28 de abril

“Foi um enorme sucesso. Desde o final da década de 1980 a gente não via uma greve geral com tanta força. Parece-me que os indícios disso, além evidentemente da contabilidade das pessoas envolvidas feita pelas próprias centrais, que chegaram a falar em 40 milhões de trabalhadores diretamente parados, passam também pelo fato de que muitas cidades, muitos centros urbanos importantes do país, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, enfim, ficaram parados durante o 28 de abril, o que mostra a enorme capilaridade e grande adesão dos trabalhadores ao movimento. Claro, com uma distribuição desigual, adesões em níveis diferentes, mas seguramente algumas categorias tiveram um protagonismo mais destacado, como rodoviários, bancários, portuários, metroviários, professores, categorias que de fato foram importantíssimas na organização e consolidação da greve. É preciso falar ainda no papel desempenhado pelo MTST, não apenas na convocação, na preparação, mas também na organização dos atos de bloqueios de estradas e avenidas. Uma das razões para entender o sucesso grandioso da greve é uma enorme insatisfação popular às reformas promovidas pelo governo Michel Temer, em especial a previdenciária. As pessoas já perceberam que vão ter que trabalhar muito mais. Isso tudo assusta, o que fez com que a capilaridade, ou seja, a adesão popular a essa greve tenha sido sem dúvida nenhuma muito significativa. Sobre os desdobramentos, tendo em vista essa vitória, a gente já vê as centrais sindicais falando numa nova greve geral, talvez em dois dias. Fala-se numa marcha para Brasília, no dia da votação da Previdência. Penso que os desdobramentos serão mesmo positivos e alvissareiros, se a gente considerar que, na verdade, esses ataques aos direitos dos trabalhadores vão continuar, vão se aprofundar. E apenas esse tipo de reação unitária, nacional, de uma forma bastante decidida e muito bem organizada é que pode fazer frente a esses ataques desferidos pelo governo golpista do Michel Temer”.

(Ruy Braga, sociólogo especializado em Sociologia do Trabalho e professor livre-docente da Universidade de São Paulo (USP), em depoimento exclusivo à revista GIZ).


Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo*

‘Mas a Globo, as rádios, os portais e os jornalões disseram que a greve foi um fracasso, movimento político localizado de alguns sindicatos ligados ao PT, que prejudicou quem queria trabalhar e terminou inclusive com atos de vandalismo’…

Em sã consciência, honestamente, esperávamos mesmo outro tom de cobertura, histórias plurais e dissonantes que pudessem ser contadas pelos meios de comunicação hegemônicos, a imprensa nacional?

Houve um tempo em que, mesmo que estruturados como empresas que visavam lucros, esses veículos ainda conseguiam expressar mínimos valores democráticos e a preocupação com o interesse público (até porque o Jornalismo nasceu como filho legítimo das revoluções burguesas, disposto a garantir o direito à informação e o embate de ideias).

Assumiram mais recentemente, por uma série de fatores e com uma ou outra exceção, apenas a confirmar a regra, a posição de lacaios ideológicos dos donos do poder, meros porta-vozes de uma agenda política conservadora e de projetos econômicos restritivos e que atacam direitos historicamente conquistados, a olhar invariavelmente para o andar de cima. Conjunturalmente, agem para massacrar e demonizar, seletivamente, atores políticos das esquerdas, os movimentos sociais e populares.

Mesmo a guerra de guerrilhas vivida nas redações arrefeceu, ficou perdida em algum lugar do passado. Por medo, por preguiça, por alinhamento ideológico ou em busca de ‘oportunidades futuras de ascensão na carreira’, é espécie em extinção o repórter que ousava questionar decisões editoriais da direção. ‘Não vamos usar greve geral nas nossas matérias, só quero imagens de quebradeiras’. Seja feita a vontade do patrão.

Quem deseja verdadeiramente compreender com profundidade e diversidade o que acontece no Brasil dos nossos dias busca suas leituras em veículos estrangeiros – The Intercept, El Pais, BBC Brasil… – ou nos bravos independentes que suam sangue para sobreviver – Ponte, Agência Pública, Ópera Mundi, Jornalistas Livres, para citar alguns exemplos.

