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Cultura

O olhar para Casa Grande

By 30/04/2015No Comments
Elisa Marconi e Francisco Bicudo


Foi o crítico de cinema Luiz Carlos Merten, do jornal O Estado de S. Paulo, quem disse que se trata do filme nacional do ano. Com essa carta de recomendação, Casa Grande, de Fellipe Barbosa, foi lançado no último dia 16 de abril e vem enchendo salas de cinema no Brasil todo – além de páginas de jornal e internet com críticas, em geral, positivas. A maior parte dos textos celebra o fato de a obra se arriscar a olhar para a realidade nacional a partir do ponto vista dos endinheirados (ao menos durante um tempo) do Brasil, e não das classes médias (novas ou tradicionais) ou dos miseráveis. No filme, quem narra é sobretudo o andar de cima.

O protagonista da história é Jean, legítimo representante da parcela mais rica da sociedade brasileira. Tem 17 anos e começa a viver as transformações clássicas que o fim da adolescência traz. No entanto, a vida dele será chacoalhada pela bancarrota da família, derrocada que ele é o último a conhecer. Depois de prosperidade e fartura, seus pais ‘quebram’, devem para muita gente e estão até envolvidos em irregularidades econômicas. E é a partir da relação com os empregados da família que o rapaz vai construir sua nova identidade e passar por transformações. É pegando ônibus e entrando em contato direto com pessoas de outras classes sociais, em lugares que nunca imaginou estar, que a jornada dele ganha novos rumos.

“Seria ridículo tratar a bancarrota de outra forma. Tem uma ironia colocada, porque ao esconder a situação do filho, a história tem um elemento de farsa. Seria ridículo tratar como um melodrama, porque existe algo de engraçado em uma família rica perder dinheiro”

Coincidência, ou não, o próprio Fellipe Barbosa é filho da classe média alta e, por isso mesmo, foi fazer cinema na Universidade Columbia, em Nova York. E enquanto aprendia a filmar, a roteirizar e a dirigir, sua família enfrentava a falência. Por estar longe, e para ser preservado da situação, ele (também) foi o último a saber. “A primeira versão do roteiro é de 2006, mas três ou quatro anos antes, minha família passou por tudo isso. Não sei se consciente ou inconscientemente, preferiram me poupar”, lembra o diretor de Casa Grande, em entrevista exclusiva à Revista Giz. Ele conta que a semente do longa começou a brotar a partir exatamente dessa vivência. “Casa Grande é também uma tentativa de exorcizar tudo isso, me colocar naquele lugar em que não estive, porque estava fora. É uma confissão da ausência. Como será que eu teria enfrentado tudo?”, pergunta-se o diretor. “Felipe sempre quis fazer, não uma adaptação da obra de (Gilberto) Freyre, mas um filme que refletisse as relações sociais entre a casa grande e a senzala no Brasil contemporâneo. Um filme sobre patrões e empregados”, reforça Merten, em crítica publicada no Estadão de 16 de abril.

Confrontar a riqueza
Ao mesmo tempo, ainda que jogue com a biografia do autor, o filme é uma ficção, trabalhada com todos os requintes de uma obra de fantasia. Ou seja, não se presta apenas a expurgar o passado, tem também o desafio de esmiuçar alguns temas, espremer algumas feridas, aprofundar algumas discussões. “No meu caso, eu queria confrontar a riqueza. Trouxe a burguesia para o primeiro plano, não deixei só como cenário, porque queria trabalhar com um pouco de humor também”, conta. Barbosa dirigiu e roteirizou o filme; assim, conseguiu temperar com leveza e certa graça a situação patética da família de Jean. “Seria ridículo tratar a bancarrota de outra forma. Tem uma ironia colocada, porque ao esconder a situação do filho, a história tem um elemento de farsa. Seria ridículo tratar como um melodrama, porque existe algo de engraçado em uma família rica perder dinheiro”, provoca.

“O processo de tomada de consciência dele começa quando pega o ônibus, fato que possibilita um crescimento que ele não tinha a possibilidade de conhecer antes”

Algo como uma vingança? “Exatamente, porque, de alguma maneira, essa questão é quase um testamento de quanto a mobilidade social é difícil no Brasil. Tanto para cima, quanto para baixo. O rico não fica pobre aqui. Ele perde dois dos quatro carros. Acho que existe uma ironia aí”. Segundo Barbosa, essa culpa burguesa – ele mesmo diz ter se sentido assim por ser um dos mais ricos da sua classe na escola – precisava ser confrontada, enfrentada. A pergunta que o cineasta se fez para fazer o filme foi: se existe algo de desconfortável em ser rico, então por que a gente quer tanto isso? Foi ao encarar esse incômodo de frente que Barbosa propôs algo curioso ou inusitado: que a falência fosse algo positivo para Jean. “O processo de tomada de consciência dele começa quando pega o ônibus, fato que possibilita um crescimento que ele não tinha a possibilidade de conhecer antes”, explica.

