A longa marcha

Francisco Bicudo e Elisa Marconi

Walter Neves é um dos nomes mais respeitados no Brasil quando o assunto é evolução da espécie humana. Biólogo de formação, doutor em arqueologia e professor de genética e biologia evolutiva da Universidade de São Paulo (USP), é também reconhecido por seu trabalho de fôlego na divulgação científica para o grande público. No entanto, apesar do currículo recheado e da reputação conquistada em mais de 40 anos de atuação acadêmica, o próprio Neves reconhece que faltava um item no currículo: um livro seminal sobre… evolução! Uma obra simples, mas de referência, para consulta e apoio a professores e pesquisadores. “Tenho três livros de divulgação publicados. Dois com bastante destaque, O povo de Luzia e Um esqueleto incomoda muita gente. Mas estava devendo esse sobre a nossa trajetória mais específica”, confessa. Como o tempo que separa o professor da aposentadoria não é exatamente longo, Neves achou por bem pagar essa dívida. “Para poder me aposentar com a consciência tranquila”, brinca. Assim, ao lado dos pesquisadores Miguel Rangel e Rui Murrieta, organizou o mais que aguardado Assim caminhou a humanidade, publicado no início de abril pela editora Palas Athena.

O caminho escolhido para montar o livro foi um tantinho heterodoxo, mas a razão era nobre. O professor reuniu em duplas seus 12 alunos da disciplina que ministra na pós-graduação na USP e atribuiu a cada par um tema fundamental da evolução humana geral. “Assim, cada capítulo foi feito a quatro mãos, três ou quatro revisões técnicas e só depois foram aprovados. E foi assim que esse livro se tornou o primeiro escrito totalmente por brasileiros”, explica. E o que os leitores encontrarão ali? A evolução cronológica e as implicações dessa jornada que vai desde o surgimento dos primeiros primatas até o advento da agricultura, que marca a aparição do Homo erectus até as grandes civilizações. A obra chega ao estágio evolutivo em que estamos hoje e isso é outro aspecto interessante de Assim caminhou a humanidade. “Claro que a espécie evoluiu muito, criou muito, mas em termos de evolução de espécie, somos exatamente a mesma do início do Neolítico”.

Trazer a discussão para tempos mais recentes – ainda que o parâmetro aqui sejam as eras geológicas, medida muito mais graúda do que a imaginação costuma alcançar – é uma escolha que contribui para as discussões científicas e para as aulas de uma forma geral. Primeiro, porque a maioria dos livros sobre evolução de espécies termina no início do Neolítico, muito longe da nossa atualidade. “Nosso livro chega a períodos mais próximos, o que ajuda a mensurar, a projetar o ser humano no tempo. Inova e facilita a compreensão”, conta Neves. E, justamente por projetar o Homo sapiens na história, dá a justa dimensão do que significa essa espécie na história do planeta Terra. “Não somos a espécie escolhida, privilegiada, não somos uma produção especial da evolução, somos mais uma espécie, única como as demais. Um resultado ao acaso da evolução que conseguiu sobreviver, mas sabe Deus até quando”, completa.

Aliás, manter certas questões em aberto também foi uma escolha dos organizadores, simplesmente porque a evolução das espécies não é assunto encerrado entre os cientistas. Então, os capítulos apontam sem pudores as questões polêmicas e mais discutidas nos laboratórios e bancadas de investigação. Os autores trabalham as diversas hipóteses e o embate de explicações, fugindo do que é consensual. Porque, afinal, a ciência é feita assim, com o choque entre ideias, a experimentação. Uma instigante sucessão de verdades provisórias. Justamente por isso, cada segmento de Assim caminha a humanidade termina com um quadro que indica as pesquisas mais recentes em cada área. “Eu tenho maior carinho por esse quadrinho, porque ele traz para a atualidade. É uma isca. Quem acha que a discussão está encerrada, se surpreende. E quem gostou do assunto, pode se aprofundar e se atualizar”, convida Neves. “É excelente para professores, por exemplo”, instiga o organizador, inspirado no leitor da Revista Giz. Mais do que o afeto pela ideia, o professor de evolução da USP, na verdade, está oferecendo um contato do público com o tal método científico.

A força da ciência

“A grande força da ciência é ela trabalhar sobre hipóteses provisórias, na medida em que a pesquisa empírica vai acontecendo, a gente vai podendo escolher entre essas hipóteses provisórias”, ensina. Segundo Neves, é importante que essa característica chegue à sala de aula, porque coloca alunos e professores debruçados sobre o método, o fazer científico, que é rico e diferente das demais formas de produzir conhecimento – em especial as religiões – porque não se apoia em dogmas e em verdades inquestionáveis. “A ciência tem embutido em si um método de autocorreção e isso não é uma fraqueza. Ao contrário, é uma fortaleza. Se outra pessoa quiser refazer seu experimento e chegar a conclusões distintas, ele pode publicar isso”. E, o que mais encanta os cientistas, esse confronto não enfraquece o método científico, ao contrário, é sua fortaleza. E um dos segredos para a atividade científica continuar avançando é formar estudantes – depois, futuros cientistas – que tenham gosto por questionar e por buscar respostas experimentando. Perguntar derruba o dogma. Experimentar inicia a hipótese científica.

Em tempos de crescimento de vertentes religiosas obscurantistas e conservadoras, Neves defende que a opção pelo criacionismo é uma matéria de foro íntimo. No entanto, “minha responsabilidade e a do Estado, que é laico, é colocar à disposição das pessoas as evidências que já temos sobre o processo de evolução humana”. Para ele, o que as pessoas farão com isso, acredita, é uma questão íntima e pessoal, mas o conhecimento precisa ser difundido. “O que o Estado não pode se isentar é de produzir material mostrando a versão da ciência”.

Para concluir, Neves alerta para como o ensino da evolução humana está “constrangedoramente desatualizado nas escolas”. O currículo e a maioria do material não favorecem o avanço, por isso, ele reforça que o professor é a peça chave para a virada nesse jogo. Quanto mais curioso e mais atualizado for o educador, mais os alunos – crianças e jovens – adotarão o método científico para conhecer o mundo, a natureza, a história e as culturas. Isso faria o ensino e a própria ciência caminharem.

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