A competição, no entanto, é estratosfericamente desigual. Enquanto a Globo tem potencial, sinal, alcance, recursos humanos e tecnologia para falar com praticamente 100% da população brasileira, ficamos cavando espaços preciosos (porém limitados) no universo digital e nas redes sociais. Não ter enfrentado a questão da democratização dos meios de comunicação foi um dos enormes pecados do lulismo. Hoje, com a tomada do poder pelos golpistas e o alinhamento estabelecido entre as forças que compõem o bloco conservador, e mesmo que a internet tenha amenizado a distância, tentar furar esse bloqueio do discurso jornalístico único e oferecer contra-hegemonia é ainda uma utopia.

Para Luís Costa Pinto, jornalista e colunista do portal ‘Poder 360’, a greve geral mostrou um vergonhoso momento da mídia tradicional brasileira. “Na 5ª feira, 27 de abril, como relatado aqui e em diversos outros espaços destinados a tentar flagrar uma crônica lógica do dia a dia político do Brasil, os veículos das Organizações Globo esconderam a greve convocada para a 6ª feira. Quando a greve eclodiu, com sucesso, na manhã do dia 28, os telejornais vespertinos pareciam surpresos e tentavam bancar o papel de guardiães do serviço público focando nos “transtornos” do movimento paredista à população e tratando a greve como “protestos de centrais sindicais”. Em momento algum houve foco naquilo em torno de que se protestava – as reformas trabalhista e da Previdência que tramitam no Congresso Nacional. Um mico.”

Até a ombudsman da Folha de São Paulo, Paula Cesarino Costa, depois de bater duro na cobertura enviesada feita da greve pelo jornal (nas palavras dela, valorizou na primeira página as cenas de confronto e não as faixas levadas à manifestação), terminou sua análise do domingo, 30 de abril, cravando: “na sexta-feira, o bom jornalismo aderiu à greve geral. Não compareceu para trabalhar”.

Para além das narrativas globais, das manchetes e fotos dos impressos e dos portais e dos truculentos comentaristas das emissoras de rádios, contrariando as expectativas do governo (em política, a soberba costuma ser fatal) e os desejos midiáticos (os mesmos veículos que condenam a pós-verdade são os que insistem em fomentar realidades paralelas), o fato é que a greve aconteceu. Parou o Brasil, se considerarmos aquilo que seria, para o capital, idealmente um dia produtivo e lucrativo. Mobilizou diretamente cerca de 35 milhões de trabalhadores em todo país, nas capitais e em cidades médias e até pequenas, interiores e áreas rurais incluídas, em todos os estados. Foi assunto de conversas em escolas, empresas, bares, vagões de metrô, rodas de amigos. Furou a bolha e alcançou muita gente para além das ‘badernas patrocinadas pelo PT e pelas esquerdas’. Impôs-se como ato de resistência e protesto, um gigantesco ‘não’ às reformas trabalhista e da previdência e à terceirização dos empregos.

Em artigo publicado no sábado, 30 de abril, o cientista político Claudio Couto (FGV/SP) avaliou que “a paralisação foi grande, principalmente no transporte público, que causa um efeito em cadeia, e na área da educação, que tem efeito na percepção das famílias”, com potencial, segundo ele, para influenciar as reformas em curso no Congresso. Na segunda, primeiro de maio, Celso Rocha de Barros, cientista político, destacou na Folha de São Paulo (notem como as análises feitas por especialistas convocados pelos jornalões destoam do discurso do material noticioso publicado pelos mesmos veículos) que “categorias importantes pararam e grandes cidades brasileiras tiveram reduções significativas de movimento. Isso tudo aconteceu sem cobertura da TV na véspera e com a cobertura da PM no dia”.

A estratégia de fazer do transporte público a espinha dorsal do movimento revelou-se inteligente e eficiente, até porque a adesão dessas categorias foi mesmo maciça. Em São Paulo, meu universo mais próximo, os ônibus não saíram das garagens, a paralisação de trens e metrô foi quase total (funcionaram a linha amarela, privada, e trechos de algumas outras, de forma lenta e precária).

Resultado: as ruas ficaram vazias. Desertas. O índice de congestionamento, orgulho da metrópole, cantado em verso e prosa nos boletins de trânsito das rádios, foi praticamente zero durante todo o dia, mesmo nos horários de pico. Muitas lojas permaneceram fechadas. Comerciantes reclamaram de faturamento pior do que o registrado em feriados.

