Cientistas em quadrinhos

Elisa Marconi e Francisco Bicudo

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Foi durante o pós-doutorado em Divulgação Científicana Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que a zootecnista Daniele Botaro tomou conhecimento de uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Folheando os resultados do levantamento Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil, feito em2010, a pesquisadora se deu conta de uma situação curiosa. Já na primeira página, o trabalho, que entrevistou 2016 homens e mulheres acima de 16 anos, em todas as regiões do país, apontava que cerca de 65% dos entrevistados se interessam, ou se interessam muito, por ciência e tecnologia. Mas a última parte do levantamento revelava uma situação inversa: 87.6% não conhecem algum cientista brasileiro importante. Ou seja, embora os brasileiros apreciem o tema ciência e tecnologia, ignoram os personagens que fizeram e fazem a história das pesquisas por aqui.

E foi então que Daniele decidiu reunir personagens com história e chegou a uma possível solução para essa questão: por que não transformar a trajetória de alguns dos mais renomados cientistas do Brasil num gibi, com linguagem acessível, desenhos simpáticos e roteiro sedutor? “Durante as aulas, discutimos que quadrinhos são uma linguagem atraente para crianças, jovens e adultos”, conta a zootecnista. A partir daí, junto com os pesquisadores do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ, começou a desenvolver o roteiro do que virou Sim, nós temos cientistas, um livro com histórias em quadrinhos sobre a vida de gente como Oswaldo Cruz, Vital Brazil, Malba Tahan, Cesar Lattes, Florestan Fernandes, Nise da Silveira e outros.

Histórias múltiplas, com muitos narradores

Evidentemente não foi uma tarefa fácil selecionar apenas alguns cientistas, já que são muitos os feitos nacionais que contribuíram para fazer avançar a produção de conhecimento, em diversas áreas. A autora contou com uma ajudinha especial para chegar ao formato final da obra. “Antes da versão final, fizemos um pré-teste com crianças e adolescentes de12 a16 anos, estudantes de escolas públicas do Rio de Janeiro”, revela. A ideia era ver se as histórias narradas pela zootecnista/escritora funcionavam, se prendiam a atenção dos meninos e meninas e se, a partir delas, os leitores conseguiam reter informações importantes. O resultado dessa etapa foi, ao mesmo tempo, bom e ruim. Bom porque as crianças se animaram com o formato e disseram que se interessavam pelos temas e pela vida dos cientistas. Ponto para Daniele. Mas foram ruins, porque os estudantes acharam tudo muito longo, arrastado, tinham preguiça de ler até o fim.

“Foi então que eu troquei a história linear de cada um dos cientistas que aparecem lá no livro por histórias múltiplas, com muitos narradores”, conta. Então, além do personagem-guia Chaguinhas – que já era trabalhado no Museu da Vida do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho – narrar a história de grandes cientistas como Malba Tahan, César Lattes e José Leite Lopes, aparecem três outros personagens-mirins que fazem as vezes de mestres de cerimônia da ciência brasileira. Rafa, Leo e Lucas são desafiados por Chaguinhas a conhecer e contar – de um jeito criativo – os feitos de alguns medalhões da pesquisa no país. Rafa, a inquieta, quase feminista, organiza um passeio para os colegas de classe para o Museu da Vida, para contar a história de Oswaldo Cruz e Vital Brazil. Leo, o futuro matemático, fica encarregado de montar uma exposição sobre Adolfo Lutz e Carlos Chagas. E Lucas, filho de uma cientista social, fica responsável por Chagas Filho e Aristides Pacheco Leão e transforma sua pesquisa em um vídeo.

