é com a verdade. “Com a verdade e com o futuro. Com a busca da verdade em movimento”. Não vejo melhor definição para o intelectual Antonio Cândido, aquele que sempre combateu o bom combate, um dos inesquecíveis professores do Brasil.

Escolhido para receber o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 2007, foi considerado “uma das inteligências mais completas e influentes da cultura brasileira contemporânea” e “autor de várias obras de análise, interpretação e avaliação crítica do principal acervo literário do Brasil e da herança europeia”.
Para além de sua grande obra, Candido sempre foi um homem simples e generoso, bem humorado e humano. Um mineiro nascido no Rio, ele mesmo se definia-criado em Cássia e em Poços de Caldas onde seu pai, o médico Aristides de Mello e Souza, foi o primeiro diretor das Termas Antonio Carlos.

Nasceu e cresceu em casas cheias de livros, o pai e a mãe tinham bibliotecas separadas, não só de medicina, mas de literatura, história, filosofia.

Ele contava que, em 1930, quando a família se mudou para Poços de Caldas, havia lá uma livraria excelente, com livros franceses e ingleses além dos nacionais”, e isso foi muito importante na sua formação. “Foi ela a única, em toda a minha vida, onde vi à venda o raríssimo Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, cuja tiragem foi mínima e quase não circulou”.

Também me disse que leu obras fundamentais, em grego e latim, na biblioteca da Prefeitura de Poços. Lá a família morou desde que ele tinha 11 anos de idade, e a casa existiu, na Rua Rio Grande do Sul, até 1989. ”Era minha pátria no Brasil a casa entre Rio e Minas” . A casa foi vendida muito barato e doada para a empregada Manuelina, que durante bom tempo a alugou e morava nos fundos. Hoje, não existe mais, fruto da avidez do mercado imobiliário e do pouco apreço à memória do ilustre morador.

Um dos seus mais belos e importantes textos chama-se O direito à literatura, em Vários Escritos (São Paulo, Duas Cidades, 1995). Ele a coloca entre os direitos fundamentais.

O professor fala, no texto, sobre o poder universal dos grandes clássicos, “que ultrapassam a barreira da estratificação social e de certo modo podem redimir as distâncias impostas pela desigualdade econômica, pois têm a capacidade de interessar a todos e devem ser levados ao maior número”.

Para Candido, a literatura “humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

E o que entende ele por humanização?”“ O processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante”.

Leituras

Eu perguntei uma vez ao professor o que recomendaria para despertar o gosto pela leitura em um adolescente de hoje, não muito interessado pelas letras. Ele respondeu:

“No meu tempo eu saberia indicar, hoje eles gostam de Harry Potter, que nem sei o que é, e tenho medo de parecer bobo”.

Mas não parecerá bobo jamais quem recomenda clássicos universais para os jovens. Na época da Segunda Guerra, Candido foi professor de um colégio alemão que se desnazificava. “Eu conquistei os alunos com As Minas do Rei Salomão, do inglês, Henry Rider Haggard, traduzido por Eça de Queiroz. (Livros Horizonte, Lisboa, 2000) Eles resistiam à leitura e adoraram. Tudo depende da forma como se apresenta o livro”, afirma.

Sim, e como lembra a ex-aluna, professora da USP Telê Ancona Lopez, Candido ensinava a importância fundamental do texto, valorizando a imaginação crítica, a cultura. “Quando se estuda a literatura brasileira, se vê ao mesmo tempo as correlações com as artes, a música. A literatura não se isola”. Esta é uma grande forma de despertar nas pessoas o prazer de ler.

Livros de aventuras despertam o prazer da leitura, dizia o professor que, quando moço adorava a coleção Terra, Mar e Ar, com Kipling, Mark Twain, as aventuras de Tarzan, de Tom Sawyer, A Volta ao mundo em 80 dias, e tantas outras.

Ele indicava todos os livros de Alexandre Dumas, de Os três mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, até Vinte anos depois.

E lembrava-se do método que o pai usava para aproximar os filhos da leitura: “Por exemplo: um belo dia, quando eu tinha mais ou menos nove anos, meu irmão do meio, sete, e o caçula, seis, ele nos deu os dois volumes alentados do Larousse universal, dizendo: “brinquem com isto”. E nós começamos a brincar, a ver as pranchas coloridas com mapas, uniformes, mamíferos, répteis, borboletas, peixes etc. Depois de passar um ano colorindo perucas de personagens históricos, pondo bigodes em imperadores romanos, cavanhaque em Luís XIV e coisas assim, tínhamos adquirido bastante familiaridade com muitos verbetes e aprendido um pouco de francês, reforçado pelas lições de minha mãe com o método Berlitz”.

