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Trabalho

O desafio de ensinar Português

Por Gabriela Bueno *

          Seja pelo fato da disciplina ter um grande volume de regras, variáveis e exceções, seja pela metodologia que a matéria é lecionada, o que pode dificultar o seu entendimento e aplicação, ministrar aulas de Língua Portuguesa é sempre um desafio para os docentes.

E engana-se quem imagina que essas dificuldades estão presentes apenas no Brasil. Em outros países lusófonos, como Portugal e Moçambique, elas também acontecem, mas adaptadas às respectivas realidades. Essas questões foram discutidas no 14º Congresso de Língua Portuguesa, evento que conta com o co-patrocínio do SINPRO-SP, e aconteceu no final de abril.

Conversamos com professores destes três países para saber como está a situação, e quais são as dificuldades, do ensino da Língua Portuguesa.

Sobre os desafios, um ponto em que todos os docentes concordam, ainda que com possíveis soluções diferentes, é que a forma de ensinar a Língua Portuguesa deveria ser modificada.

O Professor Doutor da USP, José Fiorin, acredita que o conteúdo não pode, ou deve, ser entendido como algo isolado, pois precisa fazer parte de um todo “Deveríamos formar leitores com proficiência, gente que seja capaz de produzir, e ler, textos claros e concisos. Hoje o ensino está voltado para a descrição da Língua. O professor se contenta em suas aulas em explicar a gramática, explicar o que é análise sintática, sintaxe, e etc.”, conta.

Contudo, a Professora Doutora da Universidade da Madeira em Portugal, Luísa Marinho Paolinelli, discorda de Fiorin e explica que em seu país a união de Língua Portuguesa e Literatura afastam o aluno de ambas as disciplinas e dificulta o ensino. “Em minha opinião pessoal, acredito que ganharíamos se separássemos o estudo da Língua Portuguesa do estudo do Texto Literário. A ideia de partir do texto artístico para aprender a sintaxe, a morfologia, etc. têm duas consequências nefastas: o aluno não gosta de gramática e o aluno não gosta de literatura. A língua é comunicação e a literatura é um dos muitos usos da língua.

O que acontece em Portugal é que se anda a ler Camões para caracterizar o sujeito das orações: se é simples, composto ou nulo subentendido.Ou para identificar os modificadores, as orações, os verbos e por aí fora. Para além disso, os escritores e poetas têm toda a liberdade de ser agramaticais.Vá-se estudar a pontuação a partir de José Saramago e veja-se a dificuldade” disse.

Fiorin acredita que no Brasil o ensino deveria ser redirecionado para que toda a aprendizagem esteja voltada ao aluno, “Não podemos nos restringir a uma gramática de descrições que se esgotam. Precisamos encontrar meios de ensino que ampliem tanto o conhecimento quando a maneira de que ele será utilizado. O aluno decora, mas deveríamos ensiná-lo a usar essas ferramentas, a escrever corretamente a partir delas”.  Diz o professor.

Ainda sobre os desafios, a Professora Doutora da Universidade Federal de Rondônia, Maria do Socorro Pessoa, aponta outra dificuldade no ensino da Língua Portuguesa no Brasil. Para ela, um dos maiores problemas está no reconhecimento das diferenças regionais brasileiras. “Penso que só há uma dificuldade: conscientizarmo-nos de que não podemos insistir no ensino do Português Europeu. O Português Europeu é apenas a nossa fonte histórica, de tradição, mas, precisamos considerar nossa multiculturalidade, nossas imensas variações dialetais, nossa expressividade e sonoridade tão particularizadoras e tão nossas”

Segundo ela é preciso aproximar o ensino da Língua para a realidade de cada lugar e assim desmistifica-la, “Precisamos ensinar a Língua Portuguesa de modo a que nos orgulhemos dela, sem considerá-la complicada ou difícil. Os cursos que formam Professores precisam modernizar-se… Em todo o país e não apenas nos grandes centros. Tenho uma proposta de ensino da Língua Portuguesa cujo material didático seja os mapas geográficos, históricos, temáticos e políticos, no sentido de que, se visualizarmos nossos lugares e nossas gentes nesses mapas seremos capazes de ler sobre eles, escrever sobre eles, conhecer as maneiras particularizadoras de serem”

Tecnologia
Dentro desse processo de reformulação do ensino da Língua Portuguesa está o uso das novas tecnologias no processo de aprendizagem. O assunto, devido a sua importância e atualidade, gera opiniões divergentes.

O Professor Catedrático Armando Jorge Lopes, da Universidade de Maputo, em Moçambique, fala sobre seu primeiro contato com as novas tecnologias no processo de ensino, e o seu estranhamento diante daquilo.