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Daniele lembra que houve um cuidado muito grande para escolher a desenhista. “A gente queria um traço que as pessoas gostassem de cara, que fosse simpático e convidativo”. Assim, Cibele Santos foi chamada, porque seus personagens lembram um pouco aqueles feitos por Maurício de Sousa e as crianças do pré-teste identificaram logo a semelhança com a Turma da Mônica e gostaram dessa proximidade. Além disso, e este certamente foi o maior desafio, toda vez que se transforma um ser humano real em boneco de HQ, a chance de transformar o retratado numa caricatura é grande. Em alguns casos, esse é o objetivo. Mas Daniele explica que em Sim, nós temos cientistas, a ideia era justamente a oposta.

“Por isso a Cibele teve de ser muito parceira e fazer com que os desenhos fossem fieis às pessoas. As crianças e os adolescentes têm de ler e sacar que aquele ali era uma pessoa real, de carne e osso, que viveu só alguns anos antes e não um personagem inventado”, defende. E por que isso era tão importante? “Porque o imaginário em relação aos cientistas ainda engana muito, as pessoas acham que os cientistas são gênios inalcançáveis, meio malucos, quando na verdade são gente normal, todo mundo conhece ao menos um cientista”, responde a autora. Ou seja, nada de reforçar os estereótipos desenhando um Einstein descabelado e mostrando a língua. Nas páginas do gibi, o pai da Teoria da Relatividade aparece muito bem penteado e vestido, ao lado de cientistas brasileiros que o acompanharam em Sobral, no Ceará, quando da confirmação de um dos postulados da Relatividade defendidos pelo físico alemão.

Pesquisadores de todas as áreas

Daniele também percebeu que não dava para ter só pesquisadores da área da saúde, ou medicina. Tratou ainda de garantir o espaço devido às pesquisadoras. Assim aparecem Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Nise da Silveira e Johanna Dobereiner. “Porque a gente tinha que ser o mais amplo possível, para atingir todos os gostos e curiosidades, para os leitores perceberem que dá para fazer pesquisa em todas as áreas do saber e que isso é sim profissão”, afirma. E eis aqui outro nó que a turma da divulgação científica vem tentando desfazer. As pesquisas mostram que apenas 2,3% dos jovens entre 15 e 16 anos pretendem seguir carreira científica. “É muito pouco para um país com a história do Brasil e muito pouco para o país que o Brasil quer ser. As pessoas precisam saber que a ciência é uma carreira também e que aquela curiosidade natural da criança tem lugar nos laboratórios, universidades e institutos de pesquisa. É bem-vinda”, se anima a zootecnista.

Depois de tudo pronto, histórias intercaladas, mais narradores, desenhos convidativos e tudo mais, o livro com as histórias em quadrinho foi para um novo teste, com outros 66 alunos de uma escola pública municipal e de outra estadual, de novo no Rio de Janeiro. Aprovado. A turma de 12 e 13 anos gostou mais do que a turma que tem entre 15 e 16 anos, mas essa segunda equipe se mostrou muito aberta a ler outras vezes. E, o mais importante, os meninos e meninas de todas as idades conseguiram ligar o conteúdo das histórias com as matérias que estudam ou estudaram em sala de aula. “E era esse mesmo o objetivo”, comemora Daniele, que no momento se debruça sobre os dados coletados com os jovens leitores para concluir a tese do pós-doutorado.

Em outubro de 2012, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro, foram impressos 20 mil exemplares do livro, que serão distribuídos em escolas da rede oficial de ensino do Rio de Janeiro. “Infelizmente não conseguimos mais, mas deixamos a versão em PDF no site, assim as escolas do Brasil todo podem baixar, imprimir e trabalhar a vida e a obra dos nossos cientistas”, avisa a autora, que lembra ainda que não é preciso nenhum preparo especial dos professores para adotar a obra. “Estamos elaborando uma cartilha para o professor que quiser se aprofundar mais nos temas ali tratados, mas de uma forma geral, as relações com as disciplinas e os conteúdos são bem acessíveis”, acredita a pesquisadora. “Estamos pensando em fazer o material do professor e talvez um jogo de tabuleiro, um game e outras ferramentas derivadas dessa aventura. A ideia é divertir para ensinar e difundir a ciência”, conclui.

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