Esperando Lima Barreto

Elisa Marconi e Francisco Bicudo*

O primeiro contato com Lima Barreto costuma acontecer nas aulas de Literatura, no ensino médio. E, ao contrário do que se dá com outros escritores do início do século XX, as obras do carioca mulato costumam ser bem digeridas, compreendidas e apreciadas pelos estudantes. “A preocupação com a linguagem, a escolha de cada palavra e a consciência da carreira de escritor ajudam a facilitar o entendimento da obra de Lima Barreto”, arrisca Josélia Aguiar, jornalista que será uma das principais responsáveis pelo justo destaque e protagonismo que Lima Barreto vai exercer em 2017. Curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) do próximo ano e fã confessa de Barreto, ela ajudou a fazer campanha e a escolher o autor de O triste fim de Policarpo Quaresma como o homenageado da Festa. As razões que trazem finalmente o escritor para a cena principal das discussões literárias, no entanto, vão muito além do gosto do conselho curador e remetem, justamente, àquilo que os estudantes identificam nos livros do homenageado.

“Eu cheguei a Lima Barreto através dos estudos sobre a vida de Jorge Amado. Lima era referência para o Baiano, mais que José de Alencar, como se costuma ensinar. Jorge Amado inclusive o defendia nos jornais. Foi uma surpresa para mim”, conta a jornalista. Achando curiosa essa ligação entre os dois autores, Josélia começou a pesquisar as pontes que os uniam. Lima era, na visão de Jorge, um retratista crítico dos primeiros anos da República. Expunha como poucos as marcas da herança da escravidão, falando sobre ser negro ou mulato naquele tempo e ainda desvelava os vícios do Estado, dos burocratas. “Tudo isso faz de Lima Barreto um escritor moderno sem ser modernista, o liga aos autores dos anos 1930, e encanta Jorge Amado e também os jovens que começam a ler sua obra no ensino médio”, continua apontando a jornalista.

Essa característica de ser descoberto e bem acolhido nos bancos escolares faz de Lima uma figura sui generis. Por um lado, é visto pelos estudiosos como um autor menor, o primo pobre de Machado de Assis, por exemplo. Por outro, é encarado como alguém que cuidou tão bem da linguagem, do conteúdo e da forma, que se manteve atual mesmo depois de tanto tempo, tornando-se um clássico. Mas, afinal, por que ler, e por consequência homenagear, Lima Barreto?

O professor de Literatura Marcos Scheffel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), gosta de começar a defesa pelo ponto central: a produção literária de alta qualidade de carioca. “Há críticos que justificam a importância do escritor pela sua militância, pelo perfil ideológico de seus livros, pela crítica social muito certeira em relação aos debates da época. No entanto, eu acho mesmo que a obra de Lima Barreto é, em primeiro lugar, uma construção de alta qualidade literária. O texto, a linguagem, a escrita mesmo. É tudo de alto nível”. Josélia concorda e completa: “Ele tem uma biografia muito interessante, militou em áreas não exploradas antes e se posicionou claramente sobre alguns pontos. Mas não é esse o motivo primeiro para conhecer Lima Barreto. A literatura dele, que vem sendo resgatada aos poucos, foi a razão para a escolha de seu nome para a Flip 2017 e deve ser o convite à sua leitura”, afirma.

Escritor versátil, Barreto publicou crônicas, diários, textos para a imprensa, contos e romances. E, nessa última forma, talvez se encontre o ápice da sua produção. Scheffel explica que nos textos maiores é possível encontrar a tão levantada crítica ao Brasil recém-republicano, mas também um conteúdo construído para durar, com personagens profundos, linguagem coloquial e ironia fina. “É fácil pensarmos hoje num romance escrito em português brasileiro, mas, naquela época, não era. Ele foi um dos pioneiros. Além de ser coloquial, se preocupava com o vocabulário e a prosódia”, acrescenta Josélia. Daí por que mesmo os leitores com menos horas de voo conseguem captar as proposições de Lima Barreto. A linguagem não é uma barreira e é possível mergulhar na obra, sem defesas. Daí para passear pelas questões do nacionalismo, pela crítica aos bacharéis, pelas estocadas nas elites, pela sátira, é um pulo.

Outro ponto que salta aos olhos e não deixa sombras nas páginas barretianas é a herança da escravatura. “Enquanto em Machado de Assis esse tema pouco se apresenta, Lima Barreto discorre sobre ser mulato – e não negro, isso é importante – nos romances, nas crônicas e nos contos”, lembra o professor da UFRJ. Faz pouco tempo, completa a curadora da Flip 2017, que se começou a estudar com mais profundidade as marcas que a submissão à escravidão dos negros ainda provoca nas pessoas, nas famílias, nas gerações e na sociedade. “A herança pessoal que Lima Barreto sempre carregou, porque seu avô foi um negro escravizado. Ele trazia isso como ferida aberta e precisava falar do assunto. E falava”.

