Ações de liberdade

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo

Toda imposição escravizadora provoca uma ação de igual valor e intensidade, mas no sentido contrário, chamada resistência. Com as devidas adaptações, o que Sir Isaac Newton, autor dessa Lei, não previra é que, ainda que igualmente fortes, talvez nem sempre as resistências se apresentem da mesma forma. No Brasil, por exemplo, as mulheres escravizadas durante o Império encontraram maneiras bem peculiares para serem livres novamente. A historiadora Lucia Helena de Oliveira é especialista em estudos a respeito dos subterfúgios que as escravas encontravam para negociar a liberdade – e eram métodos, ela afirma, bastante diversos das revoltas, das fugas e do suicídio que eram por vezes escolhidos pelos escravos homens. “A primeira coisa que a gente precisa ter em mente é que a resistência nasce junto com a escravidão. A segunda fomenta a primeira. Os negros e negras jamais se resignaram à condição de objeto e buscavam de todas as maneiras a liberdade”, inicia. Ela segue explicando que, embora os escravos compartilhassem desse mesmo denominador comum, as condições, os lugares onde estavam e as famílias a quem serviam mudavam radicalmente os caminhos a percorrer para ter a alforria nas mãos.

As mulheres escravas que viviam nas cidades, por exemplo, descobriram que as relações domésticas, com a família e os amigos da família e a informação, a fofoca mesmo, poderiam ser boas aliadas. “Elas estavam dentro das casas, cuidando dos brancos e dos filhos dos brancos. Sabiam bem o que se passava ali e tinham notícias do que se dava na rua”, conta Lúcia Helena, que é professora de História da África da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Assis. “Espertas, trataram de usar essas pontes para ganhar vantagens e buscar a liberdade. Contavam as intimidades de uma família para outra, negociavam informações com famílias inimigas, chantageavam em busca de vantagens”, narra. As vantagens a que a professora se refere eram, por exemplo, fazer serviços extras para ganhar algum dinheiro, sair para vender quitutes e levantar mais recursos, servir de companhia a alguma idosa por trocados. “Qualquer dinheiro amealhado virava economia para comprar a carta de alforria”, explica.

Como dificilmente as mulheres partiam para a luta corporal, ou para a resistência por meio do embate físico contra seus opressores, e nem sempre podiam fugir, por estarem grávidas, ou terem filhos pequenos, ou até mesmo por relações muito fortes com a família, restavam mesmo outras estratégias. A historiadora e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Wlamyra Albuquerque, concorda que as mulheres tinham artimanhas particulares de resistência, por conta de suas condições de trabalho. “Elas predominaram também em certos tipos de comércio, como a venda de alimentos. Por isso podiam circular pela cidade com mais autonomia e construir redes de solidariedade mais amplas”. Essas redes de solidariedade são fundamentais para entender as escolhas que as mulheres faziam. Ganhar a confiança da família branca, fazer amigos, identificar conhecidos mais abertos à causa abolicionista eram métodos e percepções muito conscientes que as escravas usavam e que deram resultado. Para conseguir mínimos direitos sobre si – como trabalhar por conta própria – elas tinham de contar, em alguma medida, com a solidariedade dos senhores. Para ficarem com seus filhos nascidos livres ou seus pais já mais velhos depois de leis como a do Ventre Livre, ou dos Sexagenários, tinham de contar com a anuência dos patrões. “Nada disso era ao acaso, as mulheres eram inteligentes e usavam esses subterfúgios”, conta Lucia Helena.