Antonio Candido não era pessimista em relação à moderna cultura do audiovisual. Dizia que na nossa maior fonte cultural, a civilização grega, as obras eram feitas para serem ditas ou cantadas, o registro escrito vinha depois. Talvez a imagem e a oralidade possam imperar nesta terceira revolução industrial, afirmava, mas não conseguia imaginar.

Para quem atravessou o século escrevendo na máquina mecânica, o computador ficou distante,

Entretanto, dizia, uma coisa é certa: “Não é possível haver sociedade humana sem arte e sem literatura, pois o homem tem necessidade quotidiana, imperiosa e inadiável de satisfazer a fantasia, desde as formas mais modestas, como a anedota e os grafitos, até as mais altas, como o poema organizado e a estátua. Mas em nosso tempo de crise das normas, a mistura de tudo parece ter gerado a dissolução dos parâmetros, de modo que numa exposição de arte, por exemplo, ficamos sem saber se um trator em cima de um monte de jornais pode ser avaliado como se avalia um quadro de Picasso ou uma estátua de Moore”.

Humanismo

A função do professor, do intelectual, é jogar luz.

Principalmente em tempos tão trevosos como os que viemos, planetariamente.

Tempos nos quais o humanismo parece ser relegado a uma distante História.

E estamos todos, de certa forma, desesperançados.

Mas nunca o professor. E os que tiveram e têm e terão a sorte de ler suas palavras.

Como estas, que tenho afixadas num quadro na parede desde 2008, quando ele tinha 90 anos e recebeu o prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE), no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, na noite de 20 de agosto.

“(…) Portanto, os generosos confrades da União Brasileira de Escritores foram buscar um intelectual bem antigo, bem fora do tempo, para confortá-lo com esta distinção consagradora. Devo ser de fato tão antiquado, que venho sendo definido em algumas instâncias como “ilustrado”, devidamente entre aspas, e como alguém preso a uma visão de tipo teleológico da história e do pensamento. Devo esclarecer que, ao contrário do que se poderia pensar, considero esta restrição um elogio. Ela quer dizer que me mantenho fiel à tradição do humanismo ocidental definida a partir do século XVIII, segundo a qual o homem é um ser capaz de aperfeiçoamento, e que a sociedade pode e deve definir metas para melhorar as condições sociais e econômicas, tendo como horizonte a conquista do máximo possível de igualdade social e econômica e de harmonia nas relações. O tempo presente parece duvidar e mesmo negar essa possibilidade, e há em geral pouca fé nas utopias. Mas o que importa não é que os alvos ideais sejam ou não atingíveis concretamente na sua sonhada integridade. O essencial é que nos disponhamos a agir como se pudéssemos alcançá-los, porque isso pode impedir ou ao menos atenuar o afloramento do que há de pior em nós e em nossa sociedade. E é o que favorece a introdução, mesmo parcial, mesmo insatisfatória, de medidas humanizadoras em meio a recuos e malogros. Do contrário, poderíamos cair nas concepções negativistas, segundo as quais a existência é uma agitação aleatória em meio a trevas sem alvorada”.

Dez livros para conhecer o Brasil

Em artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30 de setembro de 2000, o professor fez uma lista de 10 livros — que se tornaram mais de 10 -, para conhecer nosso país.

Como introdução geral O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda.

História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas.

O clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco:

Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês.

A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart;

A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes,

Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre;

Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior;

A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim;

Do Império à República (1972), Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele.

Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal;

Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (1974);

A aculturação dos alemães no Brasil (1946), Emílio Willems;

Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni;

Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento.

“No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.”

Leituras ampliadas:


  • Elizabeth Lorenzotti é jornalista profissional, graduada e mestre pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Foi repórter, redatora e editora de publicações como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, sucursal paulista de O Globo, Editora Abril, Jornal da USP, além de veículos da imprensa alternativa e sindical. Foi professora no Curso de Pós-Graduação Lato-Sensu em Jornalismo Cultural na Universidade Metodista de São Paulo e no Programa de Pós-Graduação Lato-Sensu em Comunicação Jornalística da PUC-SP. Também foi professora de graduação em Jornalismo na PUC-SP. É autora de “Suplemento Literário: que falta ele faz”, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (2007), sobre o histórico caderno cultural criado por Antonio Candido e editado por Décio de Almeida Prado entre 1956 e 1974; e de “Tinhorão, o legendário” (Imprensa Oficial, 2010) biografia do polêmico jornalista José Ramos Tinhorão, que marcou época na imprensa carioca e paulista nas décadas de 1960 e 1970. Em 2011 lançou o livro de poemas “As dez mil coisas” pela Editora Biblos para a Amazon.com. No início de 2014 teve seu conto “Um é nenhum” publicado pelo Suplemento Literário de Minas Gerais. Em 2014 lançou o e-book Jornalismo Século XXI- O modelo #mídianinja.

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