Debruçar-se então sobre a riqueza serviu para bailar com outros demônios, que não só os familiares. Barbosa afirma que decidiu andar na contramão da cinematografia mais abundante no país, aquela que trata dos excluídos. “Acho um movimento bastante nobre e legítimo, no entanto, poucas vezes via o cineasta se colocar no filme de maneira tão frontal e direta. Acho que, de certa forma, foi uma resposta a isso”. Ao entrar nesse campo, Barbosa levanta uma antiga questão do cinema brasileiro: uma arte cara, feita pela classe média, com financiamento pesado de grandes empresas privadas e mais ainda, públicas, mas que, em geral, retrata a pobreza, a marginalidade, a exclusão. Vale? Para o cineasta, esse posicionamento do cinema brasileiro é próprio das nossas condições, do nosso cenário de desigualdades ainda profundas.

Outras realidades
Segundo ele, no entanto, nos últimos quatro ou cinco anos, filmes que trabalham outras realidades vêm aparecendo, e cineastas que se colocam mais em suas obras também. O expoente mais recentemente badalado dessa nova geração – e os diretores, roteiristas e demais profissionais envolvidos não se incomodam com esse rótulo – foi O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, de 2013, que amealhou uma boa quantidade de prêmios no Brasil e no exterior. Um tanto mais ácido que Casa Grande, o filme fala de várias famílias de classe média baixa e média alta, que moram num bairro nobre do Recife, e têm histórias entrecruzadas. No pano de fundo, as tensões e os valores que movem essas classes e os enfrentamentos que surgem quando quem está mais abaixo começa a subir alguns degraus na pirâmide.

“Seria fantástico [sobre o filme ser usado em sala de aula]. Não posso falar muito de projetos pedagógicos, porque não sou especialista, mas acho que tem conteúdos bem ricos e interessantes para serem trabalhados com os estudantes”

Barbosa diz que adora O som ao redor e enxerga várias conversas possíveis entre seu filme e o de Mendonça Filho. “Para começar, há uma série de discussões que são muito jovens no Brasil e que não apareciam no cinema. A questão racial, por exemplo, só vem sendo enfrentada agora, depois das cotas. Ainda é muito novo, portanto”, levanta. Ainda sobre minorias versus maiorias, Barbosa lembra que as narrativas cinematográficas abrem espaços para as minorias clássicas: negros, pobres, mulheres, homossexuais, mas pouco falam da minoria rica e branca. “Eu só consegui falar disso por conta daquele meu ponto de vista mais retirado. Eu era branco e estrangeiro, morando no Harlem, um bairro negro de Nova York. Ali eu me dei conta de que eu era uma minoria e essa tomada de consciência foi o que me permitiu tratar do tema com mais distanciamento”, explica.

As cenas de Jean com os empregados, depois ex-empregados, e com colegas menos ricos, de fato, desvelam esse incômodo com delicadeza, sim, mas sem auto-indulgência. Aliás, uma diferença entre Casa Grande e O som ao redor mora aí. O filme de Mendonça Filho é mais tenso e mais jocoso com a burguesia, editado de forma a incomodar e cutucar mesmo. O filme de Barbosa, embora teça as críticas que o autor julgou necessárias, é mais leve, mais bem humorado. O raciocínio vale para a estrutura também. O espectador saca logo quem é o protagonista e já começa a torcer por Jean desde o início do longa. Vários pontos de vista estão ali colocados – como em O som –, mas a relação do público com o personagem, e portanto a adesão, é mais direta em Casa Grande.

Talvez por isso seja mais fácil ganhar um público maior. Em tempo: este é um dos sonhos do diretor. Barbosa espera que, por tratar de assuntos da juventude, de questões de família, se passar dentro de um colégio tradicional, a chance de escolas e professores abraçarem Casa Grande e o levarem para as salas de aula aumente. “Seria fantástico. Não posso falar muito de projetos pedagógicos, porque não sou especialista, mas acho que tem conteúdos bem ricos e interessantes para serem trabalhados com os estudantes”, sugere.

 

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