Guinada conservadora e refundação das esquerdas

Por Francisco Bicudo*

Poucos minutos depois das oito da noite do domingo, 02 de outubro, os repórteres já noticiavam, direto do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, que a apuração dos votos caminhava para uma inesperada vitória em primeiro turno de João Dória Jr., candidato do PSDB, na eleição para a prefeitura de São Paulo. Por volta de dez da noite, Dória já discursava como vitorioso. Além de feito inédito na capital paulista, que sempre registrou segundo turno nas disputas para prefeito, a surpreendente conquista do tucano foi também imediatamente lida como mais um sinal evidente de que a guinada conservadora que o país vem experimentando não desembarcou por aqui ao acaso, só de passagem. O cientista político Aldo Fornazieri defende exatamente essa hipótese: que Dória não é um fenômeno isolado e a eleição dele, sustentada inclusive pelas franjas e periferias da cidade, historicamente ligadas ao PT, está associada a outras manifestações ideológicas vividas mais recentemente no Brasil. Para o pesquisador, são vários os eventos interconectados que chamam a atenção e preocupam, justamente por indicarem, além do crescimento do pensamento e das forças alinhadas à direita, certa fadiga e desencanto do eleitorado com a política. A reportagem da Giz conversou com Fornazieri, que é professor da Escola de Sociologia e Política, logo depois da eleição, ainda no calor do embate municipal.


Professor, o primeiro turno foi realizado há poucos dias. É verdade que algumas grandes cidades ainda passarão pelo segundo turno, mas já é possível vislumbrar o Brasil que sai das urnas? E de que país estamos falando?

É um país conservador. Um país que não levou as esquerdas para o segundo turno, que não tem vergonha de professar um discurso apolítico, ou cansado da política. São Paulo foi o caso mais emblemático. Elegeu no primeiro turno, sem muita paciência portanto, um prefeito da ala conservadora e que defende abertamente que não é político e que a política, como está, não presta. Em São Paulo também o índice de abstenção foi de cerca de 38%. Se somarmos isso ao número de eleitores que optaram por votos em branco ou nulo, o montante é maior do que o total alcançado pelo candidato vitorioso. O nível de debate político foi muito pequeno este ano. Primeiro, porque as discussões ficaram encobertas pela Olimpíada do Rio de Janeiro, um evento grandioso mesmo, que roubou as atenções. Depois, pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, que foi o grande assunto dos últimos meses no país. Não dava para debater propostas de cidade num cenário assim.

A falta de interesse dos eleitores é anterior ao período eleitoral?

Sim, com certeza. A gente precisa começar lembrando que a democracia brasileira é muito precária. Isso significa, principalmente, que o cidadão, o eleitor, se envolve muito pouco, não participa, não se conscientiza, vota sem atenção. Vejo claramente que hoje vários eleitores do João Dória começaram a conhecer só agora as propostas dele e, junto com esse entendimento, começam a se arrepender. Além disso, é alto o número de eleitores que votam branco, nulo, ou simplesmente não votam. Entre os que votam, o índice dos que o fazem de maneira displicente também chama atenção. O resultado é que temos casas parlamentares sem representatividade, que não refletem a população, seus anseios, suas necessidades. Legislam para si, de acordo com seus interesses, e não sofrem nenhuma pressão do povo. Diante disso, a população se frustra, se cansa, desiste.

O processo de impeachment pode ser considerado sinal de participação política mais efetiva da população? Ou seria exatamente o oposto, a revelar descaso com as regras democráticas?

A democracia brasileira tem pouco mais de 25 anos e, nesse período, já promoveu dois impeachments de presidentes. Ao contrário do que possa parecer, retirar presidentes não é prova de maturidade democrática. São dois grandes retrocessos e são provas do desrespeito que se permite por aqui com a vontade popular, com a soberania do povo, o princípio primeiro da Democracia. Nosso processo de impeachment previsto pela Constituição é inspirado na legislação norte-americana de 1787. Daquele tempo até hoje, os norte-americanos instalaram o processo três vezes. Dois casos foram arquivados e um terminou em renúncia. Portanto, não é normal e nem corriqueiro tirar presidentes. É preciso respeitar a soberania popular e é o que os Estados Unidos fazem, independentemente de qualquer outra análise. A população percebe que aqui seu voto, sua vontade, vale pouco e isso reforça o descaso com a eleição.