“O romance Clara dos Anjos foi planejado para tratar desse assunto doloroso para Lima Barreto. Ele sofreu muito com essa questão e o livro passa por isso”, propõe Scheffel. Aliás, essa é uma crítica que se faz à obra de Barreto, seus textos são perpassados pela subjetividade, as questões íntimas costuram as reflexões sobre a realidade e seu tempo. De acordo com essa visão, trazer pontos nevrálgicos para o registro pessoal empobreceria o olhar. No entanto, o professor da UFRJ discorda. O escritor era um mulato que teve educação de branco, estudou num colégio de brancos para ter cargos importantes. “E não alcançou isso, para seu desgosto e de seu pai, que era branco, por conta da questão racial. Ele carregava esse estranhamento no seu íntimo, era um desconforto que machucava, por isso não dava para fugir e para não criticar essa temática”, afirma.

O lugar do negro e do mestiço nos primeiros anos da República também se apresenta nas crônicas e nas escritas para a imprensa, como se pode verificar na coleção publicada na década de 1950. Prolífico, Lima Barreto colaborou com diversas publicações que circulavam pelo país. Na segunda metade do século XX, o intelectual Francisco de Assis Barbosa se deparou com a larga produção do escritor carioca, morto em 1922. Brasil escreveu, então, a biografia de Barreto e organizou e republicou toda a sua obra. Aliás, o que se imaginava ser toda a produção. Recentemente, o pesquisador brasileiro Felipe Botelho Correa trouxe novidades para a cena. PhD e professor de Literatura e Cultura Brasileira no King’s College de Londres, Correa encontrou “um grande número de textos de Lima Barreto que até agora eram completamente ignorados não só pelo público em geral, como também por todos os especialistas no autor. Essa parte da obra de Lima Barreto estava camuflada em meio a vários pseudônimos que assinaram textos em revistas populares ilustradas nas primeiras décadas do século XX, como ‘Fon-Fon’ e ‘Careta’. O livro Sátiras e outras subversões reúne esses 164 textos inéditos de Lima Barreto, além de mais de 500 notas explicativas e uma introdução crítica que mostra como a pesquisa foi feita e o significado dessa descoberta”, explica à revista Giz com exclusividade e por e-mail, diretamente da Inglaterra, onde reside.

Amarrando todas essas pontas, o que emerge é um projeto literário. Scheffel defende que nada na obra ou nas escolhas de Lima Barreto se deu pelo acaso. “Ele escrevia ficção e crônicas, romance e notas para jornais, com o intuito claro de construir uma trajetória, uma carreira literária”, sugere. Correa avança nesse aspecto. “Com a descoberta destes textos inéditos, contudo, fica claro que Lima Barreto tinha uma predileção por colaborar com revistas, e que essa escolha deliberada tem muito a ver com seu próprio projeto intelectual”, propõe. A ideia é que os livros e os jornais davam prestígio intelectual entre seus pares, mas tinham muito menos impacto popular no país do que as revistas populares ilustradas, onde ele mais publicou. “Nesse sentido, o formato revista era para ele o mais adequado para suas intervenções subversivas. As revistas populares, ainda que impusessem algumas limitações por seu caráter comercial, davam a ele não só o retorno financeiro e a liberdade subversiva da sátira, como também a possibilidade de falar com uma nação de leitores e tentar influenciar a vida cultural e intelectual do país”, completa o professor da Kings College.

Fica visível, assim, que a maior preocupação do escritor era ser coerente com sua ideologia, toda a sua obra se submete a essa coerência. Em nome desse projeto, “nem o autor nem sua obra, se dobram, compactuam. Ele é crítico e inflexível”, define Scheffel. E atual, como insiste Josélia. Correa também confirma: “Nesse sentido, Sátiras e outras subversões fornece aos leitores um material completamente inédito que servirá como referência para novos caminhos de leitura e pesquisa, ao mesmo tempo em que renova o interesse por uma obra que continua a ser incansavelmente relevante nos dias de hoje”.

O que falta então para que Lima Barreto seja mais conhecido pelo grande público? Sua obra está nas escolas, cai nos vestibulares, é bem estudada na academia, está organizada e publicada. Scheffel acredita que é preciso atualizar a publicação das obras. “Muitas edições são escolares e antigas, remetem aos anos 1980. A obra de Lima Barreto está em domínio público, as editores podem se debruçar sobre ela e distribuir mais a produção ferina e atual do autor”. Josélia já está trabalhando nisso. “Vamos começar pelo Rio de Janeiro, que era a cara e a casa de Lima Barreto. A ideia é preparar seminários que introduzam e esquentem a temática que vai culminar na Flip, no fim de julho”. A curadora adiantou que a temática da negritude e as heranças culturais certamente aparecerão nos debates de Paraty. A crítica à República de araque e aos bacharéis e a relação com os tempos atuais também farão barulho pelas vielas de pedra e os casarões coloniais. “Temos como objetivo difundir o nome, a obra e o pensamento de Lima Barreto. Pena que não posso contar mais”, brinca, ao mesmo tempo em que convida para a abertura do “tempo Lima Barreto”.

Leitura ampliada:

  • “A vida de Lima Barreto” – Francisco de Assis Barbosa
  • “Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura” – Luciana Hidalgo
  • “Os pobres na literatura brasileira” – Roberto Schwarz
  • “Literatura como missão” – Nicolau Sevcenko
  • A luta de Lima Barreto contra o racismo “científico”– Outras Palavras

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