A greve – Jack London

Para ler ao som de Fermento para a massa, Criolo

“Era primeiro de maio e fazia um belo dia… A classe trabalhadora, com sua melhor roupa de domingo, havia saído a tomar ar e a observar os efeitos da greve. Era tudo tão incomum e, sem dúvida, tão pacífico que eu mesmo me sentia satisfeito naquele ambiente.”
Jack London

A narração inicia com um mau pressentimento. O personagem desperta mais cedo e tem sua rotina alterada pelo falta de pão e leite. O mordomo entrega o jornal, o último impresso para alertar sobre a greve geral, e avisa que o motorista não está trabalhando, pois é sindicalizado e aderiu a greve. O protagonista conduz o próprio veículo em busca das pequenas lojas familiares, que não empregam os trabalhadores, para adquirir provisões.

As ruas estão repletas de carros guiados pelos próprios donos à procura de mantimentos. É incrível que, apesar da corrida por gêneros e os boatos decorrentes do desconhecimento, ninguém perceba a gravidade daquele primeiro dia de greve. Considera-se ridículo o anúncio feito nos jornais pelas centrais sindicais.

A tão sonhada greve geral, idealizada por tantos sindicalistas, entre eles Eugene Victor Debs, realizava-se pacificamente ante a incauta classe burguesa, e ainda num primeiro de maio, dia consagrado à luta e à resistência do trabalhador em quase todos os países do mundo.

O personagem vai ao clube e percebe que os alertas se aprofundam. Os sócios se rebelam na confusão instaurada: faltam azeitonas nos aperitivos e o serviço é ineficiente. O general presente mostra sua impotência face à ausência de desordem: O que pode fazer se não ocorrem manifestações? Ainda assim, coloca as tropas em alerta em frente aos bancos e em todos os edifícios públicos.

Os sócios do clube tentam definir o movimento: sedição, revolução ou anarquia. Alguns tentam minimizar a situação afirmando que nunca se viu plebe tão respeitosa com a lei e que se trata de uma greve geral realizada na mais perfeita ordem.

Os diálogos dos sócios do clube, milionários, a maioria ligada às indústrias, é delicioso:

“…Vamos ensinar a essas bestas sujas o lugar que lhes corresponde! Espere que o governo tome pé da situação.”
“Mas onde está o governo?… Ele bem podia estar no fundo do mar, no que diz respeito a vocês. Não sabem o que está ocorrendo em Washington. Não sabem sequer se existe governo ou não.”

“Temos feito tudo pelo operariado. Longe de oprimir-lhes, temos dado a oportunidade de viver. Temos criado trabalho para ele. Como estaria agora se não fosse por nós?”

A falta de informação se transforma na grande arma da greve geral. O protagonista começa a se alarmar quando, além do pão, não chega o jornal. O que estará acontecendo? As comunicações estavam definitivamente interrompidas. Poucas notícias circulavam no clube e muitas inquietações. Será que as outras cidades também estariam reféns da greve geral, da indisponibilidade de alimentos e serviços e da desinformação.

“Os homens de negócios, os milionários e a classe profissional convocaram assembléias e apresentavam propostas, porém não havia maneira de fazê-las públicas. Nem sequer podiam imprimi-las…”

A reserva de alimentos era limitada. As filas começam a gerar conflitos e os operários organizados continuam guardando a mais perfeita ordem.

A violência começa quando a ordem e a lei desaparecem entre os mais pobres e as classes abastadas. Logo, começam a fugir da cidade em busca da segurança do campo. Mas o campo já está dominado pelo desespero…

O protagonista, com fome e sem empregados, resolve se aventurar na fuga junto aos sócios do clube. No trajeto, lê o panfleto de um operário:

“Temos mantido uma greve disciplinada e manteremos a ordem até o final. O final chegará quando se satisfaçam nossas reivindicações, e nossas reivindicações serão satisfeitas quando tenhamos rendido pela fome os nossos patrões, do mesmo modo que nos renderam a nós muitas vezes no passado.”

