O jovem brasileiro e o futuro do país: esperanças e desesperanças

Ilton Teitelbaum (*)

Após a realização de mais uma edição do Projeto 18/34 – um mosaico do jovem brasileiro, que concluímos no primeiro semestre deste ano pelo
Núcleo de Pesquisa do Espaço Experiência da Faculdade de Comunicação
da PUCRS, uma tríade se apresentou. Politizados, engajados e
desiludidos: estes três adjetivos servem para resumir o presente da
juventude brasileira quando pensamos em sua relação com o futuro do
país.

Vibramos com uma notícia: a política adquiriu importância para nossa
juventude, mas isso ocorreu especialmente por conta da turbulência que
enfrentamos desde 2013. Já o engajamento tem dois lados: a grande
maioria se sente inserida no contexto, mas desconfia do comportamento
alheio, pensa que os outros são “engajados de sofá”, ou seja,
ativistas via internet. E a desilusão? Pois esta é a que traz um dado
mais eloquente: quase 40% dos 1700 jovens consultados no Brasil
inteiro pensam em ir embora do país nos próximos 10 anos.

Por que isso ocorre? É certo que os jovens estão passando por sua
primeira grande crise e, seja qual for nossa idade, todos
experimentamos momentos difíceis nos últimos anos. Mas também é fato
que nosso complexo de vira-latas é endêmico. O Brasil nunca conseguiu
se livrar disso desde que Nelson Rodrigues criou o termo, em 1950,
depois da derrota para o Uruguai no Maracanã. E, mantendo o contexto
futebolístico como pano de fundo, ainda houve o sete-a-um de 2014.

Assim, nota-se nos mais jovens que há pouco orgulho em ser brasileiro
– muito em função dessas questões políticas e econômicas, dessa
instabilidade que sempre nos persegue. Chego a pensar que não estavam
preparados e não perceberam que a montanha russa é normal em nossos
cotidianos. Viveram a subida como se assim fosse a vida. Mas a vida
por esses lados tem um circuito bem mais complicado, com descidas,
curvas e até loopings.

Deste modo, é forçoso dizer que o problema não é geracional, o
problema é o país. E este somos todos nós. Uma geração é um grupo de
pessoas que sofre a influência de um ambiente. E eles estão sofrendo,
nesse momento, o impacto do lugar em que vivemos. Talvez, por isso, a
reação dos jovens, em um mundo globalizado, de fronteiras menores,
seja dizer que não querem mais morar aqui.

O problema é somente nosso? Não, é um problema de países como o nosso.
Basta ver que existem 30 milhões de mexicanos morando nos Estados
Unidos, um Uruguai e meio morando bem longe de Montevidéu e uma
Argentina que nunca sai da crise porque os argentinos não mantêm seu
dinheiro dentro do país. O problema, portanto, é de países que nunca
conseguem dar certo. E o que estamos vendo é um instantâneo dessa
geração dizendo que “Agora o mundo está menor, eu estou vendo o
problema pelas redes sociais e quero ir para o mundo que dá certo”.

Insisto: vivemos sob o efeito do ambiente, e as reações também são
típicas de quem acabou sendo criado como se tudo fosse dar certo.
Estamos pagando o preço. Não fizemos a transição do Bolsa Família para
o Bolsa Empreendedor, não investimos em estrutura, não preparamos o
Brasil para crescer e, mais do que isso, descobrimos, como diria
George Orwell, em “A revolução dos bichos”, que ao fim e ao cabo, os
porcos, que pareciam liderar a redenção da fazenda, foram caminhar em
dois pés e tomar whisky com os humanos, que sempre foram os opressores
– ou seja, todos acabaram ficando muito parecidos.

O que sobra disso tudo é uma geração com contradições, marcada por
esperanças e desesperanças. De um lado, dizem que têm planos, que vão
arriscar e lutar por eles até o fim, que acreditam no
empreendedorismo. Em contrapartida, existe o desencanto de querer ir
embora. Da mesma forma, ainda que digam que vão lutar, há quase 50% de
jovens que ainda estão esperando que as coisas se resolvam, mas
esperam que as soluções venham mesmo é do governo.

Para onde vamos, então? Nossa juventude acredita que um esforço
coletivo é o que levará o Brasil para frente, mas ninguém parece mais
confiar em ninguém.

Está desenhado: temos uma crise de confiança. Precisaríamos ter um
governo que apresentasse um plano, precisaríamos de um empresariado
que parasse de achar que tudo que não é ele que faz está errado e de
uma população que não ficasse esperando pela salvação vinda dos céus.
O grande ponto seria começar a entender o mundo sob os olhos dos
outros, tendo um pouco mais de empatia. Fala-se, fala-se, mas o que
vemos é sempre que o outro não presta e que eu sou o que faço certo. E
vemos os jovens reproduzindo este padrão.

O fato é que ou começamos a trabalhar no sentido de ser efetivamente
uma nação, ou nosso futuro será muito igual ao passado – recente ou
mais remoto. Do jeito que vai, repetiremos a história, porque o Brasil
não consegue se planejar como um país e não consegue se fazer nação.
Estamos sempre divididos. Temos uma elite que acha que o povo não sabe
votar e um povo que desconfia da elite. Uma esquerda que não gosta da
direita e uma direita que fala mal da esquerda. Gostamos de falar em
união, mas temos demonstrado que somos um país que, na hora de se
unir, sempre se fragmenta.

Eu não tenho a solução. Mas um futuro passa por conseguir congregar as
pessoas e isso depende de acreditar no país, no governo e nas
instituições. Seja com Estado mínimo ou Estado máximo, o brasileiro
precisa acreditar no país. Confesso, sinceramente, que não sei se tem
solução. Já fui muito mais otimista em relação a isso, já empunhei
bandeiras nessa vida, mas cansei um pouco. O mais triste não sou eu,
que me aproximo dos 50. Estou olhando pelos olhos dos outros e vejo
muita gente “baixando a guarda”. Então, mudando de esporte, desse
jeito vamos acabar nocauteados.

Em suma, mesmo que a expressão seja lá meio batida, cabe ser usada
aqui: uma agenda mais positiva talvez fosse algo necessário. Porque,
para que o Brasil dê certo, mais que vontade, precisamos de motivos
para ter esperança.

(*) Professor adjunto da Faculdade de Comunicação Social da PUC-RS, FAMECOS e coordenador do Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência.

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