Velha Roma Cibernética

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo

O professor desenrola a tela branca em frente à lousa, liga o botão do projetor e, em segundos, o portal para a Antiguidade está aberto. As imagens ali exibidas permitem fazer um vôo rasante sobre Roma, capital do Império Romano, no longínquo ano 360 d.C. Enquanto a seta do cursor busca os edifícios políticos, ou os templos religiosos, ou ainda as casas de moradia, é possível percorrer as ruas curvas e emboladas da Cidade Eterna. A visão panorâmica é um convite à exploração e à busca que motivam há séculos os historiadores e arqueólogos que seguem estudando aquela região.

O dispositivo que permite a conexão entre presente e passado chama-se Roma 360 e é um aplicativo para computadores desenvolvido pelos cientistas do Laboratório de Arqueologia Romana Provincial do Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade de São Paulo (Larp/MAE/USP). Na vanguarda da tropa está o pesquisador Alex Martire, historiador e arqueólogo, que está concluindo o doutorado, orientado pela professora Maria Isabel Fleming, coordenadora do Larp.

Martire conta que o aplicativo é baseado num atlas bem completo sobre Roma, produzido na década de 1920 e que retrata, com riqueza de detalhes, a cidade no ano de 360 d.C. “A data de 360 não foi escolhida aleatoriamente, quanto mais perto do presente, mais os vestígios contam uma história mais próxima da realidade. E aquela década de 360 é bastante representativa arqueologicamente”, explica. Além disso, 360 também é uma referência à possibilidade de o usuário girar o mapa e desbravá-lo em todas as direções, 360°.

Mas o voo não é só panorâmico. Caso o viajante queira estacionar sobre alguma edificação, aparece na tela um texto informando que construção é aquela e qual é sua importância para a organização da cidade. O pequeno parágrafo pode, ainda, levar a outros sites e outras referências, para aprofundar o conhecimento sobre o Império Romano. A ideia, de acordo com Martire é facilitar mesmo o acesso de professores e alunos ao conhecimento produzido sobre Roma.

No entanto, livros e fotos já são ferramentas conhecidas e utilizadas. A sacada do Roma 360 foi usar a linguagem dos games – bem conhecida e apreciada pelos estudantes – para apresentar a capital do Império Romano. A própria navegação segue os códigos dos jogos e dos aplicativos de sites. “A gente procurou facilitar em tudo, principalmente na aproximação dos jovens e dos professores com a história antiga, porque quanto mais longe, mais difícil de imaginar, então a linguagem de site e de game pode ajudar nesse transporte para um passado mais realista”, revela o pesquisador.

Assim, navegando pelo aplicativo e pousando em cada cômodo, o internauta conhece afrescos, padronagens e outras referências de épocas variadas. Cada cômodo, um tempo. E o professor e o aluno saberão do momento histórico que se trata a partir de textos que aparecem quando se passa o cursor sobre pontos da imagem.

Entre uma aproximação e outra, entre um giro e outro, o internauta vai se dando conta de algumas questões importantes que, sem o mapa, dificilmente seriam percebidas. Por exemplo, quando se compara Roma com outras cidades, até contemporâneas, nota-se a semelhança do traçado. Prédios importantes mais ao centro, vias principais ligando o centro do poder às fronteiras.

“É uma construção urbana bem próxima das que temos ainda hoje, embora dê para notar que Roma foi uma exceção entre as cidades do Império Romano”, sinaliza Martire. Ele segue: “as outras seguem aquele desenho de ruas paralelas e perpendiculares formando quarteirões bem organizados. Em Roma não. Há uma bagunça típica das cidades que cresceram demais, sem muito planejamento”. Algo soa familiar nessa explicação. E a ideia é essa mesmo, aproximar.

Outro ponto importante é, a partir de um desenho muito próximo à situação real do centro urbano naquela época, mostrar que existia uma vida cotidiana, independentemente dos grandes feitos militares e dos grandes heróis. Havia mercados, banhos romanos, casas, praças, locais de lazer. Os romanos tinham um dia a dia muito comum, distante das batalhas de anexação de territórios e das lutas fratricidas pelo comando do Império, tão próprias dos círculos mais abastados.

“A arqueologia pode ser um contraponto muito interessante para a história, porque essa segunda sempre é escrita pelas elites, que dão um ponto de vista enviesado. No entanto, os achados arqueológicos ajudam a reconstituir a realidade a partir de pontos de vista variados”. E isso aparece lá no aplicativo? “Aparece sim, quando o visitante vê as casas, as praças, o traçado das ruas, vai desvendando as classes sociais influentes, a razão de ser de certas construções, porque as edificações do exército ficavam nas franjas da cidade. Costuma ser uma descoberta bem divertida”.

Nessa mesma toada, ao lado do Roma 360, o Laboratório de Arqueologia Romana Provincial oferece um segundo aplicativo, o Domus. “Esse mostra uma casa de um típico romano rico, um senador, por exemplo. Os cômodos, a disposição, a construção mesmo de uma casa da elite do poder”, explica o pesquisador. “Domus em latim quer dizer casa e essa que a gente construiu não existiu de verdade, mas foi inspirada numa casa da cidade de Pompeia. O interessante é que cada cômodo traz referências para o aprofundamento nos estudos”, ensina Martire.

O dispositivo que permite a conexão entre presente e passado chama-se Roma 360 e é um aplicativo para computadores desenvolvido pelos cientistas do Laboratório de Arqueologia Romana Provincial do Museu de Arqueologia e Etnografia da Universidade de São Paulo (Larp/MAE/USP).

Assim, navegando pelo aplicativo e pousando em cada cômodo, o internauta conhece afrescos, padronagens e outras referências de épocas variadas. Cada cômodo, um tempo. E o professor e o aluno saberão do momento histórico que se trata a partir de textos que aparecem quando se passa o cursor sobre pontos da imagem. E, nesse projeto, todos os cientistas do Larp se envolveram. Como cada um é especialista numa área e num tempo, para cada cômodo e cada referência aparece um texto de apoio, feito por um pesquisador diferente. “Todo mundo se juntou e construiu essa casa com todo o conhecimento que a gente produz ali dentro. A ideia era mesmo encantar e facilitar o processo cognitivo”, joga a isca o arqueólogo.

Mas arqueólogo sabe fazer aplicativo com cara de game? Sim, porque se o mapa 3D de Roma já parece um jogo, Domus é ainda mais parecido com aqueles games com “visão subjetiva, em que a imagem simula o que o personagem está vendo”. Martire diz que, em geral, historiadores e arqueólogos não costumam produzir e programar ambientes digitais. “Nos dois casos, fui eu mesmo quem fiz, trabalhando nos mesmos programas usados para fazer os jogos de play station, wii e outros videogames conhecidos”, revela. “Mas esse profissional que une arqueologia e mundo digital vai ser cada vez mais necessário, porque essa área que chamamos de ciberarqueologia vai se fortalecer, vai conquistar adeptos e a gente vai precisar alimentar escolas, professores, museus e etc. com dispositivos assim”, defende o pesquisador.

A notícia boa é que se é necessário formar programadores para trabalhar com ciência, o mesmo não se aplica aos professores. “A navegação é muito simples e intuitiva, como costumamos dizer. A ideia não é dificultar, é facilitar as aulas. Os alunos já têm muita familiaridade com tudo isso. Caberá ao professor mediar para que a brincadeira vire, no futuro, produção de conhecimento”, conclui Martire.

Serviço

Link para baixar os dois aplicativos: http://www.larp.mae.usp.br/rv/

 

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