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Cultura

As cartas de Mário

By 23/10/2015No Comments

Elisa Marconi e Francisco Bicudo

 width=Está aberta ao público a exposição Mário de Andrade – cartas do Modernismo, no Centro Cultural dos Correios, na região central de São Paulo. A mostra foi concebida em 2012, quando foram comemorados os 90 anos da Semana de 1922, marco do movimento modernista, e já passou pelo Rio de Janeiro e por Brasília. Bastante badalada nas paradas anteriores, chega agora a São Paulo também em ocasião de mais uma efeméride, já que o escritor paulista, homenageado da última Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), morreu há 70 anos. Como o nome já anuncia, a mostra reúne as correspondências que Mário trocava com variados interlocutores, como Tarsila do Amaral, Cândido Portinari e Anita Malfatti.

A curadora do projeto, Denise Mattar, conta que já tinha organizado exposições sobre outros modernistas (os pintores Di Cavalcantie Ismael Nery e o multiartista Fábio de Carvalho) e lembra que, em todos esses trabalhos, as correspondências dos homenageados sempre chamaram a atenção dela. “No caso de Mário de Andrade, mais ainda, porque era um escritor contumaz. Ele mesmo dizia que sofria de ‘gigantismo epistolar’, tal era sua produção de cartas”, brinca a curadora. Assim, ela propôs – não à toa – ao Centro Cultural dos Correios montar esse projeto, que revelaria traços da personalidade, da criação e até da intimidade do escritor, a partir de sua farta produção de missivas. E assim foi feito. “A carta sempre foi um material muito rico para descobrir os artistas. Antigamente, eles escreviam muitas cartas e, nelas, estamos meio distantes da história oficial, então você penetra um pouco no que há de íntimo nas pessoas”, explica.

Carta do pintor Cícero Dias para Mário de Andrade

O projeto idealizado por Denise tem como foco os escolares, principalmente estudantes e professores do fundamental 2 e do ensino médio, mas ninguém precisa se sentir excluído. A ideia foi montar a exposição em diferentes camadas. “Algumas são para profundos conhecedores da obra, do contexto histórico e do legado de Mário de Andrade, mas outras são justamente pensadas para quem está travando os primeiros contatos com o escritor”, indica. Na prática, Mário de Andrade – cartas do Modernismo começa com uma apresentação do contexto histórico e social dos primeiros passos do Modernismo, sai da exposição de Anita Malfatti, passa pela união dos modernistas, chega à Semana de Arte Moderna, até registrar a ida de amigos (Anita, Tarsila, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia) dele para Europa e a solidão de Mário, que ficara aqui no Brasil, sozinho, sem os companheiros. Essa primeira etapa vai até a quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.

Depois, o visitante é conduzido para o segundo momento do Modernismo, quando Mário de Andrade elege Cândido Portinari como seu artista preferido. “Ele é o primeiro a descobrir Portinari, que expôs no Salão de 1931, um escândalo que acabou com a demissão do Lúcio Costa, diretor do Museu. Mário vai à exposição, já meio desiludido com a produção de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, e se encanta com Portinari, que tinha uma excelente técnica, mas não tinha lá muita criatividade”, conta a curadora. O escritor paulista, na verdade, percebeu ali um potencial ainda pouco explorado na obra de Portinari. Seguindo a linha cronológica, a mostra termina com o finalzinho da vida do modernista, já em 1945.

Carta de Salvador Dalí para Mário de Andrade

A pergunta obrigatória, quando se imagina uma exposição baseada em cartas, é: como, afinal, o público jovem e escolar, tão distante dessa forma de comunicação, reage a esse universo de papeis manuscritos com caligrafia pessoal? Espantam-se primeiro, depois se divertem e, por fim, encantam-se, responde a curadora. Para conseguir isso, Denise levou mesmo em conta a distância entre o público de hoje e as epístolas. Assim, para reaproximar o visitante do mundo em exposição, a mostra apresenta as cartas propriamente ditas em fac-símiles dos originais, tanto as que Mário enviou quanto aquelas que recebeu dos artistas. O escritor era muito organizado, guardou quase tudo. Estima-se que ele tenha por volta de 20 mil correspondências trocadas. Além disso, há cartas transcritas, para superar o estranhamento com a letra cursiva, e até cartas narradas. O visitante coloca o fone de ouvido e ouve a leitura, interpretada pelo ator João Paulo Lorenzon.

Outro destaque fica por conta da instalação que simula o volume (aqui, não mais o som, mas o espaço ocupado) das 20 mil cartas acumuladas, que revela a intensidade da comunicação envolvendo Mário. A mesma instalação também dá o tom do encantamento que os visitantes experimentam. “A pessoa pode levar uma dessas cartas embora, para casa, desde que escreva outra para o Mário e deixe ali”, explica Denise. Ela completa: “As cartas produzidas nas edições anteriores foram tão interessantes e profundas que é inegável a inspiração que o escritor provocou naquele público”.

Uma característica que o visitante logo percebe na produção é o estilo sempre personalizado. As nuances da relação de Mário com os artistas estão vivas em sua generosa correspondência. Para cada interlocutor, o autor de Macunaíma impunha um jeito diferente, uma linguagem única. Para Tarsila do Amaral, por exemplo, Mário escrevia destilando uma paixão arrebatadora. “Anita apresentou os dois e ele ficou apaixonado. Mas Tarsila e Oswald de Andrade se apaixonam e vão com o grupo de modernistas para a Europa. Aí, tem as cartas apaixonadas a ela e também as cartas conclamando o grupo a voltar à mata virgem”, brinca Denise. Com Di Cavalcanti, os textos eram divertidíssimos. “Tem uma em especial, para Anita Malfatti, chamada No atelier, em que ele descreve Tarsila do Amaral pintando, que é um primor de literatura. E para Manuel Bandeira, escrevia com cuidado. Já com Portinari, fofocava, eram compadres”, provoca a curadora.

Denise conclui contando que o bonito por trás de uma exposição de cartas é que o visitante-leitor acaba, nas entrelinhas e nos não ditos, vislumbrando a pessoa do autor. “Mário, em particular, foi uma figura muito rica e múltipla”. A correspondência, segundo ela, é que revela o aspecto mais importante do perfil do escritor. “Ele via o país com esse potencial criativo do Brasil. E enxergava o que precisava ser feito para que essa criatividade transbordante, como ele escreveu nas cartas, fosse canalizada de forma produtiva e não dispersiva”. Para a curadora da exposição Mário de Andrade – cartas do Modernismo, é uma felicidade que os professores possam mostrar a seus alunos a visão e o projeto do escritor para o país, suas ideias para as pré-escolas, num grau de detalhamento e de intimidade que só as cartas podem revelar.

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