“Pessoalmente, senti-me violentado com as bruscas transições, da caneta de tinta permanente e da ardósia quando ensinava, para o primeiro computador que usei na Inglaterra, gravando somente uma linha por vez e que pesava uns oito quilos! Depois fui me habituando, embora não totalmente, aos novos tempos que trouxeram avanços inimagináveis no domínio da infotecnologia”, conta.

Lopes explica que em seu país o domínio da infotecnologia, na sua aplicação ao uso de línguas, encontra-se muito no início, contudo acredita que em breve acontecerão avanços científicos e educativos em Moçambique. “Para o futuro, acredito com programas de Língua contextualizados à cultura e realidade moçambicanas. A infotecnologia vai certamente influenciar no ensino da Língua Portuguesa nos diversos continentes e é melhor prepararmo-nos para esse efeito”.

Acerca do tema em questão, Fiorin é mais tradicional e aponta para um importante fato, não se deve apenas sustentar o ensino do Português na infotecnologia em detrimento da aprendizagem tradicional. “A tecnologia no ensino da Língua deve vir como ferramenta. É um mito pensarmos que primeiro vamos usar a tecnologia e depois aprender algo. É um processo inverso, você primeiro deve aprender a Língua e depois utiliza-la na rede”.

Para a Professora Doutora da PUC e Mackenzie, e organizadora do Congresso de Língua Portuguesa, Neusa Maria Bastos, os avanços tecnológicos não podem mais ser ignorados e precisam ser incorporados nas aulas e no processo de aprendizagem. “A infotecnologia influencia todos os movimentos humanos hoje em dia, sendo assim, a Língua Portuguesa que é utilizada por duzentos milhões de falantes deve ser ensinada também se visando à comunicação via redes sociais, por exemplo. Há um novo registro para essa mídia e isso deve ser considerado no ensino de língua materna”.

Assim como Bastos, a Doutora Luísa Marinho Paolinelli concorda que a infotecnologia tem um papel importante. Ela explica que o advento desses novos recursos representa a queda de barreiras físicas no processo de ensino e o possível aumento de formas de aprendizagem.

“A tecnologia permite poder chegar a mais alunos em menor tempo, possibilita a aprendizagem da língua através de meios atraentes e é um importante instrumento no ensino do Português como língua estrangeira. Haverá, assim, uma maior facilidade de uso nos vários países da lusofonia das tecnologias de educação e aprendizagem, com muitas vantagens para os países que apresentam maiores dificuldades sociais e econômicas”, conta.

Já a Professora Maria Socorro pondera sobre o assunto e acredita no uso da tecnologia como ponte de troca de cultura e conhecimento. “Na atual mundialização, uma vez que já ultrapassamos a fase de globalização, é preciso que usemos, sempre, a infotecnologia no Ensino de Língua Portuguesa para produzirmos e fazermos produzir novos conhecimentos, inclusive àqueles de parâmetros de comparação da nossa língua com outras maneiras de expressão dos povos lusófonos, de modo a sabermos utilizar todo o material de pesquisa e/ou instrucional à disposição através do manuseio dos recursos infotecnológicos. Ou ficaremos desatualizados e sem parâmetros de avaliação do nosso fazer pedagógico” disse Socorro.

4 Comments

  • Edson Brito disse:

    A maior dificuldade que qualquer aluno possa encontrar é ter professores despreparados, escolas que não apoiam esses profissionais, pois sala cheia é sinônimo de lucro.
    Esses professores que abordam vários problemas, apontam soluções, têm uma educação maravilhosa, deveriam estar nas salas de aula do ensino fundamental I e II.
    Dar sugestões, propostas de novas tecnologias ou receitas mágicas até um leigo faz.
    O que eu quero ver são esses professores doutores da USP atuando, mostrando, colocando em prática essas belas teorias.
    Flar é muito fácil; colocar em prática é para poucos.

  • Ricardo Penna disse:

    Ainda bem que temos um representante do calibre de José Luís Fiorin, que sabe respeitar as variantes, mas sem perder o valor do ensino da gramática normativa.
    Alguém deve dar um chão firme a esse “vale tudo” que querem instalar no ensino do idioma.

  • ivone disse:

    Perfecta analise

  • Liquelique Dade disse:

    o aluno tanto quanto o professor devem se sentirem responsaveis no processo de ensino aprendizagem. por exemplo nos paises multilingue como mocambique o ensino aprendizagem da lingua portuguesa torna um pouco mais complexo pois o que acontece e’ que os alunos depois de aprenderem no primeiro ciclo o ensino bilingue ja pensam que o saber ler e escrever na lingua nativa segue o mesmo canone em lingua portuguesa e’ por isso que no nosso peis e’ frequente encontrar alunos que transportam as normas linguisticas da sua lingua para o portugues. isso tem dificultado muito os professores principalmente quando se depara com com varios alunos que possuem linguas diversificadas para alem de nao possuirem material apropriado e terem que trabalhar com mais de cem alunos numa unica turma.

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