O ápice desse plano era lançar mão da Justiça, com as chamadas ações de liberdade, para se conseguir a alforria. “Acontece que os negros não eram considerados seres humanos, por isso não podiam entrar na Justiça. Precisavam que alguém os representassem. E isso cabia a um homem branco, invariavelmente”, resgata a professora da Unesp. Como as mulheres conseguiam esses padrinhos? Ela responde prontamente: usando essa rede de solidariedade e o investimento em relações com senhores brancos e ativando a percepção apurada de quem se dobraria a esse trabalho ingrato. “Não resta dúvida de que eram caminhos planejados para buscar um objetivo”, completa. Lucia Helena pesquisou arquivos da Justiça de Campinas e região e encontrou diversas histórias semelhantes, com enredos e desfechos muito parecidos, de forma que não resta dúvida de que buscar a justiça era uma estratégia feminina contra a escravidão.

Wlamyra aponta que conseguir a liberdade propriamente dita, individual, nem foi o maior legado da resistência das mulheres escravizadas. A primeira peculiaridade levantada por ela em seus estudos é a noção do que era a resistência e a luta. “Para a maioria delas resistência não significava suportar o cativeiro e sim encontrar caminhos para ‘viver sobre si’, para serem livres. Por isso, a luta delas é uma herança da qual não podemos abrir mão”. E, outra característica bem feminina, ainda segundo a professora da UFBA, é que a luta das mulheres – com sua forma peculiar – foi fundamental para o fim da escravidão como um todo. “Elas contestaram a ordem quando desobedeciam, quando sabotavam, quando se organizavam, quando se empenhavam em alforriar a si e a seus filhos”. Abalaram as estruturas vigentes através de uma guerra de guerrilha inteligente, que confundia os senhores e fazia avançar a percepção de que cada ser humano é senhor de si e nunca propriedade do outro.

Fosse na Bahia ou no interior paulista, Lucia Helena completa que a escolha das mulheres antes e depois da escravidão sempre foi “a luta pela vida melhor possível”, por isso não abriam mão de estar com os filhos e com a família. Trocavam o front da batalha por uma guerra de nervos e buscavam sempre conquistar o melhor possível. Não é à toa, defende a professora da Unesp, que essa figura da mulher negra e pobre que sustenta – econômica e simbolicamente – seu clã segue muito viva até hoje. “Elas optavam por uma luta pela vida. Juntavam as economias, negociavam, se submetiam em nome de uma condição melhor para os filhos. E conseguiam. E conseguem até hoje”. Pela mesma razão, quando a escravidão termina, por decreto e sem cuidados com os ex-escravos, as mulheres conseguem se virar melhor, mantêm ou encontram novos empregos, subempregos, ocupações que dessem renda, enquanto os homens ficam desempregados e dependentes das mulheres.

Wlamyra defende que a postura e a luta das negras escravizadas “nos constituíram como sujeitos que sabem o valor de conquistas que levaram séculos para serem efetivadas. Conhecer a história delas é também uma forma de nos apropriarmos de nós mesmas. É uma forma de reafirmar que lutar por direitos e igualdade racial e de gênero sempre vale a pena”. E Lúcia Helena completa lembrando que a História não é feita apenas pelos vencedores, embora seja essa a versão que comumente aprendemos na escola. “A resistência e a negociação em condições não igualitárias são as maiores provas de que essas mulheres não abandonaram a condição de humanas, não se viam como peças, e a gente precisa contar essa versão”, provoca. “Se até a voz do escravo – vilipendiado no que há de mais sagrado no ser humano, sua condição de sujeito livre – foi ouvida, todos os clamores das minorias também podem ter vez, mas é preciso saber que desde lá de trás tinha gente brigando, empurrando, fazendo acontecer”.

Para as pesquisadoras, o que as negras escravizadas finalmente ensinam é que encontrar as brechas e bater ali até que a conquista aconteça pode ser uma estratégia vitoriosa para o indivíduo, capaz ainda de inspirar avanços coletivos. “Por isso é que perder direitos é um retrocesso ofensivo que ninguém pode permitir. Não é apenas temerário para o futuro e para os netos. É um desrespeito com a história e com essas mulheres que resistiram e ajudaram a mudar o sistema a partir das regras do próprio sistema”, ensina Lucia Helena.

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