Mas essa característica sozinha não explica a guinada conservadora.

Não explica, mas fortalece. Os candidatos que se aproveitam da frustração do eleitorado, refundam o discurso apolítico, da gestão, da desimportância da política e dos partidos. Impacientes e frustrados, os eleitores caem nessa falácia. Ser político é diferente de ser gestor. Em todas as partes do mundo, administradores de empresas privadas se aventuraram na política não se saíram bem no cenário público. As razões e os processos são diferentes, não dá para replicar o modelo de um no outro. Políticos executivos são sinônimo de fracasso.

Quais outros fatores ajudam a compreender essa participação política pequena da população?

Se estamos assim, a culpa é dos políticos. Eles não andam bem, não se comportam bem. Não fazem as reformas necessárias, não atendem as demandas da população. Não servem o povo, que deveria ser a função dos políticos. Isso provoca desencanto e descontentamento com o processo político e com a própria democracia. Em segundo lugar, a população paga muito imposto e só enxerga corrupção. Uma pesquisa que fizemos aponta que 92% da população acredita que todos os políticos são corruptos. Todos. O golpe reforçou as duas percepções: que político é corrupto e que a eleição não vale o esforço. Nossa história política prova que o engajamento da população é sempre pequeno e que as grandes mudanças, ou as mais significativas, se dão por acordos das elites, pactos costurados nas altas esferas, sem a participação popular, sem nem ouvir a população. As transições no Brasil são negociadas. Isso favorece a degradação do processo político, o cidadão não conhece e não controla os políticos que, em tese, o representa. Hobbes [Thomas Hobbes, filósofo e cientista político inglês] já dizia que o ser humano é ruim, não é anjo, e justamente por isso precisa de controle e de governos que o contenha. Se fôssemos bons, não precisaríamos de governo, de contenção.

E quem ganha com o discurso da aversão à política?

Os políticos, porque manejam a opinião pública e mantêm o povo afastado. Mas são os políticos ruins, que não legislam em nome do bem público. Em geral, estão na ala mais conservadora da política, que foi quem saiu vitorioso nessa última eleição. O PT e os demais partidos de esquerda não se saíram bem e, no segundo turno, tudo indica que serão novamente derrotados.

Essa é uma análise importante, professor. Pelos dados que temos até agora, a esquerda e, especialmente o PT, foram os maiores perdedores nessa eleição. É como se o projeto do PT, que comandou o governo federal nos últimos 12 anos, estivesse sendo varrido, com apoio da população. É isso? Não sobrará nada daquele projeto?

A maneira como o PT conduziu seus governos não foi suficiente para colocar a população no papel principal da política. O foco era melhorar de vida pelo consumo, inclusão social via consumo, e não via cidadania, participação política. O que notamos hoje é que essa escolha não funcionou, é uma inclusão falsa. Além disso, o governo petista cooptou os movimentos sociais e os sindicatos, que tiveram a ilusão de que promoveriam mudanças a partir do centro do governo. Isso é inviável. Mudanças verdadeiras e duradouras nascem, obrigatoriamente, da sociedade, das ruas e das praças, nunca de dentro dos governos, porque são transitórios e defenestrados quando finalizados. Não perceber isso foi a morte do projeto do PT.

E então para onde vai a esquerda do Brasil?

Minha análise é que as esquerdas vivem um momento crítico, uma crise histórica e mundial. Agora, essa crise chega ao Brasil. E o problema é que quando a esquerda está esmagada, o mundo fica mais bruto, menos humano, já que esse é um dos grandes papeis da esquerda: humanizar, civilizar. Olhando para a esquerda brasileira, não vejo alternativa, porque ela é velha, não se renovou, não representa ninguém, está desconectada da vida real e das pessoas. A começar pelo discurso, que é velho, remete ao século 19 e 20. É uma esquerda analógica num mundo absolutamente digital e conectado. É uma esquerda que só fala para militantes e convertidos, não chega aos novos, nem conhece os novos, não atende às demandas dos jovens e se nega a ter uma postura socioambiental mais dura, que garantiria nossa sobrevivência como espécie. Não conseguem encantar os descontentes, porque a visão de mundo ideal que oferecem não se afina em nada com os desejos da população como um todo.