‘Ah, mas não dá para saber quem aderiu espontaneamente e quem não conseguiu chegar aos locais de trabalho’. Não dá mesmo. Mas, ao apostar as fichas na não oferta de transporte público, o efeito esperado era exatamente esse. ‘Prejudicou, fez baderna, foi o caos’. Também era para ser assim mesmo, confuso, estranho, diferente. Greve é confronto. Enfrentamento. Resistência. Tensionamento. Luta. De classes. A intenção é mesmo empurrar a sociedade para um dia que escape da rotina, do padrão. Não se faz greve pedindo licença, tentando acomodar condições que possam ser benéficas para todo mundo. Detalhe: é ato legítimo e legal, garantido pela Constituição.

Motoristas de ônibus e metroviários seguraram o movimento no peito, durante as 24 horas. Deram mais uma extraordinária demonstração de solidariedade de classe. O caldo foi engrossado por bancários, metalúrgicos, professores, petroleiros, portuários, comerciários, motoboys, químicos, psicólogos, advogados, profissionais dos Correios, pessoal da saúde, funcionários públicos e tantas outras categorias, além de ‘profissionais avulsos’, incluindo, com louvor, minoria de jornalistas ainda conscientes de sua condição de trabalhador.

‘Os protestos e atos de rua foram pequenos, pouco expressivos, um fiasco’, reverberam os papagaios governistas de todas as tribos. Pois bem, não custa lembrar que greve é paralisação. O que se pretende é justamente que as pessoas não saiam de casa, que não estejam nas ruas, que não se desloquem para exercer suas atividades profissionais. O que eles dizem ter sido o fracasso do movimento dá exatamente a medida do sucesso da greve geral. Ainda assim, sem transporte público, estiveram no Largo da Batata 50 mil pessoas para expressar publicamente a revolta contra as reformas pré-revolução industrial patrocinadas por um governo golpista e ilegítimo. Não é pouca gente. Não foi só em São Paulo. Esparramou-se pelo Brasil.

Ruas vazias na Argentina são lidas como sintoma de que a greve geral deu certo; no Brasil, crava-se o não ter gente nas ruas como evidência de que o movimento não pegou. Vias bloqueadas, trânsito travado, pneus queimando na França? Protestos legítimos, os franceses são historicamente combativos. Vias bloqueadas, trânsito travado, pneus queimando no Brasil? Vandalismo, baderna, vai trabalhar, vagabundo! E o meu direito de ir e vir?

As redes sociais, termômetro relevante para aferir as temperaturas dos atuais embates políticos, também escancararam o sucesso do 28 de abril. Levantamento feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP-FGV) identificou que a hashtag ‘greve geral’ esteve entre os tópicos líderes no mundo no twitter (1,1 milhões de menções), com mais repercussão que os protestos a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2015 e 2016. “Os grevistas venceram a disputa narrativa e conseguiram colar o rótulo de perda de direitos nas reformas trabalhista e da Previdência. Trata-se do momento mais crítico para o governo de Michel Temer desde seu início”, avalia a DAPP-FGV.

 “Num fato inédito, viram-se as principais centrais sindicais se unirem no chamamento à paralisação – unidade que foi uma das chaves a explicar o sucesso do movimento. Tão importante quanto isso foi a mobilização espontânea de coletivos formados em áreas onde o sindicalismo não alcança. Inúmeros relatos dão conta de atos e manifestações organizadas diretamente a partir da base, com destaque para regiões no Norte e Nordeste do país”, destacou o Jornalistas Livres, em editorial.

Ainda como aspectos positivos e promissores, destaco a participação na greve geral de três atores específicos e que foram fundamentais para que o movimento pudesse triunfar (sem desmerecer nenhum dos outros): professores das escolas particulares, a Igreja Católica e os secundaristas.

Com respaldo e presença política efetiva do SINPRO-SP, que atuou como um dos protagonistas da mobilização, os primeiros (e as primeiras) bancaram, em São Paulo, a maior greve da categoria desde 1989, não raro enfrentando e resistindo às pressões dos donos de escolas, suportando até mesmo cartas bem pouco amistosas escritas por pais e mães de alunos e alunas. Têm potencial enorme para continuar atuando nos desdobramentos do movimento, como agentes políticos e pedagógicos fomentadores desse debate.

Já a Igreja, via Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, jogou um tanto de seu peso histórico e institucional na denúncia das reformas e das consequências nefastas que elas trarão para os mais pobres. Vários padres e bispos ajudaram a convocar os fiéis para a greve.

