Novas realidades, novos discursos, novos sentidos

O professor e vice-presidente do SINPRO-SP, José Salvador Faro, reflete sobre os novos paradigmas do trabalho docente: “Pois é assim mesmo: a escola como uma abstração tecnológica; sem a concretude do trabalho do professor, responsável pelas tais “longas explanações”, e, de alguma forma, o articulador do trabalho que surge de toda essa nova complexidade”, explica. Confira o artigo na íntegra!

J.S. Faro*

As escolas particulares estão preocupadas com os efeitos que a mudança no Artigo 6o. da CLT (que obriga os empregadores ao pagamento do trabalho extroardinário feito com tecnologias digitais) pode ter sobre seus lucros. Se a nova disposição legal pegar – e tudo indica que isso vai acontecer – acaba a desordem em que vivem os docentes de todos os níveis em decorrência das tarefas que passaram a ser exigidas, em especial aquelas que decorrem do uso da rede para o atendimento e o acompanhamento dos alunos.

Não há novidade nenhuma nessa preocupação das escolas; o que há de novo é a tentativa – intencional ou não – de construir um discurso midiático que naturalize as atividades extraordinárias dos professores de tal forma que elas (as atividades) escapem da abrangência da nova disposição legal (em vigor desde dezembro do ano passado).

Melhor explicar isso de forma mais detalhada: o que está em processo é a montagem de um argumento segundo o qual toda a extensão do trabalho do professor que se realiza fora da sua atividade letiva é uma decorrência natural de sua especificidade. Quer dizer, se uma aula se desdobra no atendimento on-line, administração de suportes didático-pedagógicos digitais (textos, apostilas, alimentação de sites, chats ou fóruns de discussão etc), não há justificativa para que tudo isso seja considerado extraordinário, mas ordinário, isto é, tarefas que integram onovo cotidiano do que faz um professor.

Não é preciso ir muito longe para que se perceba a armadilha desse argumento pois que a extensão indefinida no tempo dos desdobramentos do ensino acabariam transformando o professor num tutor e não num profissional da Educação. Comprometido em tempo integral com as novas possibilidades que as tecnologias digitais apresentam, ao docente não restaria outra alternativa senão submeter-se à sua lógica (das tecnologias) e não às suas limitações físicas e psíquicas (do professor). Em perspectiva, a ideia de descanso como um período de reposição de energias intelectuais estaria abolida. Em seu lugar, o trabalho de duração infinita…

Apesar da evidente grosseria desses argumentos, todos eles juntos e apresentados com armações conceituais e pedagógicas que enaltecem as virtudes da atividade educacional, quase sempre enobrecendo-a, fazem a cabeça de muitos e seduzem, ainda mais quando vêm acompanhados de autoridades reconhecidas no campo pedagógico.

É o caso, por exemplo, do entrevistado pela revista Nova Escola na sua edição deste mês de outubro de 2012 (indisponível na rede), o professor António Nóvoa, um estudioso justamente celebrado entre os educadores brasileiros pela visão abrangente que tem da Educação na sociedade contemporânea. O argumento de Nóvoa é conhecido: a responsabilidade social da Escola nos dias atuais encontra-se superdimensionada (“carrega a carga de caminhões sobre rodas de bicicleta”) e ela é talvez, das instituições que integram a esfera pública, uma das que mais sistematizadamente têm sido penalizadas pelas expectativas que a sociedade nutre a seu respeito, como se estivesse na Escola a resposta para os problemas que cansamos de denunciar todos os dias: a violência, o egocentrismo e o hiperindividualismo, a desintelectualização do conhecimento etc.

Nóvoa tem razão quando afirma que a figura que mais vive o tensionamento desse processo é o professor, o que exigiria dele um esforço extraordinário de qualificação para dar conta do desafio que a Escola lhe transfere. Essa constatação, no entanto, soa como música nos ouvidos dos empresários da Educação – e, infelizmente, de forma precipitada, também aos ouvidos de muitos professores: na escola privada, o entendimento do que vem a ser “qualificação” é bem diferente daquilo que Nóvoa diz. Qualificação ali é volume, é obsessão pelo registro das quantidades, é o tempo desperdiçado com projetos educacionais de natureza mercantil e é também… o uso irracional das tecnologias digitais. Em síntese, qualificação é sobre-trabalho do professor e não qualquer atividade pedagógica consequente com o desafio que a Escola enfrenta. O tratamento que a revista Nova Escoladeu ao assunto, no entanto, é superficial e desvinculado da realidade do trabalho docente, como se aquilo que o professor faz não se materializasse, não existisse física e materialmente. Mas é bom deixar claro: a perspectiva da Nova Escola não tem nada a ver com a excelência da entrevista de Nóvoa. O que a revista deixou de fazer foi aproveitar, com acuidade, a qualidade das reflexões do professor português…

Pior que isso é o que faz a revista Época na matéria de capa de sua edição no. 54, de setembro de 2012 (aqui). A reportagem é toda produzida no tom do deslumbramento que as tecnologias digitais provocam nos espíritos menos exigentes, sempre prontos a ver umarevolução por minuto em cada novidade eletrônica. Sob o título “O fascínio da escola tecno”, o que a revista faz, na verdade, é amontoar informações dispersas sobre os novos padrões de comportamento que os estudantes – desde cedo, muito cedo – adquirem diante de recursos como tabletssmartphones etc, elementos que fizeram nascer “uma nova rotina escolar”. É tudo verdade, mas a ilustração que acompanha o texto da matéria – um encadeamento de fluxos e contra-fluxos de informações e recursos, um obscuro painel de inputs e outputs de procedimentos, não faz uma única – nem uma – referência ao professor, embora afirme que o que está ali descrito é “a sala de aula do século XXI”, com esta pérola: “Para capturar a atenção de todos, longas explanações deram lugar a atividades interativas”.

Pois é assim mesmo: a escola como uma abstração tecnológica; sem a concretude do trabalho do professor, responsável pelas tais “longas explanações”, e, de alguma forma, o articulador do trabalho que surge de toda essa nova complexidade. A Escola, no entanto, vê isso como uma decorrência natural das mudanças; nada que escape à “nova rotina escolar”. Ora, se é “rotina” por que então falar em trabalho extraordinário?

Posso estar enganado, mas duvido: essa montagem discursiva em torno da nova realidade didático-pedagógica contemporânea – como tenho dito, um núcleo semântico que se articula com práticas materiais e ideológicas – oculta pelo menos três dimensões tão delicadas quanto perigosas. A primeira é a que emerge de uma percepção colonizada que os sujeitos envolvidos nesse processo têm das tecnologias da informação e da comunicação, entendido o termo “colonizada” como a abdicação do sujeito e de sua autonomia intelectual; a escola e seus agentes submersos por uma pulsão que escapa ao seu controle. A segunda, que se alimenta dessa primeira, vem ao encontro da exploração do trabalho no âmbito da intensa mercantilização do ensino, mesmo quando ocultada sob a embalagem das virtudes da Escola e do ofício do educador. E a terceira é aquela que fala sobre o papel da mídia como funcionalizadora reiterativa desse complexo pela maneira como dispõe esses discursos na esfera pública. Estamos bem arranjados…

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Professor da Metodista e da PUC-SP. Integrante do corpo editorial da Revista Giz.

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