O que um mundo sem uma esquerda forte e ativa pode esperar?

É importante que as pessoas, que os professores, percebam que o tempo que a gente vive é muito sério. Tendemos para um mundo desigual, ainda mais desigual. Os próprios bancos avaliam isso. A esquerda deve trabalhar para equilibrar isso, mas não tem conseguido. Tendemos para um desarranjo global.

Já vivemos algo parecido antes, no mundo, professor?

Com tantos riscos para o que chamamos de civilização, não. O tempo que vivemos é perigoso, verdadeiramente perigoso. Podemos comparar ao período anterior à Segunda Guerra Mundial, mas, até aquele momento, as guerras serviam para resolver conflitos, resolver diferenças. Mas hoje não temos clareza de qual é o nosso conflito, então recolheremos, no fim do processo, um mundo caótico. O futuro próximo é trágico, caminhamos para um mundo sem empregos, de homens e mulheres mais velhas, e sob forte desigualdade. Sem perspectiva de humanidade e de civilização. Um gigantesco retrocesso.

Dramaticamente, os atores políticos atuais não conseguem refundar o pacto social para evitar uma tragédia maior?

Não têm forças para isso, porque não representam grupos. Não têm legitimidade na população. Como se funda um pacto social? Com o Estado, os empresários e os trabalhadores. Acontece que os trabalhadores não se reconhecem como tais, não estão mobilizados, não têm representantes. E sem os trabalhadores não há pacto. Agrava-se a crise e a desigualdade.

O senhor avalia que teremos tempos cinzentos pela frente?

Nesse momento, a gente precisa olhar para o que há de trágico no mundo, para o que de pior pode acontecer. As pessoas precisam se dar conta da gravidade do momento. O papel dos professores e dos que pensam no futuro é esse: estamos diante de um momento delicado, grave. Não dá para se basear em falsas promessas.

Qual seria o papel específico da esquerda nesse cenário? Será que o PT deixa um legado que, ao menos, serve de alicerce para a esquerda propor o futuro?

O legado do PT foi muito frágil. Claro que sempre fica alguma coisa, mas as mudanças não foram estruturais, foram conjunturais, enquanto o governo bancou. Saindo o governo não restou uma base sólida para iniciar a atuação da esquerda. O papel da esquerda agora é refletir profundamente e a sério e, a partir daí, propor novos caminhos. Em termos mais práticos: fazer uma pausa e propor uma nova sociedade e o que precisa ser feito para se chegar a ela. Minha sugestão é que a esquerda comece a olhar mais para a sociedade e menos para o Estado. A solução sempre vem da sociedade e nunca do Estado, que – no geral – existe para atender às elites. O perigo é que população desista, saia do desespero e entre na apatia. O desespero ainda promove alguma ação. A apatia não, entrega-se tudo.

A Frente Ampla das esquerdas, no Uruguai, é um exemplo?

É sim. O Uruguai superou a síndrome de Caim, em que irmão trucida irmão, e entendeu que só avançaria com uma aliança das esquerdas. E estão conseguindo há alguns anos um governo mais humano, mais voltado para a população que para o Estado, ou para as empresas. É um caminho que está funcionando. Mas acho que a esquerda deve ir ainda mais além. Ela deve ser a liderança num movimento positivo de revisão e refundação de uma visão de mundo. É preciso reiniciar e refundar a sociedade que se quer.

 

Tags: ,

Jornalista diplomado e professor da Universidade Anhembi Morumbi. Autor dos livros “Caros Amigos e o resgate da imprensa alternativa no Brasil” (Annablume, 2004) e “Saúde – Exercício da Vida” (Salesiana, 2009).

Não há comentários ainda

Deixe uma resposta