A história resgatada das entranhas da mata

Em entrevista exclusiva à Revista Giz, o autor de “Mata! O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia”, Leonencio Nossa, conta que sempre desconfiou que os tais arquivos da ditadura existissem e que, ainda que não estejam nos quarteis, certamente ficaram guardados por militares aposentados.  O livro conta a Guerrilha do Araguaia a partir das memórias e dos arquivos do militar que comandou o extermínio dos guerrilheiros

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Elisa Marconi e Francisco Bicudo

Foram dez anos de trabalho. Dos primeiros contatos com o tema até a publicação de Mata! O major Curió e as guerrilhas do Araguaia (ed. Cia das Letras, 412 pag.), o jornalista Leonencio Nossa precisou visitar o major Sebastião Rodrigues de Moura, conhecido como Curió, incontáveis vezes, até conseguir ganhar a confiança da fonte e poder ter acesso às suas lembranças e, principalmente aos seus arquivos pessoais. Também visitou o coração do Araguaia, onde, no final dos anos 1960 e início dos 70, o Partido Comunista do Brasil (PC do B) instalou um foco de guerrilha que pretendia combater a ditadura militar e, a partir dali, irradiar a resistência e derrubar o regime dos coronéis. Curió comandou a repressão ao movimento. O jornalista ouviu mais de 150 moradores da região e, num trabalho de fôlego, construiu uma reportagem que ajuda a trazer elementos novos para o resgate e a reconstrução dessa etapa da história recente do país e que ainda carece de muita explicação. Na obra, ele revela com precisão as datas e os locais das execuções de pelo menos 41 guerrilheiros do PC do B assassinados pelo regime – informações preciosíssimas para as famílias dos desaparecidos e para a atuação da recém-instalada Comissão da Verdade.

Em entrevista exclusiva à Revista Giz, Nossa conta que sempre desconfiou que os tais arquivos da ditadura existissem e que, ainda que não estejam nos quarteis, certamente ficaram guardados por militares aposentados. O autor lembra que não é a primeira vez que um oficial que combateu a guerrilha e os guerrilheiros vem a público para dar sua versão dos fatos, mas é a primeira vez que essa versão é confrontada com a narrativa de outras fontes e com a consulta aos documentos guardados há décadas por um militar conhecido por estar na linha de frente de ações para dizimar a guerrilha e eliminar os guerrilheiros.

Agradecemos à Companhia das Letras pelas imagens

Crédito da imagem: Cia das Letras – Divulgação

Mata! passou da 7ª posição na semana do lançamento para o 2º lugar nas vendas das Livrarias Cultura e da Martins Fontes. E os melhores trechos dessa conversa com Leonencio Nossa, autor desse e de outros três livros (O Rio, uma viagem pela alma do Amazonas, Homens Invisíveis e Viagens com o Presidente – todos da Ed. Record), você acompanha a seguir.

Como foi o processo de construção do livro, desde os primeiros contatos com Curió, passando pela pesquisa, consulta aos arquivos e até a sistematização dos dados colhidos?

A partir do momento em que percebi que o Curió era uma fonte importante, voltei meu trabalho para esse foco, para ter acesso a essa fonte e a esses arquivos. Aí comecei a viajar muito para o Pará para chegar ao militar e nos documentos. Ao mesmo tempo, fui ouvindo outros militares e moradores da região onde a guerrilha atuou no Pará. Precisei ir fazendo isso, porque só consegui um contato maior com o Curió seis anos depois de começar os trabalhos. Foi um processo muito lento, muito difícil. Porque eu queria fazer um livro, queria colocar a versão dele. Mas não dava para fazer uma pegadinha, fingir que era uma coisa e publicar outra. Eu tinha de ser transparente, porque ele é um homem que entende de mídia. Está na mídia há muitos anos e só contou o que queria contar. Não dava para enganar. E, ao mesmo tempo, não dava para dizer estou fazendo um livro a favor dos militares. Isso é besteira. Então eu fui sincero. Num processo como esse tem que ter muita transparência. Até porque o mais importante é você contar a versão que aquela pessoa quer passar. Não adianta você arrancar alguma coisa. Isso não é importante para a História. E esse excesso de transparência pode ter afastado um pouco o Curió. Mas eu queria fazer um trabalho de Araguaia que eu curtisse, que achasse importante, bacana mesmo. Por isso mesmo, queria que tivesse uma base muito boa, porque é um tema complexo, com muitas lacunas, muitas versões. A maioria dos livros trabalha com informações em off [quando o jornalista não identifica a fonte, numa relação de confiança mútua], mas eu queria uma base sólida. Por isso demorou tanto.