A importância da comunicação é ressaltada em outro panfleto:
“Quando acreditarmos que os patrões estejam dispostos a render-se, abriremos os telégrafos e poremos em comunicação as associações patronais do país. Porém unicamente se lhes permitirá enviar mensagens relativas às condições de paz.”

O desespero se instaura no campo. O cenário é de devastação: ricos e pobres lutam lado-a-lado por comida, cadáveres estão estendidos por todo o caminho, medo… Enquanto os operários, com abundância de víveres, permanecem tranqüilos em seus lares na cidade.

O protagonista debilitado, depois de muito sofrimento, retorna à cidade. Uma dona de casa o abriga e informa que a greve acabou à tarde com a aceitação das reivindicações sindicais e com a rendição das associações patronais em todo o país.

O conto finaliza com a reintegração de todos os filiados do sindicato aos empregos antigos, inclusive na casa do protagonista, e com a conclusão de que “a tirania das organizações operárias está se convertendo em algo humanamente insuportável”.

Jack London, neste brilhante conto, abordou uma greve sem piquetes, atos públicos ou enfrentamentos. Uma greve minuciosamente planejada pelos sindicatos e que deixou a classe dominante sem meios para alimentar uma resistência. Vivenciamos os horrores pelos olhos de um membro da classe dominante entregue às necessidades. Uma criação genial do grande escritor.

Na obra literária costura todos os argumentos para uma bem sucedida greve geral numa sociedade perfeita. Em momento algum aborda a tragédia operária ou os dilemas da classe social, mas, com uma narração contagiante, envolve o leitor em uma ampla reflexão sobre a humanidade.

Jack London (1876 a 1916) teve uma vida repleta de experiências: começou a trabalhar como jornaleiro aos 11 anos para contribuir com a renda familiar, largou os estudos cedo, sempre foi apaixonado por livros, trabalhou em fábricas nas piores condições, foi para o Alaska em busca de ouro, tornou-se marinheiro, entre tantas outras vivências. Sua vida atribulada inspirou sua literatura que tem as diferenças sociais e a luta pela sobrevivência como principal argumento.

A literatura foi a marca de sua militância. O autor compartilhou suas experiências e sempre escreveu sobre o que realmente sentia.
Em 1913, Jack London já era o escritor mais famoso e bem pago do mundo. Contudo, em 1916, deliberadamente encerrou sua brilhante vida literária com uma grande dose de morfina.

No mundo, jamais ocorreu uma greve como a descrita nesta obra literária. A greve geral sempre foi a grande ameaça aos sistemas capitalistas, pois atingiria as classes dominantes como descreveu Jack London. Na realidade, ela sempre permaneceu como munição ideológica.

As greves se desenrolam com conflitos, demissões e medo, além de serem noticiadas de acordo com os interesses mais diversos. Observamos os movimentos com os olhos angustiados dos trabalhadores e com os fundamentos do que analisamos nas histórias de lutas e conquistas.

O conto “A greve” de Jack London, publicado pela primeira vez no Brasil pela Editora Pão e Rosas em 2003.

Greve – A palavra em francês grève significa terreno de areia e cascalho à beira-mar ou à beira-rio. O vocábulo é originário do pré-latim grave – areia, cascalho.
Até 1806, designava a área da praça defronte do Palácio da Municipalidade de Paris (Place de Grève). Neste local, onde o rio Sena acumulava areia e cascalho, era o ponto de reunião de trabalhadores e operários sem emprego à procura de ocupação e de descontentes com as suas condições de trabalho à espera de novas propostas e possibilidades. Daí surgiu a expressão fazer greve no sentido de abstenção deliberada do trabalho e do derivado grevista indicando o sujeito que faz a greve.
Ressalte-se que a greve só deixou de ser um delito punido com severas penas de prisão, multa e até enforcamento no correr do Século XIX, quando alcançou a condição de um direito.

O título original do conto “A greve” de Jack London é “The dream of Debs”, em uma clara referência ao famoso sindicalista norte-americano Eugene Victor Debs citado no texto.

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