Também protagonistas, os estudantes estiveram aos borbotões nas ruas, escolas públicas e privadas (outra surpresa mais que agradável), confirmando que as recentes ocupações de escolas não foram fato isolado, pontual. Estão pedindo passagem. Têm massa crítica e consciência política das boas vindo por aí.

O que pode sair da greve? Entraremos fortemente no campo das especulações políticas. O presidente ilegítimo, apoiado (ou suportado momentaneamente) por espantosos e estrondosos 4% da população brasileira (ou 9%, a depender do instituto), já emitiu vários sinais de que pretende solenemente ignorar a resistência da população para continuar aprovando no Congresso, seu bunker de atuação, as desgraças de reformas (créditos para a guerreira deputada Luiza Erundina). Temer sabe que é peça descartável, mera engrenagem de um sistema, precisa entregar o que prometeu ao costurar apoio para transformar uma conspiração em golpe e chegar ao Planalto, o fantoche que lá foi colocado para ‘fazer o que precisa ser feito’ (na perspectiva do capital, dos rentistas). Se quiser cruzar a pinguela para o passado e chegar a 2018, precisa ser avassalador.

A armadilha, porém, é que ele vai precisar combinar com os russos – no caso, deputados e senadores. Farta distribuição de ministérios, cargos de segundo e terceiro escalões, verbas e emendas parlamentares ajudam bastante a convencer algumas consciências. São, no entanto, instrumentos limitados. E, cada vez mais, os parlamentares começam a mirar as eleições do próximo ano. Estarão dispostos a abraçar reformas comprovadamente impopulares, colocando em risco suas reeleições? Segundo o Datafolha, 71% da população é contra as mudanças que estão sendo impostas na Previdência; 64% dos brasileiros acham que os empresários são os que mais se beneficiam com a reforma trabalhista. Até mesmo enquete feita pela revista Veja (que expressa sem constrangimentos a ojeriza que tem pelo cheiro do povo) apurou acachapante apoio à greve geral (96% dos que responderam). Um tanto dos nossos nobres congressistas, não custa lembrar, depende exatamente da reeleição para continuar protegidos pelo foro privilegiado e escapar das primeiras instâncias na Lava Jato. Talvez resolvam abandonar o barco governista e adotem postura meramente oportunista, movida por instinto de sobrevivência. Pode ser um olhar inocente, reconheço. Mas não descarto essa variável.

Cabe reconhecer que, com o êxito da greve geral, as forças populares e todos os que se opõem às reformas avançaram algumas casas significativas no tabuleiro. Expressaram de forma contundente que não pretendem aceitar o desmanche social. O ‘nenhum direito a menos’ ajudou a unir atores até então dispersos e difusos. Deu norte e discurso. A sociedade entendeu que conquistas historicamente consagradas correm risco. Vai ter luta passa a não ser apenas palavra de ordem. Pela primeira vez em muitos anos, as centrais sindicais agiram em conjunto e de forma coordenada. São condições objetivas suficientes para barrar a desgraça? As próximas semanas poderão apontar resposta mais precisa.

Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, no discurso que fez no dia 28 no Largo da Batata, disse que, se o Congresso ignorar o povo e aprovar as reformas, o Brasil poderá viver um cenário de caos e convulsão social, com protestos ainda mais efetivos e frequentes, duríssimos conflitos de rua, com consequências imprevisíveis. Se não for bravata e se concretizar, a repressão do aparato jurídico-policial tende a se intensificar na mesma proporção, com o Estado não mais se preocupando em manter o verniz que resta de democracia. Talvez 2018 já não estivesse mais no horizonte. Há quem diga que é pura profecia do apocalipse. Não sei se é mesmo hipótese tão esdrúxula. Ou vai ver, olhando de outra forma, que a radicalização se imponha como condição necessária e etapa imprescindível para a reconstrução de novo projeto nacional e popular, a resgatar a democracia e consolidar os direitos humanos. Há controvérsias. Até aqui, como disse, transitamos pelo campo das especulações. É um bom exercício.

O fato concreto é que a greve geral fez movimentar as placas tectônicas. A luta política no Brasil foi colocada noutro patamar. Os campos de atuação estão mais claros. O controle da História não nos pertence – mas é possível afirmar que, depois do 28 de abril, o rumo da prosa será outro.


Leitura ampliada
3. O impacto da greve não é (foi) imediato, mas alinhou setores da população que estavam dispersos (http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/29/politica/1493419881_012317.html)

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