Curió sabia que você estava ouvindo outras pessoas além dele?
Sabia e acho que isso foi importante, porque ele percebeu que eu estava colhendo dados e depoimentos e estava construindo uma narrativa. Adversários dele e outras pessoas que viveram aquilo tudo estavam dando suas versões, por isso ele decidiu contar também.

E isso aconteceu há três ou quatro anos?
Em 2002 comecei o trabalho, em 2007 os contatos com o Curió ficaram mais próximos e em 2008 tive um acesso muito rápido, por alto, aos arquivos dele. E nessa fase só vi relatórios de presos de guerra. Mas ainda era muito incompleto. Eu precisava pegar esses arquivos, olhar com calma. Em 2009, finalmente, tive acesso a tudo e publiquei uma reportagem no jornal Estado de São Paulo, um balanço dos números. E foi o seguinte: dos 69 mortos, 41 tinham sido prisioneiros e foram fuzilados depois de presos. Antes o número era de 25 prisioneiros mortos. Quase dobrou. Então fica claro que não prevaleceu o combate no Araguaia. Os militares foram eficientes em cercar os guerrilheiros, deixá-los sem forças e capturá-los. Aí com esses documentos em mãos eu fui ao Araguaia ouvir as pessoas que tinham vivido aquilo.

Ouvir também essas pessoas era fundamental.
Durante muito tempo, as informações sobre as guerrilhas vieram de grandes depoimentos em off. Militares que sabiam, mas não queriam revelar a identidade, contavam sua versão dos fatos. Por muito tempo era o que tínhamos. E isso foi importante. Mas hoje estamos em outro tempo. Isso não cabe. Hoje esse arquivo bombástico, esse depoimento revelador, já está gasto. São bem mais pessoas para falar, muito mais versões, visões, personagens. A História só pode ser construída com muito confronto de informações. E toda obra tem de ser muito aberta. É essa diversidade de versões que nos aproxima um pouco mais do que possa ter acontecido.

Essa postura está muito afinada com o trabalho do jornalista, do dever de ofício do repórter.
Exatamente. O que eu procurei fazer nesse trabalho foi ir aos limites extremo da reportagem. A velha e clássica reportagem. Foi o que eu tentei fazer, não mais que isso.

À medida que você ia se aprofundando mais na pesquisa e nos depoimentos, foi tendo mais certeza da existência dos arquivos da ditadura? Porque essa é uma questão polêmica. Um lado garante que o Exército destruiu tudo, outro afirma que ainda há muita coisa a ser descoberta…
O que me salvou ao longo de tanto tempo de trabalho, esses dez anos, foi a certeza de que os arquivos existem. Curió começou a aparecer na mídia como um militar que escreveu um livro sobre a história do Araguaia, no início dos anos 1980. Desde então ele está sempre na mídia. Então se desgastou muito a imagem dele. Eu acreditava muito que os arquivos existiam. Passei de 2002 a 2008 na esperança de que eles existissem. No fundo, aquela história de acreditar que a História se constrói com a diversidade leva a perguntar o que é arquivo para o Exército? Quando eles dizem que não tem mais nada, que não tem mais relatórios. Deixem a gente olhar os documentos que trata dos deslocamentos de tropas. Isso tem e isso é arquivo também. Deixa a gente olhar… Além disso, o que a gente chama de arquivo mudou muito nos últimos tempos. Depoimentos, fotos, diários pessoais, tudo isso é arquivo. O arquivo do Curió, por exemplo, são basicamente escritos pessoais. Nós temos hoje um conceito de arquivo que desqualifica completamente o discurso oficial. A História está lá e não se mata. E tem uma pergunta fundamental que eles nunca responderam: e os arquivos do Centro de Inteligência? Ah, não tem mais? Então deixem a gente entrar lá e olhar.

Poderia contar como foi o processo de cultivar essa fonte, manter o Curió por perto, mas distante o suficiente para não deixar de ser fonte?
Isso é muito difícil. A relação com uma fonte pode se modificar rapidamente sem a gente nem perceber. Então é preciso ter a justa medida e ficar perto o suficiente e longe o suficiente. Mas é difícil. Eu fui me aproximando, fui muito transparente e sincero com o Curió, mas tomei alguns cuidados. Nunca almocei com ele, por exemplo. Nunca estabeleci uma amizade, para não perder a fonte. Foi um exercício diário. Tinha que ter muito respeito. E a única base para o respeito é a transparência.

Também chama a atenção, por exemplo, que Curió tenha resolvido falar e mostrar seus arquivos. Você consegue explicar o que o levou a tomar essa decisão? Será que, como ele, outros militares estão sentindo que é o momento de revelar o que sabem?
Acho que não foi uma decisão assim, de uma hora para a outra. Nesse caso do Curió foi um processo longo. Eu fui mostrando outros documentos e ele foi abrindo, mas é um processo muito longo. Ele contava aos pedaços. E tem mais uma coisa que vou dizer e não sei bem explicar. Acho que todos nós temos a necessidade de contar um segredo, de revelar. É uma necessidade humana não guardar aquilo sozinho.

E o que mais você viu nesse arquivo? O que mais chamou atenção?
A história dos guerrilheiros. Folhear aqueles documentos – e eu desejei por tanto tempo que eles existissem – era como colocar a mão em algo luminoso. Era mais do que a sensação de “estou fazendo História”. Eu convivi tanto com essa história que não é bem uma sensação de vitória. Vitória a gente tem quando publica uma grande reportagem, que você ficou dois, três meses trabalhando e dá um furo, aí é uma comemoração. Mas eu passei tanto tempo envolvido, ganhei tanta intimidade com aqueles personagens mortos que montar aquele quebra-cabeças dá uma sensação de paz de espírito. Não dá sensação de conquista porque meu trabalho foi tão menor que tudo aquilo que eu estava ali relatando…

A principal virtude do trabalho é justamente ajudar a recontar essa História ignorada e pouco conhecida?
Olha, o barato do meu trabalho foi o processo todo, fazer as entrevistas, conversar com essa gente toda, ter acesso aos documentos. Ir ao Pará, à região do Araguaia era um grande barato. E não é recontar a história do Araguaia, porque, na verdade, ela é muito mal contada. A História ainda não tinha dado voz – e ainda não deu – a muita gente que esteve lá, que vivia lá. E era então colocar o Araguaia na História do Brasil, porque ainda tem muita recusa a isso. Quando você faz um livro, você tem de apresentar uma ideia nova. Sem desmerecer o que veio antes, mas alcançando uma visão nova. E assim, o grande problema dos trabalhos que vieram antes, na minha opinião, foi tentar incluir o Araguaia como um capítulo da Guerra Fria. E há dois problemas em fazer isso. O primeiro é que você ignora os fatos que aconteceram antes na região. E também os fatos que aconteceram depois. Episódios como o de Eldorado dos Carajás [o assassinato de 19 trabalhadores rurais pela Polícia Militar do Pará, em 17 de abril de 1996] está ligado ao Araguaia, uma região que sempre esteve em estado de violência e terror. A ideia era contar a história da Guerrilha do Araguaia como um capítulo da História do Brasil, e a partir das pessoas de lá e não a história de lá a partir do Brasil.

E como o livro tem sido recebido? Como estão as críticas?
Eu tive a crítica do Elio Gaspari, que foi boa. Mas eu sinto que as pessoas estão tendo muito cuidado, não estão querendo falar muito.

Talvez porque a fonte principal seja um militar.
Não, porque com essa característica há vários outros livros e bastante comentados. No meu caso há outras razões. E a recepção tem sido boa. Está em segundo na Cultura e na Martins Fontes. Na Travessa está em sexto. Passoude sétimo para 2º na Livraria Cultura. Acho que talvez as pessoas que costumam comentar ainda não tenham lido e, por isso, têm receio de falar e até de detonar. Porque para detonar, a pessoa vai ter de se explicar muito. Não porque o livro é meu, mas porque é muito bem feito, muito consistente. Veja só, entrevistei mais de 150 pessoas, a maioria gente muito simples lá do Araguaia, gente que nunca tinha sido ouvida. Como é que alguém vai ter coragem de atacar isso? Não sou eu que estou contando isso, é o Araguaia. Algumas pessoas apressadamente disseram que é a voz do Curió. É sim, mas é também a voz de mais 150 pessoas. O livro é, no fundo no fundo, uma História do Brasil contada pelas pessoas ali do Araguaia mesmo.  Agora veja, para o leitor ler essa história é difícil, doloroso. Mas escrever também foi. Ouvir aqueles relatos todos, aquelas histórias que os moradores contavam pela primeira vez foi muito difícil. Agora, imaginar o que foi aquilo, nem eu consigo. Nunca consegui.

 

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Elisa Marconi é Radialista e professora na Faculdade Rio Branco. Francisco Bicudo é Jornalista diplomado e professor da Universidade Anhembi Morumbi. Autor dos livros “Caros Amigos e o resgate da imprensa alternativa no Brasil” (Annablume, 2004) e “Saúde – Exercício da Vida” (Salesiana, 2009), "Memórias de uma Copa no Brasil" (Chiado, 2014) e "Crônicas boleiras" (Chiado, 2016).

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